
O dia tão esperado pelos veteranos nostálgicos e pelas novas gerações de fãs de rock chegou. No sábado, 22 de fevereiro, o evento foi realizado no Teatro Flores, onde tocaram JAF e Vitico y Los Leones. Foi um show cheio de energia, alegria, nostalgia e muito Rock n’ Roll, uma festa onde boa parte do público presente, incluindo este colunista, pôde reviver ao menos por uma noite aqueles anos de shows do Riff, banda liderada por Norberto “Pappo” Napolitano e que em 1985 Vitico e JAF dividiram a formação gravando o álbum “Riff VII” lançado naquele mesmo ano. É difícil permanecer imparcial ao escrever esta análise, pois o escritor era um fã fervoroso da banda mencionada.

Para aqueles que não estão familiarizados com o contexto geral, será necessário explicar brevemente a história de Riff. A banda em questão era um projeto musical de Rock fundado em 1980 pelo guitarrista argentino “Pappo” Napolitano que variava entre Hard Rock, Heavy Metal, Blues e Classic Rock, dependendo da época, das formações e dos álbuns publicados. O Riff adotou uma estética muito agressiva para a Argentina na época, com couro preto e roupas cravejadas, baseadas na estética dos grupos de punk e metal do Reino Unido. A formação original era Norberto “Pappo” Napolitano na guitarra solo e vocais, Vitico no baixo e vocais, Boff na guitarra base e Michel Peyronel na bateria e vocais. No primeiro período, que durou entre 1980 e 1983, eles gravaram 3 álbuns de estúdio e um álbum ao vivo com a participação de Danny Peyronel nos teclados, irmão de Michel. Após um show no estádio Ferrocarril Oeste no final de 1983, a banda se desfez.
Em 1985, Riff retornou aos palcos e publicou “Riff VII”, mas com uma formação diferente: JAF na guitarra base e vocais, aventurando-se pela primeira vez em um projeto de gravação, e Oscar Moro, ex-baterista de Los Gatos, La Máquina de Hacer Pájaros e Serú Girán. Embora essa breve reunião tenha terminado em 1986, desde 1990 o Riff se reuniu brevemente em diversas ocasiões com sua formação original e lançou mais dois álbuns de estúdio e alguns álbuns ao vivo até a trágica morte de Pappo em 2005, quando a banda finalmente se dissolveu. Vale destacar que Pappo Napolitano alternava Riff com Pappo’s Blues, seu outro projeto musical mais voltado para o Blues e o Rock clássico.
Feitos os esclarecimentos acima, é oportuno relatar o que ocorreu na noite de sábado, 22 de fevereiro, no Teatro Flores. O público chegou ao local vestindo diferentes camisetas de Riff, Pappo, Viticus (projeto anterior de Vitico que durou 20 anos) e outras bandas fora do universo Riff. Não é de se espantar a presença de frequentadores veteranos, com mais de 40 anos, que viveram a época da lendária banda de Rock, mas também havia um público de todas as gerações, fossem pais com seus filhos e até avós com seus netos ou jovens fãs que compareceram ao show por iniciativa própria.

Às 20h30 a cortina se abriu e JAF, vocalista e guitarrista, deu início ao seu show acompanhado de sua filha Virginia Ferreyra na guitarra base e backing vocals, Hugo Mense no baixo e Ricky “Griego” Alonso na bateria. A lista de músicas começa com “Desconectados”, “El Doctor” e “Corazón en llamas” foram a introdução para cativar o público presente, a última música mencionada motivou a liberar muitas emoções cujas letras tratam da busca por sonhos e liberdade.


Em seguida vem a música “Labios”, e JAF, usando seu senso de humor, disse que a interpretação do título fica a critério de cada um. A canção “Diapositivas” serve para dar continuidade ao espetáculo até conectar-se com duas baladas que são as obras mais conhecidas de Juan Antonio Ferreyra (JAF), “Todo mi amor” e “Maravillosa Esta Noche”, uma adaptação para o espanhol de “Wonderful tonight” de Eric Clapton acompanhada pelo coral do público. As músicas “Dos almas”, “Nocivo” e “Sexy Lady” continuam elevando a temperatura do local com este repertório contundente interpretado por uma banda musicalmente sólida.


Às vezes, entre uma música e outra, JAF aproveitava para contar uma anedota sobre sua juventude e seu início na música. Mas perto do fim do show, o cantor finalmente contou como conheceu Vitico, que o convidou para se juntar ao Riff depois que ele e Pappo foram vê-lo ao vivo com sua banda anterior, La Banda Marrón. JAF afirmou que o Riff é a melhor banda de rock da Argentina e que ele está orgulhoso e grato por ter feito parte dela. Em seguida, soam os acordes de “Whole lotta love”, de Led Zeppelin, com a agradável surpresa de ver que sua filha Virginia é quem canta a música enquanto JAF a auxilia no refrão. O último show da lista é “Me voy para el sur” (Vou para o sul) cujo refrão é cantado pelo público a pedido do artista e no final do show o JAF dedicou o show às novas gerações de músicos que estão iniciando o caminho, a banda se despede com todos os músicos se abraçando e fazendo várias reverências de agradecimento ao público.

Às 22h, a cortina do palco se abriu novamente para apresentar Vitico y Los Leones, que começaram seu show com “Rayo Luminoso”, a primeira de uma longa lista de músicas quase exclusivamente de Riff. As pessoas já estavam começando a cantar junto as músicas, revivendo tempos passados, e o clássico pogo estava começando a acontecer em frente ao palco, liderado por roqueiros felizes. A segunda música que a banda executou com muita maestria, assim como o restante do repertório, foi “Macadam 3, 2, 1, 0”, aumentando o nível de loucura do público. Como a música de Riff não é para todos, os solos de guitarra de Pappo ainda conseguem tocar as fibras mentais hoje em dia, fazendo com que nada seja mais o mesmo, pois é uma viagem sem volta em direção à loucura mais prazerosa da qual não queremos sair. A música de Riff é uma loucura linda que vale a pena colocar um aviso em seus discos como precaução para as pessoas mais sensíveis de espírito.

O show continua com “We Need More Action” para a alegria do público que não parou de cantar uma música atrás da outra. Mas quando os primeiros acordes de “En la Ciudad del Gran Río” soaram, todo o Teatro Flores veio abaixo com a plateia eufórica cantando como se fosse uma prece dedicada aos deuses. O calor era sufocante e a equipe de segurança do evento jogou água no público, mas isso não importou nada comparado ao poder da música enquanto Vitico e Los Leones continuavam seu trabalho com “No Detenga su Motor”, “Sordidez” e “El Forastero”. O público não parou de cantar, pular, dançar e empurrar uns aos outros no ritual do pogo.


A banda que acompanha o lendário baixista do Riff é formada pelos irmãos Pollo e Demon Pistarelli nos vocais e guitarras, com Demon responsável pelos solos de guitarra e Ale Soto na bateria. Os músicos conseguem executar o repertório de Riff com grande sucesso, fazendo jus às músicas que Pappo tocou por muitos anos.
Então ocorreu um momento memorável, JAF subiu ao palco convidado por Vitico para tocar duas músicas do álbum “Riff VII”: “La Espada Sagrada” e “El Ex-terminador”. O público comemorou o reencontro dos dois sobreviventes do Riff de 1985, vale lembrar que o baterista Oscar Moro morreu em 2006 em decorrência de uma úlcera hemorrágica. Considerando que Vitico e Jaf dividiram a mesma data, não é de se surpreender que eles tenham tocado algumas músicas juntos e, de fato, essa era a expectativa. Mas isso não impediu que fosse um momento mágico para os fãs mais antigos que viveram a era do “Riff VII” e para as novas gerações.

Vitico y Los Leones continuaram o show com “Que sea Rock”, do último álbum de Riff, lançado em 1997, intitulado com o mesmo nome e uma homenagem aos roqueiros que ainda mantêm suas firmes convicções musicais em um mundo atual onde tudo parece ir contra eles devido à atual indústria musical. A última surpresa da noite foi um velho personagem conhecido no universo do Riff e atualmente convertido em uma eminência internacional do Rock n’ Roll: o guitarrista Nico Bereciartúa, filho de Vitico com quem dividiu a banda Viticus. Atualmente ele brilha no mundo todo como o atual guitarrista do The Black Crowes, banda de rock americana.

Nico Bereciartúa, sob o olhar atento do público e até de Demon Pistarelli, impôs-se com sua maestria na guitarra, improvisando sobre uma base com progressões de acordes de Rock clássico cuja tonalidade seria a que seria usada para interpretar outro clássico, “Sube a mi Voiture”. Nico provou que seu mérito na música não está simplesmente em ser filho de um músico lendário, mas em seu próprio esforço como instrumentista, o que lhe permitiu se juntar ao The Black Crowes e até tocar “Have You Ever Seen the Rain?” ao lado de John Fogerty, ex-líder do Creedence Clearwater Revival, um músico americano que este colunista admirou por toda a vida. Não é surpresa que Nico Bereciartúa tenha sido aplaudido por todo o público.

Depois vieram as músicas “Me tienen Cansado”, “No Obstante lo cual” e “Ruedas de Metal”. Após essas músicas, Nico Bereciartúa sai do palco e a banda toca a música “Mucho por hacer”, um clássico que não pode faltar em nenhum repertório do Riff. Não faltou uma homenagem a Pappo e os músicos começaram a tocar “Sucio y Desprolijo”, que não faz parte do catálogo de Riff, mas sim de seu outro projeto musical chamado Pappo’s Blues.
Então vem a música final da noite e Nico Bereciartúa retorna para se juntar à banda e fechar o evento com a atemporal “Susy Cadillac” onde os presentes, sabendo que era o fim da noite, acompanharam a banda com todas as suas forças cantando a música e pulando com o resto da energia que lhes restava. O show termina e os membros da banda se abraçam para cumprimentar o público, gratos pelo apoio.

Foi um evento memorável que jamais será esquecido por todos os presentes. Mas a magia não acabou com a última música da noite, ainda havia mais por vir, embora o colunista do Cultura em Peso não soubesse na época. Depois que todos deixaram o local, a maior parte do público foi para casa, outros decidiram jantar nos bares da região e um grupo mais seleto esperou os músicos saírem para cumprimentá-los e pedir um autógrafo ou tirar uma foto. Mas ocorreu uma situação completamente “random”, como se costuma dizer hoje em dia, um funcionário do Teatro Flores entregou a esta repórter a lista de músicas de Vitico y Los Leones, num gesto inusitado de cortesia e para espanto e depois gratidão do representante da Cultura em Peso, considerando que havia muito mais pessoas no local a quem poderia facilmente ter entregue a lista de músicas.
Mas a noite de sábado, 22 de fevereiro, continuou a surpreender. O Cultura em Peso teve a oportunidade de entrevistar Nico Bereciartúa, perguntando sobre seus planos futuros e parabenizando-o por sua chegada ao The Black Crowes. O vídeo da entrevista está disponível no canal do Cultura em Peso no Instagram. Este colunista agradece a Nico Bereciartúa por sua boa disposição para com este meio.

Por fim, a Cultura em Peso agradece a Pablo Noguera da Ay! Música Producciones e Gaby Sisti da Sisti Press pela oportunidade de cobrir este evento maravilhoso.