No dia 6 de março de 2026 , os Irlandeses RÚN trouxeram ao RCA Porto , no Espaço Agramonte , um dos concertos mais intensos e difíceis de catalogar que passaram recentemente pela cidade. A noite, organizada pela Music and Riots, reuniu o trio irlandês num ambiente perfeito para a sua proposta sonora: uma experiência imersiva onde folk , drone , sintetizadores, ruído e grooves se fundem num território artístico onde as fronteiras musicais simplesmente deixam de existir.

RÚN, por @__thepennylane

Caracterizar a música de RÚN através de rótulos convencionais torna-se rapidamente um exercício fútil. O trio move-se com uma liberdade total, saltando entre atmosferas que podem evocar passagens de blues e jazz , mergulhar em momentos densos quase sludge , ou até insinuar estruturas rítmicas inesperadas que roçam o trap. Nada parece obedecer a uma regra fixa e é precisamente essa recusa em seguir fórmulas que torna a experiência tão singular. Há uma sensação constante de improvisação controlada, como se a música estivesse sempre a nascer naquele exato momento, guiada por intuição e por uma espécie de pulsação coletiva.

O concerto serviu como apresentação ao vivo do mais recente trabalho da banda, o homónimo RÚN , lançado pela Rocket Recordings. Ao longo da noite, o trio percorreu grande parte deste disco de estreia, uma obra que se afirma como uma jornada sonora intensa e profundamente atmosférica. Entre momentos de introspeção e explosões de densidade sonora, o álbum revelou-se como uma exploração emocional e espiritual onde diferentes influências – desde o folk ao drone , passando pelo noise e por estruturas rítmicas inesperadas – são fundidas numa linguagem própria, impossível de reduzir a um único género.

No centro de tudo está a presença hipnótica de Tara Baoth Mooney. A sua voz, simultaneamente etérea, “witchy” e profundamente expressiva, parece surgir de um lugar antigo, carregado de mistério. Entre ecos, reverberações e cânticos que por vezes soam quase arcaicos, a vocalista conduz o público por um território sonoro onde a emoção ultrapassa facilmente os limites da linguagem. A sensação de ritual é intensificada por esse tratamento vocal e pela forma como a música envolve o espaço, criando momentos que oscilam entre o hipnótico e o inquietante.

Ao seu lado, o multi-instrumentista e baixista Diarmuid MacDiarmada desempenha um papel essencial na construção deste universo sonoro, com um baixo profundo que serve frequentemente de espinha dorsal às composições. Para além disso, participa também vocalmente e recorre a instrumentos arcaicos e objetos sonoros pouco convencionais para criar ambientes densos e texturais. A completar o trio está o baterista e produtor Rian Trench, cuja percussão versátil, ora rápida e pulsante, ora mais subtil e atmosférica, funciona como uma peça fundamental na dinâmica da banda, ajudando a moldar o ambiente e a conduzir as diferentes fases da música.

RÚN, por @__thepennylane

Musicalmente, o concerto foi uma verdadeira exploração de texturas. O baixo ressoava com uma presença física quase palpável, sustentando a densidade sonora enquanto sintetizadores, manipulação da mesa de mistura e instrumentos pouco convencionais produziam sons estranhos, orgânicos e por vezes quase naturais como se ecos da própria paisagem sonora do mundo fossem convocados para dentro da sala. O resultado era uma tapeçaria de drones, ruído e ritmos que se expandia e contraía constantemente, levando a plateia por uma viagem sonora que tanto podia ser meditativa como visceral.

O concerto terminou com a sensação de que algo raro tinha acontecido naquela sala. O público respondeu com atenção e curiosidade, preenchendo o espaço com uma presença significativa para um projeto tão singular e experimental. Num panorama musical muitas vezes previsível, assistir a uma atuação de RÚN é recordar que ainda existem artistas dispostos a explorar o desconhecido e a criar experiências verdadeiramente imersivas.

RÚN, por @__thepennylane
Setlist : 1 – Padir Poball ; 2 – Pupil; 3 – Your Death My Body; 4 – Terror Moon; 5 – Dawn; 6 – If I Must Die (by Rafeet Alareer); 7 – Such Is the Kingdom; 8 – I Come and Stand at Every Door; 9 – Caoineadh.

Ficam os agradecimentos à Music and Riots pela organização da noite, bem como ao Espaço Agramonte e ao RCA Porto por continuarem a acolher propostas artísticas desafiantes. E, claro, aos próprios RÚN por incluirem o Porto no seu percurso e proporcionar uma noite que dificilmente será esquecida por quem teve a oportunidade de a viver.

Podes consultar o álbum completo aqui:

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