A banda portuguesa Moonshade, formada no Porto em 2010, é já uma presença consolidada no Melodic Death Metal nacional. Com temas que exploram religião e sociedade, a banda mantém-se independente e ativa desde a sua formação, conquistando fãs com sonoridade intensa, pesada e criativa.

A formação de Moonshade é composta por Ricardo Pereira nos vocais, Pedro Quelhas e Luís Dias nas guitarras, Bruno Martins no baixo e Daniel Rodrigues na bateria.
No dia 19 fevereiro de 2026, Moonshade lançaram o EP Angels, Blood & Enemies, composto por três covers ousados e distintos:

- Engel (Rammstein) – uma versão mais pesada que carrega uma mensagem social forte, direcionando o público para o site https://moonshadeofficial.com/believe-women.
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Blood & Thunder (Mastodon) – homenagem a uma das bandas icónicas do metal, mantendo a agressividade e intensidade do original.
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Ma Meilleure Ennemie (Stromae & Pomme) – transformada sem perder a carga emocional e dramática da faixa original.
Tivemos a oportunidade de fazer algumas perguntas à banda e conhecer de perto toda a visão por trás deste EP. Nesta entrevista, Moonshade partilham detalhes sobre o processo criativo, a escolha das músicas, as mensagens por trás das faixas e como esperam que o público se envolva com o seu trabalho:
O que vos levou a escolher músicas de universos tão distintos como os
de Rammstein, Mastodon e Stromae?
Rammstein é uma das poucas bandas que reúne consenso entre todos os membros de Moonshade — somos todos fãs, e fazem parte das bandas da nossa infância. Por razões menos felizes, nomeadamente o escândalo de assédio envolvendo o Till Lindemann, os Rammstein surgiam constantemente nas nossas conversas, no contexto de tentarmos processar o que aconteceu. Foi aí que decidimos avançar com a cover, mas dando-lhe uma interpretação distinta no videoclip que gravámos para o tema, onde fizemos questão de
abordar até que ponto se pode separar a arte do artista, e denunciar abertamente o clima patriarcal da cena metal. A ideia era iniciar uma conversa que já vai tarde, e isso não se faz a jogar pelo seguro. Aliás, nenhuma arte decente se faz a jogar pelo seguro, acho eu. Quem não gostar também está à vontade para nos tentar cancelar — tem feito maravilhas pela carreira de outros artistas, ouvi dizer.
Dentro do Angels, Blood & Enemies, a escolha mais fácil de explicar seria “Blood & Thunder”, dos Mastodon: há anos que o Luís, o nosso guitarrista, a usa para aquecer, e muitas vezes, em contexto de ensaio, tocávamos um bocado da música só para descontrair. Enquanto gravávamos o tema, a morte trágica do Brent Hinds deu-nos a oportunidade de fazer uma homenagem não só a ele, mas também aos Mastodon.
Já “Ma Meilleure Ennemie”, do Stromae, tem um lado mais pessoal da minha parte. Vi a série Arcane com a minha namorada, numa de nostalgia por League of Legends, que jogávamos juntos quando nos conhecemos. Enquanto fã de Stromae, fiquei completamente siderado com a cena em que a Jinx e o Ekko dançam ao som do tema original. Falei com o Pedro, o nosso outro guitarrista e membro fundador — que adora tanto a série como o trabalho do Stromae —,ele sacou do esqueleto da cover, lançámos o desafio à banda e o resto é História.
O objetivo destes covers é alcançar um novo público ou mostrar outra
faceta da Moonshade?
Este EP resultou de um esforço bastante prolongado da banda para “limpar o palato” e estudar música diferente ao pormenor, de forma a incluir novos elementos no nosso som. Estamos muito satisfeitos com a resposta do público aos nossos dois primeiros álbuns, no entanto, não queremos fazer outro Sun Dethroned nem outro As We Set the Skies Ablaze. Há uma urgência em criar algo com uma identidade ainda mais marcada, tanto a nível musical como visual. Seria uma pena não existir qualquer registo desse processo de
aprendizagem, ainda que estas três covers sejam apenas uma parte pequeníssima do mesmo. Se, pelo caminho, chegarmos a um novo público e mostrarmos outra faceta nossa, melhor.
Um cover é, na vossa perspetiva, mais desafiante do que compor uma
música original? Porquê?
São desafios diferentes. Nas covers, o conforto de trabalhar sobre um tema já validado pelo público contrasta com a necessidade inevitável de ter bom-gosto q.b., para não estragar algo que já é amado por um público. Foi um excelente exercício de sensibilidade artística, inteligência mediática e humildade — e, modéstia à parte, acho que não nos safámos nada mal.
Na vossa versão de “Engel”, além do manifesto nas redes, direcionam o
público para o site https://moonshadeofficial.com/believe-women, com
imagens de homens, sem revelar toda a identidade, e que remetem para
casos reais de abuso contra mulheres. Porque decidiram ir além da
música e criar essa ponte direta para notícias e realidade concreta?
A necessidade primária foi, como sempre, defender algo que valha a pena defender. Pessoalmente, metem-me nojo bandas de metal pseudo-revolucionárias — ou seja, bandas que se revoltam contra algo vago, mas nem elas próprias sabem bem o quê, apenas “a sociedade”. Muitas vezes, essas mesmas bandas têm membros que não passam de conservadores a fazer cosplay de rebeldes.
Posto isto, uma das coisas que considero mais importantes neste vídeo foi termos conseguido dizer mais com ele — e com uma música que nem é nossa — do que muitas bandas que passam carreiras inteiras a apregoar que estão a “meter o dedo na ferida”. A escolha de “Engel” foi propositada: os Rammstein já referiram que a letra é apenas dark poetry, sem um significado muito concreto; nós tomámos a liberdade de lhe atribuir um significado próprio. Os temas de solidão, morte e rejeição da perfeição divina do original ganharam outra voz com o vídeo, passando a representar a recusa do silêncio, da distância e da pureza imposta, da parte das vítimas.
A mensagem é simples: enquanto subcultura, temos um problema e temos de lidar com ele. Apesar de muitos se orgulharem da alegada inclusividade da cena metal, a verdade é que quem está ligado a ela, sobretudo ao underground, sabe — se for honesto consigo próprio, pelo menos — que o sexismo e o chauvinismo são o prato do dia, e não é de agora. Há cerca de 10 anos fiz uma entrevista para a Mosher TV a várias mulheres de bandas emergentes no panorama nacional, e a opinião foi unânime. Desde então, surgiram dezenas de casos mediáticos de abuso por parte de músicos mais e menos conhecidos, bem como centenas de entrevistas e artigos de opinião. É mais do mesmo.
Expusemos apenas alguns desses casos na nossa página — a ponta da ponta do iceberg — e não fizemos grande esforço para ocultar identidades, até porque, as imagens são botões para notícias sobre essas pessoas. O vídeo e a sua mensagem são claros: ouçam as mulheres e ajam em conformidade.
Quando lançam o desafio “Will you join us?”, que tipo de envolvimento
esperam realmente do vosso público – reflexão, posicionamento ou ação?
Tudo. Admitir que existe um problema é apenas o primeiro passo, e por si só não chega. Metade do problema seria resolvido se se criasse um clima hostil ao sexismo, denunciando linguagem e atitudes sexistas em vez de as validar ou ignorar — e, para ser claro, isto tem de partir sobretudo dos homens.
Convém também sublinhar que não estamos a dizer que o sexismo é um problema exclusivo da cena metal. O que estamos a dizer — e quem souber ler nas entrelinhas percebe — é que o espírito revolucionário e a identidade subversiva do heavy metal são ferramentas poderosas para desconstruir ideias pré-estabelecidas.
Como foi adaptar uma canção mais emocional e pop como “Ma Meilleure
Ennemie” (Stromae & Pomme) para uma sonoridade mais pesada?
Foi, sem dúvida, a mais desafiante de todas, mas também aquela que teve o resultado mais original, na minha opinião. É claramente a que divide mais opiniões. Ainda assim, foi extremamente importante para experimentarmos elementos que queremos integrar nos nossos futuros temas originais, tanto ao nível da composição como da produção.
Como surgiu a ideia de ter o Daniel, baterista da banda, a cantar as partes
limpas em “Ma Meilleure Ennemie”? Foi algo planejado ou surgiu
naturalmente durante os ensaios?
O talento do Daniel já era evidente no seu projecto a solo, Daniverse, e quando o convidámos para a banda ficou logo em cima da mesa a possibilidade de ele assumir vocais limpos, dentro do que é possível atrás da bateria. A voz dele é simplesmente incrível. Quando começámos a criar este EP, as partes em que a voz dele encaixava surgiram de forma orgânica — e o mesmo tem acontecido com os temas originais que estamos a desenvolver.
Até que ponto procuram respeitar a essência da versão original e onde
sentem liberdade para desconstruir e reinventar?
Depende de cada música. Tivemos muito cuidado em definir quais eram os elementos intocáveis de cada tema e quais poderiam ser moldados, e até que ponto. Não o fizemos a pensar na reacção do público, mas sim na nossa, enquanto fãs.
Há uma mensagem comum que une estes três covers, ou cada um
representa uma fase diferente da banda?
Diria que nenhuma das opções. Cada música é um elemento distinto, escolhido por motivos diferentes, que trabalhámos esteticamente numa obra coerente como exercício artístico.
Há datas de concertos previstas para 2026 que possam partilhar
connosco?
Para já, ainda não podemos anunciar datas para 2026, mas estamos a trabalhar nesse sentido. Há vontade — isso posso garantir. Se querem ver Moonshade num evento perto de vocês, pedimos, cordialmente, que chateiem os vossos promotores locais até à exaustão. E obrigado a quem nos ouve. É isso que faz tudo valer a pena.
Entre homenagem, reinvenção e manifesto, este EP marca um momento de transição e afirmação, revelando uma banda que não tem receio de provocar conversa nem de assumir uma postura clara dentro e fora da música.
Se este lançamento é um vislumbre do que aí vem, 2026 poderá trazer uns Moonshade ainda mais ousados e conscientes. Ficamos atentos aos próximos capítulos.
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