No passado sábado, 21 de fevereiro, o emblemático Buraco Pub voltou a afirmar-se como um dos espaços mais vibrantes da cena underground, ao receber uma noite intensa de celebração da música pesada. O cartaz reuniu três propostas distintas mas complementares: Verbian e Kuma, a aquecer o palco, e os muito aguardados Soul of Anubis, que trouxeram a Ovar a apresentação do seu mais recente álbum, Ritual.

Num ambiente íntimo, mas carregado de energia e comunhão, o público respondeu com entusiasmo desde os primeiros acordes, confirmando o Buraco Pub como um verdadeiro ponto de encontro para amantes de sonoridades intensas e autênticas. Verbian e Kuma mostraram personalidade e entrega, preparando o terreno de forma irrepreensível e com mestria para o momento alto da noite. Os Soul of Anubis elevaram a fasquia com uma atuação poderosa e envolvente, dando vida a Ritual com uma presença em palco segura e magnética.
VERBIAN
A abrir a noite estiveram os portuenses Verbian, um trio que navega com mestria entre o sludge, o experimental, o stoner e o space rock, com momentos que remetem para a densidade cósmica de Blood Incantation e algumas nuances que fazem lembrar Mastodon.

Se alguém esperava um arranque tímido, rapidamente percebeu o engano: a banda entrou a 1000%, sem qualquer necessidade de aquecimento, atacando de frente com Não vá o Diabo Tecê-las e estabelecendo desde logo o tom da atuação. O impacto foi imediato: peso, ambiência e uma segurança em palco que desarmou qualquer hesitação inicial do público.
Grande parte da identidade do trio constrói-se na forma como trabalha os crescendos: intensos, pacientes, quase provocatórios. Não há pressa em chegar ao clímax, antes pelo contrário. Cada tema, desde Pausa Entre Dias até Terra Maldita, é erguido camada sobre camada, com teclados e sintetizadores a desenharem atmosferas psicadélicas, melódicas e por vezes até próximas do drone. Cria-se uma espécie de ansiedade boa, uma expectativa constante sobre o que virá a seguir. E quando parece que já se atingiu o pico máximo, a banda encontra sempre forma de elevar ainda mais a fasquia. São composições emocionalmente envolventes, que dispensam de voz para transmitir a mensagem. A narrativa é feita através da dinâmica, da textura e da intensidade.
Em palco, nota-se um equilíbrio raro: os três elementos contribuem de forma clara e indispensável para o todo. As linhas de baixo soam sólidas e bem audíveis, a bateria oscila entre o tribal, o progressivo e explosões mais rápidas e técnicas e a guitarra acrescenta melodia e ambiência, pontuada aqui e ali por solos memoráveis. O alinhamento perfeito entre três almas. O desafio fica lançado: tentem assistir a um tema deste trio sem abanar o pescoço. Avanço já que é impossível.
No último tema, Marcha do Vulto, a surpresa: o baixista assume também a voz, soltando berros rasgados que acrescentam uma nova camada crua e inesperada ao som da banda. Um fecho poderoso para uma atuação que não só aqueceu a noite, como elevou imediatamente o nível da mesma.

Setlist: 1- Não vá o Diabo Tecê-las; 2 – Pausa Entre Dias; 3- Vozes da Ilha; 4 – Fruta Caída do Mar; 5 – Terra Maldita; 6 – Marcha do Vulto.
KUMA
Depois da viagem densa e atmosférica dos Verbian, os espanhóis KUMA assaltaram o palco com uma proposta mais direta e incendiária. Autodefinidos nas redes sociais como “Tres buenos amigos haciendo música rápida”, dificilmente poderiam ser mais fiéis à descrição.

O trio trouxe uma descarga de grind, thrash e powerviolence sem filtros: músicas curtas, rápidas, sem rodeios, sempre a rasgar do primeiro ao último segundo. Aqui é right to the point e com o pé permanentemente no acelerador.
Instrumentalmente, KUMA movem-se entre o thrash mais cortante e algumas nuances de grind ou powerviolence, com batidas rápidas e secas a comandar o caos (des)controlado. A voz, carregada de ruído e distorção, acrescenta uma camada ainda mais agreste aos temas, reforçando a sensação de urgência. Pelo meio, surgem momentos com algum groove que podem fazer lembrar a agressividade moderna de The Haunted, mas sempre filtrados por uma estética descomprometida. Um apontamento curioso e impossível de ignorar são as transições entre temas, onde se ouve uma voz masculina a debitar frases provocadoras (várias delas, não poderão ser aqui mencionadas) cujo conteúdo fica à vossa imaginação, acrescentando um toque quase performativo ao alinhamento, e definitivamente, adicionando alguns risos nas passagens musicais.
O concerto foi uma sucessão imparável de explosões sonoras, com temas a entrarem uns nos outros sem dar grande margem para recuperar o fôlego. E quando parecia que já tinham disparado tudo o que havia para disparar, fecharam com um momento tão inesperado quanto memorável: no final do último tema, ecoou um “SIIIIIIM!” bem português, à Cristiano Ronaldo, arrancando sorrisos e cumplicidade imediata do público. Intensos, rápidos e eficazes, os KUMA não complicam, eles atacam!

Setlist: 1 – Reinicia; 2 – Dinoseto; 3 – Un Día de Furia; 4 – Etiloviolencia; 5 – Rural Core; 6 – El Gran Apagón; 7 – No Mames; 8 – Cubatrón; 9 – Navidad; 10 – Me La Suda; 11 – Heavy Metal; 12 – Muy Lejos de Ti; 13 – Ajuste de Cuentas; 14 – Estafa Piramidal; 15 – El Fuá; 16 – CRT; 17 – Pizza.
SOUL OF ANUBIS
Largos minutos antes de subirem ao palco, o público já se encontrava em posição, expectante para o momento mais aguardado da noite. Os feirenses Soul of Anubis chegavam ao Buraco Pub com um motivo especial: a celebração do lançamento, na véspera, do novo álbum Ritual. O concerto assumiu-se como a apresentação oficial do disco em palco, sem esquecer o passado, uma vez que o alinhamento recuperou também temas de The Last Journey (2019), numa combinação que evidenciou maturidade e continuidade no percurso da banda.

Vermin abriu as hostilidades e definiu desde logo o tom: sludge agressivo, tecnicamente sólido e carregado de intenção. Para quem já conhecia Ritual, foi a confirmação da sua força. Para os restantes, uma introdução inequívoca à identidade do duo. Human Torch, Ritual, Mind Crusher, Unholy Tomb e Incarnation soaram ainda mais cruas ao vivo. Os vocais, rasgados e penetrantes, transbordavam emoção, enquanto a guitarra conduzia os temas com riffs marcantes e variações melódicas bem trabalhadas. A bateria impunha-se ainda com precisão e energia incessantes, numa execução que prendeu o olhar e o fôlego.
A inclusão de Embodied Chaos e Shade of Oblivion, de The Last Journey, reforçou a consistência do reportório, enquanto a versão de Green Machine, dos Kyuss, surgiu como momento inesperado mas perfeitamente integrado na densidade sonora da atuação. No seu todo, o que Soul of Anubis apresentaram foi uma massa sonora intensa e envolvente, pesada, abrasiva, mas profundamente sentida. Há violência nos riffs e crueza na entrega, mas também uma dimensão emocional que transforma o impacto em catarse. Cada grito carrega história, cada pausa amplia a tensão.
Mais do que a técnica, impressiona a entrega. O duo vive cada segundo em palco com autenticidade palpável, deixando claro que a música que criam é uma extensão direta daquilo que são.
Quando a despedida parecia definitiva, o público exigiu mais, e foi aí que surgiu Shade of Oblivion, um tema que ecoa como reflexão sobre a falta de empatia nos tempos atuais. Uma escolha simbólica para fechar uma noite que celebrou o presente e projetou o futuro, sem nunca perder de vista as raízes que sustentam o caminho dos Soul of Anubis.
No final de contas, Ritual revelou-se um trabalho coeso, pesado e cheio de identidade, ganhando ainda mais força em palco. Um disco que não só consolida o percurso da banda, como aponta claramente para um futuro ambicioso dentro do sludge nacional.

Setlist: 1 – Vermin; 2 – Embodied Chaos; 3 – Human Torch; 4 – Ritual; 5 – Mind Crusher; 6 – Unholy Tomb; 7 – Incarnation; 8 – Green Machine (Kyuss Cover); 9 – Shade of Oblivion.
A noite ofereceu três momentos distintos mas complementares: a densidade atmosférica e crescente dos Verbian, a descarga curta e incendiária dos KUMA e, como ponto alto, a afirmação categórica dos Soul of Anubis. Enquanto os dois primeiros prepararam o terreno com personalidade e impacto, foi o duo feirense quem selou a noite com uma atuação intensa, madura e emocionalmente avassaladora.
Tudo isto ganhou uma dimensão especial no ambiente íntimo e fervilhante do Buraco Pub. Entre luzes cruas, proximidade física e uma comunhão evidente entre bandas e público, viveu-se uma noite onde a música foi sentida sem filtros. O Buraco Pub voltou a provar o porquê de ser um dos espaços mais importantes para a cena underground: palco de entrega genuína, suor e paixão. Que venham mais noites assim!

