De Santa Mago para o mundo: Thell Barrio continua na luta
Thell Barrio, banda de Guadalajara, formada em Zapopan, Jalisco, carrega em seu nome uma declaração de princípios: fazer com que o bairro fale, grite, reclame e dance. Formada no bairro de Santa Margarita (Santa Mago para a galera), Thell Barrio transformou o caos cotidiano em metal, hardcore, percussões latinas e uma identidade própria que eles mesmos batizaram de Latincore.
Machete, máscara, tambora e punho erguido. Enquanto outros tentavam imitar o som anglo-saxão, eles decidiram soar como as ruas mexicanas e como uma festa em meio ao caos.
O ponto de virada para muitos aconteceu com “Mi Verdadera Familia”, música que acabou se tornando um hino de pertencimento para aqueles que encontraram na banda algo mais do que apenas distorção.
Charro, guitarrista da banda, nos contou mais sobre a banda e sobre TRECE, seu novo álbum, que funciona como um encerramento e um renascimento. São oito faixas nas quais a banda reforça sua busca por expandir o Latincore, incorporar novos elementos sonoros e manter uma mensagem que permeia toda a sua trajetória: união, justiça, orgulho latino e resistência diante de um mundo cada vez mais dividido.
Esta turnê tem como objetivo promover o novo projeto deles, TRECE. O número 13 está relacionado à transformação e ao encerramento de ciclos, segundo a cosmovisão maia. Com base nisso, que ciclo vocês sentem que terminou para a banda e qual é o que está começando?
Nós achamos que terminou uma etapa do que fazíamos antes: a maneira como trabalhávamos, várias dúvidas foram esclarecidas e também deixamos para trás certos maus hábitos. Agora iniciamos um ciclo totalmente novo. Desde a composição, procuramos destacar a essência do Latincore, com o objetivo de deixar nossa marca bem estabelecida. Para isso, recorremos a outros instrumentos e a novos elementos musicais. Estamos iniciando um novo caminho, uma nova maneira de trabalhar, agora com mais pessoas integradas à equipe, ao lado de nossos irmãos da gravadora Blegh Label, e também uma nova forma de nos expressarmos na música.
Este álbum ficou relativamente curto em comparação com *X Vida* e *Straight Outta Barrio*. Foi uma decisão artística ou simplesmente foi assim que o processo criativo se desenrolou?
Foi uma decisão. Desde o início definimos o número de faixas; já tínhamos a ideia bem clara. Havia uma data de início e uma data de entrega, embora, no final, essa data tenha mudado porque, basicamente, tentamos levar a música até onde realmente nos convença.
Não a criamos seguindo um roteiro pré-definido, mas nos demos a oportunidade de trabalhar nela até que estivesse completa, até sentirmos que já era o conceito que estávamos buscando e que tinha tudo o que era necessário para essa nova aventura.
Depois de todos esses anos, vocês acham que o conceito de Latincore já está bem estabelecido?
Tentamos fazer isso. A verdade é que, neste álbum, nos concentramos mesmo em fazer com que soasse a Latincore, embora sempre tenhamos buscado isso conscientemente. Sempre tentamos combinar a força, a aspereza e a crueza de um grito, de um protesto, com um ritmo animado; que nos faça balançar a cabeça, pular e aproveitar o momento. Acho que a maioria das pessoas que nos acompanha e nos conhece poderá julgar isso.
Mas sim, sinto que, justamente neste álbum, deixamos bem marcada a marca e o som que queríamos estabelecer com o Thell Barrio, agora mais voltado para os ritmos latinos.
Nas suas músicas, há muita crítica social presente. Atualmente, quais são os temas que mais lhes preocupam, tanto como cidadãos quanto como artistas?
Atualmente, o problema continua sendo o poder e o dinheiro. As pessoas que acham que o dinheiro é tudo fazem de tudo para obtê-lo; passam por cima de quem for preciso e eliminam quem for preciso, desde que consigam mais poder.
Isso faz com que nós, seres humanos comuns, sejamos carne para canhão, mais uma estatística no meio de tudo o que acontece: guerras, injustiças e tudo o que ocorre ao nosso redor.
Acho que a divisão é algo que sempre nos preocupou. Por isso, tentamos transmitir uma mensagem de união. Em vez de ficarmos pensando no que nos diferencia ou por que não conseguimos nos dar bem, deveríamos buscar o que realmente temos em comum; esquecer as cores, as barreiras, a sexualidade ou qualquer outra coisa.
Procuramos fazer com que as pessoas não se fixem nas diferenças, mas sim unir a todos. E acredito que, justamente neste momento, o mundo está nos privando cada vez mais dessa união. As pessoas começam a se segregar até mesmo por causa de gostos pessoais. Há muitas comunidades que se dividem, e isso nos torna fracos como população, fazendo com que continuemos sendo manipulados e amarrados pelo poder e por pessoas que só buscam dinheiro.
Essas pessoas estão dispostas a passar por cima de tudo: da flora, da fauna, dos seres humanos, de qualquer coisa, desde que consigam industrializar ainda mais este mundo que, se já está indo para o buraco, pelo ritmo que estamos indo, não vai parar. É uma máquina voraz que está exterminando vidas, ecossistemas e tudo mais por dinheiro, indústria e poder. É isso que mais nos preocupa: que eles estão ganhando.
Atualmente, vivemos numa época em que a polarização está em toda parte. Vocês já tiveram que lidar com a situação de compor músicas de crítica social e ver as pessoas acabarem rotulando vocês com uma postura extrema de um lado ou de outro, quando não era isso que vocês buscavam? Não, acho que sempre tentamos ser a resistência.
Não estamos nem com a esquerda, nem com a direita, nem com nenhuma dessas questões. Como já disse, nós só acreditamos na justiça, no que deveria ser por uma questão de humanidade; em curtirmos a festa em paz, todos juntos, e respeitarmos este planeta em que vivemos, com as mesmas oportunidades e os mesmos privilégios.
A reclamação é essa: contra a injustiça, contra a falta de oportunidades e contra todo o desprezo que se demonstra por muitas pessoas. As pessoas que estão no poder, na verdade, nem sequer têm noção de como vivem e o que vivem muitas pessoas. E, no entanto, essas pessoas tentam aproveitar a vida da melhor maneira possível, ser felizes e buscar qualquer pretexto para fazer uma festa, apesar de serem pisoteadas e tão menosprezadas.
Falando da turnê, qual é a diferença em relação às outras que vocês já fizeram?
Este é um show totalmente novo, que nunca apresentamos antes. Estamos planejando-o há meses e trabalhando para criar uma experiência inédita. Se você já viu o Thell Barrio em alguma ocasião, este show vai ser diferente. Ele traz surpresas, mas com a mesma energia de sempre e um pouco mais. Vamos misturar músicas novas e antigas para que seja uma experiência totalmente diferente.
Vocês estiveram em turnê por vários países. Há alguma diferença notável entre como é um show do Thell Barrio na América do Sul, na Europa e no México?
Sim, com certeza. Na América Latina, em geral, somos muito parecidos no que diz respeito à reação do público ao show, à dança e ao mosh pit. É algo muito comum; somos muito semelhantes. Na Europa, há lugares que são um pouco diferentes. Há locais onde não rola tanta loucura nem tanto alvoroço como estamos acostumados aqui no México.
Mas quando você vai várias vezes a esse lugar, percebe que essa é a maneira deles de se divertirem. Não estão necessariamente fazendo headbanging; às vezes se abraçam e cantam. Mas acho que, no fim das contas, o resultado é o mesmo: eles ficam super satisfeitos, com uma grande carga de energia, e todo mundo adora.
Lá, somos como “exóticos”. Nós subimos ao palco com a máscara e todo esse estilo os encanta, por causa da cultura mexicana. Então, eles sempre se animam muito, mesmo que respondam de maneira menos impetuosa.
Para os próximos shows que vocês vão realizar no país, há alguma surpresa que permita que o público de Guadalajara e o de Cidade do México vivam a experiência de maneira diferente? Sim. Apesar de ser a mesma apresentação, há uma maneira de vivê-la em Guadalajara e outra em Cidade do México. São diferentes. Tentamos dar esse toque especial a cada show, para que não seja exatamente igual. Também somos contra essa ideia de repetir tudo exatamente da mesma forma, pois sabemos que cada apresentação tem sua importância, seu valor e sua maneira própria de ser conduzida.
E, para encerrar, após esses 22 anos de carreira, quais são as batalhas que vocês ainda consideram que vale a pena travar, em nível pessoal?
Sempre vale a pena lutar para melhorar, superar-se, crescer e para realmente conseguir levar a mensagem ao povo. Desejamos que essa mensagem seja apoiada e compreendida; que cada vez mais pessoas se interessem por essa essência de respeito, igualdade e rebeldia.
É isso que nos mantém motivados: superar a nós mesmos e continuar levando essa mensagem, porque acreditamos firmemente que essa é a única opção que temos, como Thell Barrio, para tentar mudar o mundo, ou pelo menos tentar, e estamos comprometidos com essa missão. Continuamos sentindo a mesma paixão de sempre por fazer música, por nos apresentarmos e por estar lá cantando com todo o pessoal. Isso é algo que nos mantém dia após dia, e até os últimos dias de nossa existência.
No fim das contas, Thell Barrio diz que ainda tem contas a acertar com o mundo. TRECE, mais do que um aniversário ou nostalgia, é um recomeço, um recomeço de zero, para hastear a bandeira novamente do mesmo lugar de sempre, mas com outra raiva e outra clareza.
A banda estará promovendo o álbum com várias apresentações no México; a próxima será no dia 13 de junho no Fuckoff Room, na Cidade do México.

