Depois de um primeiro dia marcado por atuações memoráveis e uma intensidade que se prolongou pela noite dentro, o SonicBlast 2026 entrava no seu segundo dia com a fasquia já bastante elevada. A Praia da Duna do Caldeirão voltava a receber milhares de pessoas preparadas para mais uma jornada de música, sol e celebração, enquanto pelos vários palcos se começavam a ouvir os primeiros riffs de um dia que prometia não dar tréguas. E se o primeiro dia tinha entregue nomes como Deafheaven, Chat Pile, Trash Talk, Bongzilla e muito mais, o segundo trazia consigo mais uma mão cheia de propostas capazes de manter o festival no nível a que já nos tinha habituado.

Entre o peso, o psicadelismo, o punk e as diferentes ramificações do rock pesado, o cartaz do segundo dia voltava a demonstrar a enorme diversidade que caracteriza o SonicBlast, nomeadamente Kylesa, Turbonegro, Conan, Voivod e muito mais. Com o recinto novamente bem composto desde cedo e o público preparado para enfrentar mais algumas horas de música, a única certeza era de que ainda havia muito para viver. Depois da intensidade do primeiro dia, era altura de voltar ao meio da multidão, levantar o copo e deixar que a música fizesse novamente o resto.
O segundo dia arrancou com uma alteração de última hora no alinhamento: os Dead Meadow cancelaram a atuação, mas o festival rapidamente encontrou uma solução à altura. Depois de terem surpreendido tudo e todos no primeiro dia, os CLAMM voltaram a subir ao palco para preencher o lugar deixado pelos americanos e, uma vez mais, conquistar o público com a sua energia crua e visceral.
JESUS THE SNAKE – Main Stage 2
Coube aos portugueses Jesus the Snake a responsabilidade de abrir o segundo dia no Main Stage 2, e a escolha acabou por revelar uma proposta bastante diferente daquela que tinha marcado o arranque do festival no dia anterior. Entre rock progressivo, psicadelismo e stoner instrumental, o quarteto construiu uma atuação contemplativa, paciente e atmosférica, onde os teclados assumiram um papel particularmente importante. Há uma clara herança de Pink Floyd na forma como desenvolvem as suas ideias, mas a banda não se limita a reproduzir referências: as guitarras carregadas de fuzz, os teclados expansivos e uma secção rítmica que permite diferentes nuances criam uma identidade própria e levam estas influências para territórios mais pesados.
Apesar de ainda não terem longos anos de carreira, os Jesus the Snake demonstraram uma maturidade surpreendente na forma como deixam os temas respirar e evoluir. O diálogo entre guitarra e teclados revelou-se particularmente eficaz, enquanto baixo e bateria construíam uma base suficientemente sólida para que a banda pudesse explorar diferentes texturas e dinâmicas. Foi uma viagem que se foi construindo lentamente, convidando o público a parar, ouvir e deixar-se transportar. Um início contemplativo para um segundo dia que, como o primeiro, prometia levar o SonicBlast por caminhos bastante distintos.
HÖG – Main Stage 2
Os americanos HÖG trouxeram ao Main Stage 2 uma dose de heavy metal psicadélico e hard rock, com uma forte veia de rock’n’roll. Assente em riffs pesados, distorção e uma abordagem crua e direta, a banda apresentou uma sonoridade que recupera a essência do rock pesado clássico sem deixar de acrescentar uma componente psicadélica. A sua música vive sobretudo da força dos riffs e de uma atitude descomprometida, criando uma combinação que se encaixa naturalmente no universo do SonicBlast.
Sentiu-se uma banda extremamente confortável dentro desta mistura de peso, psicadelismo e rock’n’roll. Sem grandes floreados, os HÖG apostaram numa abordagem direta e energética, deixando uma impressão super positiva durante a sua passagem pelo Main Stage 2 e mostrando mais uma das diferentes faces que o cartaz do SonicBlast consegue oferecer.

CLAMM – Main Stage 1
Após o cancelamento dos Dead Meadow, os CLAMM aceitaram o desafio de voltar a subir ao palco do SonicBlast, apenas um dia depois de terem protagonizado uma das atuações mais intensas do primeiro dia. Poderia esperar-se que uma segunda passagem pelo festival resultasse num concerto repetitivo, mas não quando se trata dos australianos. Mesmo com a memória da atuação anterior ainda bem fresca, os CLAMM voltaram a conquistar o público com a mesma energia crua e visceral, provando que a sua música não perde impacto quando repetida, pelo contrário, parece ganhar ainda mais força perante uma plateia que já sabe exatamente o que esperar.
O post-punk e o garage punk da banda voltaram a ser conduzidos por uma voz rasgada, carregada de raiva, revolta e alguma dor, enquanto os riffs diretos e as distorções acrescentavam novas camadas de caos ao conjunto. Em palco, o vocalista e guitarrista voltou a assumir a postura de um verdadeiro animal, percorrendo o espaço com uma intensidade difícil de ignorar. Os CLAMM aceitaram uma missão que não era simples: substituir uma banda que tinha acabado de cancelar e que muitos queriam ver, e cumpriram-na da melhor forma possível. Voltaram a dar ao SonicBlast uma descarga de energia e provaram que, afinal, ainda havia muito para retirar daquele concerto.
VOÏVOD – Main Stage 2
Às 18h25, os Voïvod chegaram ao Main Stage 2 para protagonizar um dos concertos mais distintos de todo o festival. Formados em 1981, os canadianos são uma verdadeira instituição do metal, mas sempre fizeram questão de caminhar à margem das convenções. O seu percurso começou profundamente ligado ao thrash metal, mas rapidamente evoluiu para territórios progressivos, psicadélicos e avant-garde, tornando-os numa banda praticamente impossível de encaixar numa única categoria. No SonicBlast, essa identidade esteve bem presente: riffs tecnicamente exigentes, mudanças inesperadas e uma abordagem que parece estar constantemente à procura de novos caminhos. Quase 45 anos depois da sua formação, os Voïvod continuam a soar como uma banda à frente do seu tempo.
Mais do que revisitar uma fórmula criada há décadas, os canadianos continuam a demonstrar uma liberdade criativa pouco comum numa banda com uma carreira tão longa. Entre o thrash mais agressivo e as passagens mais progressivas, cada elemento parece funcionar como uma peça de um puzzle estranho, complexo e fascinante. É precisamente essa capacidade de não pertencer totalmente a lado nenhum que torna os Voïvod tão especiais: são pesados sem serem previsíveis, técnicos sem se tornarem exagerados e experimentais sem perderem a essência do metal.
Num festival conhecido pelas suas sonoridades mais específicas, a presença dos canadianos serviu para recordar que o universo da música pesada é muito maior do que qualquer género ou etiqueta. E, mais importante ainda, a receção aos Voïvod mostrou uma vez mais a enorme abertura do público do SonicBlast. O Main Stage 2 esteve super bem composto durante toda a atuação e a resposta foi imediata, com uma plateia completamente entregue à proposta da banda e a reagir com entusiasmo do primeiro ao último minuto. Afinal, é também esta curiosidade e abertura para explorar diferentes sonoridades que tornam o público do SonicBlast tão especial.

CONAN – Main Stage 1
Os Conan eram uma das bandas mais aguardadas desta edição do SonicBlast e, se ainda existiam algumas dúvidas quanto a isso, a sua passagem pelo Main Stage 1 tratou rapidamente de as dissipar. Com o recinto já bastante cheio, os britânicos de Liverpool entraram em palco para descarregar uma parede sonora esmagadora, assente no sludge, stoner e doom metal. Os riffs profundamente afiados e carregados de distorção pareciam atravessar fisicamente o recinto, enquanto o peso da guitarra, baixo e bateria criava uma massa sonora quase impossível de ignorar. Não é por acaso que a banda é frequentemente associada ao conceito de caveman battle doom: há algo de primitivo, brutal e quase bélico na forma como os Conan constroem a sua música.
E se há algo que define Conan, é precisamente essa capacidade de transformar lentidão em força. Os riffs arrastam-se com um peso colossal, mas nunca deixam de ter groove, alternando entre momentos esmagadoramente lentos e outros onde a banda acelera para demonstrar que também sabe ser rápida. A guitarra extremamente grave e distorcida assume o protagonismo, enquanto baixo e bateria trabalham em perfeita sintonia para criar uma espécie de rolo compressor que avança sem parar. O resultado é um som simultaneamente simples na sua essência e extremamente eficaz na execução: poucos elementos, mas cada um deles levado ao limite.
A resposta do público esteve perfeitamente à altura. O headbanging tornou-se praticamente sincronizado entre milhares de pessoas, como se o recinto inteiro estivesse a acompanhar o mesmo pulso, e a energia só aumentava a cada novo riff. Os Conan não precisaram de grandes artifícios para conquistar o SonicBlast: bastaram-lhes aqueles riffs gigantes, a distorção levada ao extremo e uma atitude absolutamente demolidora.
Depois de anos a construir o seu estatuto dentro do doom e do sludge, os britânicos provaram em Vila Praia de Âncora porque são uma das referências do género e porque estavam entre os nomes mais esperados desta edição. Caveman battle doom, em toda a sua brutalidade.

THE CASUALITIES – Main Stage 2
Com o dia a dar lugar à noite, os The Casualties chegaram ao palco para espalhar uma dose concentrada de punk cru, rápido e completamente descomprometido. Os mohawks, a atitude e o espírito de sem regras estavam presentes desde o primeiro minuto, mas foi sobretudo a energia que tornou esta atuação tão especial. Os membros da banda pareciam incapazes de ficar quietos, correndo pelo palco e entregando-se a cada tema como se aquele fosse o primeiro concerto das suas vidas. Musicalmente, não há grandes complexidades, e nem precisam delas. É punk right to the point, tocado com uma qualidade e uma intensidade impressionantes, com músicas curtas e rápidas que praticamente não dão tempo para respirar. Mas quem precisa de respirar quando há um concerto destes para viver?
E se a banda estava completamente entregue, o público não ficou atrás. O recinto parecia ter voltado às primeiras horas do festival, tal era a energia que se sentia no meio da multidão. Os refrões eram gritados em uníssono e os circle pits surgiam naturalmente, sem que a banda sequer precisasse de os pedir. A atitude punk estava presente não apenas nas músicas, mas também nos momentos entre elas, com mensagens tão diretas quanto “fuck the Police” comentários semelhantes relacionados com políticos. Não havia qualquer tentativa de representar um espírito rebelde: os The Casualties vivem-no genuinamente e fizeram questão de o transmitir a todos os que estavam diante deles. E quando o público responde com a mesma intensidade, a distância entre palco e plateia simplesmente deixa de existir.
As últimas músicas levaram essa energia ainda mais longe, com Pigs on Fire a ser um dos momentos em que mais se ouviram vozes vindas de todo o recinto. Mas, num concerto onde praticamente não houve espaço para baixar o ritmo, outros temas não ficaram atrás e mantiveram a multidão em permanente movimento.
E como terminar uma atuação tão marcada pela rebeldia? Da forma mais punk possível. Já no final, elementos da banda subiram para uma plataforma lateral junto às luzes e atirou-se de uma altura que parecia assustadora diretamente para o público, que o recebeu e agarrou com toda a força. Uma última demonstração de que, quando se fala de The Casualties, a atitude não fica pelas letras ou pela imagem: está presente em cada movimento, em cada grito e em cada segundo vivido em palco. Mais uma atuação que ficará, sem dúvida, na memória deste SonicBlast.

KYLESA – Main Stage 1
Os Kylesa chegaram ao Main Stage 1 como uma das bandas que mais curiosidade nos despertava, sobretudo pela sua identidade muito própria dentro do sludge, psicadelismo e metal progressivo. Uma das características mais conhecidas da banda foi durante alguns anos a utilização de dois bateristas em simultâneo e, por isso, quando vimos o palco a ser montado e apenas uma bateria, não foi difícil pensar que a atuação poderia perder alguma da intensidade que historicamente marcou os americanos. Mas quem pensou isso estava muito enganado. Mesmo assim, os Kylesa apresentaram uma atuação de uma intensidade impressionante e demonstraram que a sua força vai muito além da quantidade de músicos em palco.
É verdade que a componente da percussão não tinha a mesma dimensão que associamos à formação clássica da banda, mas isso não impediu que o concerto tivesse uma força absolutamente esmagadora. As guitarras criaram atmosferas densas e psicadélicas, enquanto os timbres de Phillip Cope e Laura Pleasants continuam a ser imediatamente reconhecíveis e fundamentais para a identidade dos Kylesa. Havia uma sensação de enorme segurança em palco, fruto de tantos anos de experiência, mas também uma energia que impedia a atuação de se tornar previsível. Cada momento parecia cuidadosamente controlado, sem que isso retirasse espontaneidade ou intensidade ao que acontecia diante de nós.
E foi precisamente essa experiência que tornou o concerto tão especial. Os Kylesa são uma banda com mais de 25 anos de história e com capacidade para marcar diferentes gerações de fãs de música pesada, mas no SonicBlast provaram que continuam perfeitamente capazes de conquistar quem os descobre pela primeira vez. O público respondeu com headbanging praticamente impossível de conter, enquanto os momentos mais rápidos convidavam naturalmente a deixar o corpo acompanhar a música. Era difícil ficar parado perante aquela combinação de peso, psicadelismo e groove.
No meio de um festival tão diversificado, os Kylesa conseguiram destacar-se precisamente por soarem a Kylesa e a mais ninguém. A ausência da dupla de bateristas poderia ter sido uma limitação, mas acabou por ser apenas um detalhe perante a qualidade e profissionalismo demonstrados em palco. Pessoalmente, foi um dos meus concertos favoritos de todo o festival e mais uma prova de que uma banda com tanta bagagem consegue continuar a tocar diretamente na alma de diferentes gerações, e, acima de tudo, continuar a fazê-lo com uma intensidade absolutamente genuína.

TURBONEGRO – Main Stage 1
Se havia alguma dúvida sobre qual seria o concerto que reuniria mais gente neste segundo dia, os Turbonegro trataram de a dissipar logo desde o primeiro acorde. O Main Stage 1 estava completamente domado por uma multidão que, em muitos casos, já tinha deixado bem claro ao longo do dia qual era a sua banda de eleição: era impossível percorrer o recinto sem encontrar alguém a vestir uma t-shirt dos noruegueses. Os veteranos do deathpunk, mistura característica de hard rock, rock e punk rock, sabem perfeitamente como fazer a festa e o público do SonicBlast parecia saber exatamente ao que vinha. A entrada em palco foi uma declaração de intenções e, desde esse primeiro momento, o concerto transformou-se numa enorme celebração coletiva.
Os refrões eram cantados em uníssono e, durante grande parte da atuação, o vocalista parecia ter uma tarefa relativamente simples: dar o mote e deixar que o público fizesse o resto. Havia momentos em que as vozes vindas da multidão eram tão fortes que quase abafavam completamente o palco, criando uma sensação de comunhão difícil de reproduzir. E os Turbonegro perceberam isso desde cedo. Apesar do estatuto de veteranos e de serem claramente uma das maiores bandas do cartaz, demonstraram uma humildade e uma vontade de estar ali que tornaram a atuação ainda mais especial. Não estavam simplesmente a cumprir mais uma data de uma longa carreira: estavam a divertir-se, a entregar-se ao público e a aproveitar cada segundo daquela noite.
A atuação foi longa e percorreu vários dos grandes hinos da banda, mas foi naturalmente All My Friends Are Dead que provocou o maior sismo. O recinto inteiro transformou-se num gigantesco coro e, por momentos, o vocalista quase podia simplesmente deixar o microfone de lado. Mas a verdade é que praticamente todos os temas foram recebidos com a mesma fome. Assim que uma música terminava, o público respondia imediatamente com mais gritos, mais aplausos e pedidos para continuar. Não havia cansaço, não havia hora tardia e parecia não haver qualquer limite para a energia daquela multidão. É precisamente esta capacidade de transformar músicas de rock em verdadeiros hinos coletivos que explica o estatuto dos Turbonegro depois de tantos anos de carreira.
E talvez a maior surpresa tenha sido perceber que, apesar de toda a dimensão do espetáculo, a essência continuava a ser profundamente punk. Um punk mais limpo, acessível e radio-friendly, mas ainda assim irreverente, provocador e construído à volta de uma atitude de puro rock’n’roll. Quando soaram as últimas notas, o recinto respondeu com um mar de aplausos e gritos, numa despedida digna de uma das bandas que mais pessoas conseguiu reunir durante todo o festival. Os Turbonegro agradeceram repetidamente enquanto abandonavam o palco, mas naquele momento já não havia muito mais a acrescentar: tinham acabado de provar, perante um SonicBlast completamente cheio, porque continuam a ser verdadeiros mestres em transformar um concerto numa festa.

DEATHCHANT – Main Stage 2
Depois da longa e intensa atuação dos Turbonegro, seria perfeitamente compreensível que o público começasse a dispersar. Mas, apesar de algum atraso no arranque, os Deathchant conseguiram manter uma parte significativa da multidão no Main Stage 2 e, mais importante, surpreender quem decidiu ficar.
Os californianos apresentaram uma sonoridade difícil de associar a uma única etiqueta, cruzando hard rock, stoner e heavy metal com uma atitude crua que remete para influências como Motörhead e Thin Lizzy. Um dos momentos mais interessantes surgiu logo com a apresentação de um tema novo, lançado precisamente no dia da atuação e que fará parte de KOVA, o próximo álbum da banda, com lançamento previsto para setembro. O tema começou de forma acústica e contemplativa, criando um contraste inesperado com o que viria a seguir: quando os riffs pesados entraram, os Deathchant estavam de volta à sua essência.
E é precisamente nesta dualidade que reside uma das maiores forças da banda. Há momentos rápidos e violentos, outros profundamente enraizados no stoner, mas também passagens surpreendentemente melódicas e até próximas de uma sensibilidade mais psicadélica. As vozes acrescentam ainda outra camada a esta mistura: vocais rasgados, com um timbre aparentemente cansado, mas que funciona precisamente por conferir uma crueza adicional a uma música tecnicamente bastante cuidada. A banda percebeu também que tinha diante de si um público que começava naturalmente a acusar o peso de um dia inteiro de festival e fez questão de comunicar constantemente com a plateia, mantendo a energia viva até ao último tema.
Para terminar, os Deathchant escolheram precisamente uma das suas facetas mais melódicas, dançáveis e até alegres. Mas mesmo aí, a identidade permaneceu intacta: por cima de uma instrumentalização mais leve, continuavam aqueles vocais rasgados e aquela textura pesada tão característica do stoner. Foi uma forma inteligente de fechar uma atuação que viveu constantemente entre extremos e que acabou por demonstrar porque esta dualidade é uma das maiores armas da banda. Entre peso e melodia, violência e contemplação, os Deathchant conseguiram surpreender e manter o SonicBlast bem envolvido mesmo quando a noite já ia bem avançada.

GOYA – Stage 3
A festa já ia longa, mas ainda havia forças para mudar de palco e rumar ao Stage 3, onde os Goya aguardavam para protagonizar a penúltima atuação da noite. Vindos de Phoenix, Arizona, os americanos trouxeram consigo o seu sludge/stoner pesado e carregado de atmosferas densas, entrando em palco sem qualquer intenção de facilitar a vida a quem já levava muitas horas de festival nas pernas. E ficou rapidamente claro que havia bastante gente à espera deste momento: apesar da hora avançada, o público manteve-se presente e recebeu a banda com uma energia que demonstrava que a noite ainda estava longe de terminar.
Os Goya sabem trabalhar precisamente essa combinação entre peso, lentidão e uma sonoridade carregada de distorção, criando um ambiente simultaneamente sombrio e hipnótico. A atuação encaixou na perfeição naquele momento da noite, quando o cansaço já começava a pesar mas o público do SonicBlast continuava disposto a enfrentar mais alguns riffs. No Stage 3, a festa ganhou uma dimensão mais escura e arrastada, provando que, mesmo depois de tantas horas, ainda havia espaço para deixar o corpo ser levado pelo peso do sludge.
N8NOFACE – Stage 3
Já passava das horas em que a maioria dos festivaleiros começaria a pensar em descanso, mas o Stage 3 ainda tinha uma última descarga de energia reservada. N8NOFACE trouxe ao SonicBlast uma abordagem de punk rock / darkwave / hip-hop tão crua quanto peculiar, cruzando a urgência do punk com uma forte componente narrativa.
É precisamente esse contraste que torna N8NOFACE uma proposta interessante: há uma camada sombria nas histórias que conta, mas a música está longe de ser pesada apenas no sentido convencional. Pelo contrário, existe uma componente divertida, caótica e catártica, com uma energia que recupera o espírito de liberdade associado às primeiras vagas do punk rock e do hip-hop. Uma forma pouco convencional de encerrar a programação do Stage 3 e, consequentemente, mais uma noite em que o SonicBlast mostrou que mesmo nas últimas horas ainda há espaço para propostas inesperadas.
Mais uma vez, o ambiente foi um dos grandes protagonistas do dia. Do início da tarde até às últimas atuações da madrugada, o recinto manteve uma energia impressionante, com o público a responder a cada proposta com uma abertura e entusiasmo que dizem muito sobre o espírito do SonicBlast. Entre o headbanging coletivo dos Conan, os circle pits dos The Casualties, a intensidade dos Kylesa e a verdadeira celebração que foram os Turbonegro, houve sempre uma sensação de proximidade entre bandas e público. Mesmo depois de tantas horas de música, a multidão continuava presente, provando que neste festival o cansaço pode até chegar, mas raramente consegue vencer a vontade de continuar.
E assim terminou mais um dia. Depois de tantas horas de música, de corpos cansados, vozes gastas e pescoços que já começavam a pedir misericórdia, ficava novamente aquela sensação de que tínhamos vivido muito mais do que uma simples sequência de concertos. O segundo dia trouxe momentos de pura celebração, descobertas inesperadas e atuações que certamente ficarão associadas à memória desta edição.
Mas ainda havia muito por acontecer e, apesar de já começarmos a sentir o peso dos dias anteriores, a vontade de continuar era maior do que o cansaço. O SonicBlast 2026 seguia em frente e nós também. Era altura de respirar fundo, recuperar forças e avançar para o Dia 3.


