
Formado no Recife em abril de 2024 por Spacca no vocal e Fred na guitarra, o Cinzas surgiu com a proposta de transformar caos, angústia e inquietação em música extrema. Depois dos primeiros ensaios e composições, o projeto entrou em pausa pela dificuldade em completar a formação. A retomada veio em 2026, com a chegada de João à bateria, dando novo fôlego à banda e abrindo caminho para seu primeiro EP.
Lançado em 15 de setembro de 2026, o material foi gravado no MP Studio, em 19 de julho, com produção, captação, mixagem e masterização de Pedro Santos, do Witching Altar. A arte da capa ficou por conta de Magnum.

O grindcore é a base das sete faixas, mas outras referências aparecem durante o caminho. Hardcore, death metal, thrash metal e elementos mais tradicionais do heavy metal entram naturalmente nas composições, sem tirar o grupo de sua proposta principal. O resultado é um EP rápido, agressivo e bastante trabalhado.
A gravação merece destaque. Mesmo nos momentos em que a banda acelera e despeja blast beats, guitarra, bateria e vocal continuam perceptíveis. O Cinzas não depende de uma produção excessivamente suja para soar extremo, algo importante em um trabalho cheio de viradas, riffs, mudanças de andamento e solos.
O vocal ocupa um espaço fundamental nessa identidade. A interpretação é agressiva e carregada de tensão, muitas vezes funcionando mais como um grito de desabafo do que apenas como acompanhamento do instrumental. Isso conversa diretamente com letras sobre colapso emocional, ansiedade, sofrimento, falsidade e arrogância.

Depois de “Cinzas (Intro)”, “Catarse” coloca o ouvinte diretamente na pancadaria. Guitarras pesadas e uma bateria alternando metranca e blast beats sustentam um vocal agonizante, que combina perfeitamente com o próprio título. A faixa transmite uma sensação de expurgo, de colocar para fora raiva, angústia e tudo aquilo que sufoca.
A faixa transmite uma sensação de expurgo, de colocar para fora raiva, angústia e tudo aquilo que sufoca.
Na parte final, a guitarra ganha mais espaço com riffs elaborados e um solo bastante técnico, fugindo por alguns instantes da abordagem mais direta da composição. Logo de cara, fica evidente que o Cinzas não pretende depender somente de velocidade e agressividade.
“Ominoso” acelera ainda mais. Depois de uma breve introdução, a música entra em alta velocidade e praticamente não dá descanso. Os blast beats são especialmente violentos, enquanto o vocal acompanha essa urgência e ajuda a tornar a faixa ainda mais sufocante.
É também uma das músicas em que fica fácil imaginar o resultado ao vivo. Circle pit, mosh e muita movimentação parecem praticamente inevitáveis. Mesmo com tudo acontecendo em alta rotação, a gravação mantém os instrumentos suficientemente definidos.
Em “Embuste”, a influência do hardcore fica mais perceptível. A faixa segue rápida e direta, mas os solos de guitarra chamam bastante atenção e acrescentam ainda mais adrenalina.
Esses solos acabam trazendo para dentro do grindcore algo muito ligado à tradição do rock and roll e do heavy metal. A guitarra não serve apenas para construir peso. Ela também dá movimento à música e recupera aquela sensação de empolgação de um solo bem encaixado em meio à porradaria.
Na sequência vem “Fúria Esmagadora”, minha favorita do EP e talvez a música que melhor sintetize a proposta do Cinzas.
Extremamente rápida, a faixa deixa bem evidente a influência do death metal. O próprio título combina com o que sai das caixas. É uma composição violenta, pesada e acelerada, mas sem colocar a técnica em segundo plano.
A letra trabalha força, determinação e resistência, assumindo um caráter quase de manifesto. Há um momento em que o andamento diminui e a relação entre guitarra, bateria e vocal fica ainda mais evidente, criando um bom contraste com os trechos mais rápidos.
O vocal é um dos grandes destaques. A interpretação soa especialmente violenta e ajuda a transformar a faixa em um dos momentos mais intensos do trabalho. Aqui, a voz não fica simplesmente sobre o instrumental. Ela faz parte da própria agressividade da música.
Aqui, a voz não fica simplesmente sobre o instrumental. Ela faz parte da própria agressividade da música.
“Mente Enjaulada” traz uma influência bastante perceptível do thrash metal, principalmente na introdução. Talvez seja a faixa em que essa referência apareça com maior clareza.
Os blast beats e a velocidade do grindcore logo retornam, mas da metade para frente algumas viradas de bateria chamam atenção e o andamento diminui. A composição passa a respirar de outra maneira e ganha um peso diferente.
É justamente nesse trecho mais cadenciado que aparecem os versos “Mente enjaulada, em constante agonia / Gritos mudos ecoam, na escuridão vazia”. Com a música mais lenta, o vocal ganha espaço e o conteúdo da letra aparece com mais clareza. É uma boa demonstração de que o Cinzas não precisa acelerar o tempo inteiro para manter a intensidade.
Fechando o EP, “O Ser Ufano” volta para uma abordagem mais direta, sustentada por bastante pedal duplo e blast beats muito bem executados. A guitarra também apresenta riffs interessantes que ajudam a conduzir as diferentes partes da composição.
A letra faz uma crítica à arrogância e à presunção. Um dos aspectos mais interessantes é a maneira como assume a própria voz desse personagem arrogante, alguém que se considera dono da verdade, superior aos outros e centro de tudo. Em vez de apenas descrever esse comportamento, a letra o coloca em cena.
O vocal acompanha bem essa postura, mantendo a agressividade das faixas anteriores, mas agora aplicado a uma letra de caráter mais provocativo.
Na parte final, o andamento diminui e a música começa a assumir claramente uma função de encerramento. O volume vai baixando gradualmente até o silêncio. É uma escolha simples, mas funciona muito bem dentro da estrutura do trabalho. “Cinzas (Intro)” abre o EP preparando a entrada, enquanto “O Ser Ufano” encerra o percurso de maneira gradual.
As letras também ajudam a manter certa unidade. “Catarse”, “Ominoso” e “Mente Enjaulada” estão mais ligadas a conflitos internos, ansiedade, sofrimento e sensação de sufocamento. “Embuste” e “O Ser Ufano” direcionam a crítica para falsidade, ego e arrogância. “Fúria Esmagadora” surge em outro ponto, transformando tensão e revolta em força e reação.
No fim, o Cinzas entrega um EP que não depende apenas de velocidade para funcionar. Blast beats, riffs rápidos e vocais agressivos aparecem em abundância, mas existe espaço para solos, mudanças de andamento e boas viradas de bateria.
As influências de hardcore, death metal, thrash metal e heavy metal aparecem sem tirar a banda de sua base grindcore. “Fúria Esmagadora” foi a faixa que mais me chamou atenção, mas o trabalho funciona bem como um todo. Para um primeiro registro, o Cinzas apresenta sua proposta de maneira clara e deixa uma boa expectativa para os próximos lançamentos.
TRACKLIST:
1) Cinzas (Intro) — 01:07
2) Catarse — 01:40
3) Ominoso — 01:52
4) Embuste — 01:52
5) Fúria Esmagadora — 02:02
6) Mente Enjaulada — 01:49
7) O Ser Ufano — 02:43
OUÇA O EP: CINZAS – Bandcamp

