Como já é tradição, a melhor despedida do verão acontece em Rio de Moinhos, Penafiel, e este ano não foi exceção. No passado sábado, dia 19 de setembro, a pacata vila voltou a encher-se para celebrar a décima edição de um dos melhores festivais em solo português: o River Stone Fest. Com cartazes que têm vindo a crescer exponencialmente em qualidade, a décima edição manteve essa tendência, com a estreia de Der Weg Einer Freiheit em terras lusas, o regresso dos Wolfheart, e ainda Shores of Null, Godark, Capela Mortuária, The Ominous Circle, Against Them All e Debunker. Uma vez mais, viajamos por diversas sonoridades pesadas e vivemos uma despedida do verão verdadeiramente inesquecível.

Após o grande salto dado em 2025, nada como subir mais um pouco. No ano passado, a edição bateu todos os recordes ao trazer Hate e Sylvaine como headliners, atraindo público de norte a sul do país e até além-fronteiras. Este ano, o festival tinha a difícil tarefa de superar essa fasquia e, pelo que senti e testemunhei ao longo do evento, conseguiu fazê-lo com mérito. Um dos grandes destaques eram os alemães Der Weg Einer Freiheit, que se estreavam em Portugal, e a receção do público provou que esta estreia era muito ansiada. O regresso dos Wolfheart era igualmente aguardado: a banda finlandesa conta com uma enorme legião de seguidores no nosso país, e a receção calorosa foi mais uma prova disso. Ainda dentro da palete internacional, a estreia dos Shores of Null era também bastante aguardada, trazendo ao festival uma vertente mais melancólica e contemplativa.
Por cá, Portugal esteve muito bem representado, com o Melodic Death Metal dos Godark, o Death/Black Metal ocultista de The Ominous Circle, o Thrash Metal provocador dos Capela Mortuária, o Hardcore rebelde dos Against Them All e ainda a combinação singular de Thrash, Groove e Heavy Metal dos Debunker. Um cartaz rico e diversificado, capaz de percorrer diferentes vertentes da música pesada sem nunca perder a identidade do festival.
Quanto ao espaço, estavam reunidas todas as condições para que o público tivesse apenas de chegar e desfrutar. Com excelentes condições para receber o evento, uma boa variedade de bancas de merchandising e uma oferta generosa de comida e bebida, o River Stone voltou a demonstrar que não é apenas a qualidade do cartaz que faz um festival, mas também toda a experiência que proporciona a quem o visita.

DEBUNKER
Às rigorosas 16h, os Debunker sobem ao palco com a difícil tarefa de dar o pontapé de saída ao festival. E se abrir um evento desta dimensão nunca é tarefa fácil, a banda não pareceu minimamente intimidada. Com uma sonoridade que passeia pelo Thrash, Groove e Heavy Metal, os Debunker apresentam um traço de personalidade intrínseco e imediatamente notável. Apesar de ser possível encaixá-los nesta mistura de estilos, a verdade é que aplicar rótulos à banda acaba por ser uma tarefa ingrata. Parecem seguir simplesmente aquilo que sentem que querem fazer, e sobretudo a forma como o querem fazer. Ora temos groove, ora melodias, ora a rapidez bruta do Thrash, ora vozes e elementos claramente bebericados no Heavy Metal. O resultado? Nada mais, nada menos do que Debunker.
Em palco, a energia não faltou. Com um vocalista que transpira vontade e entrega, constantemente de um lado para o outro, três homens nas cordas e uma bateria incansável, os temas tinham força suficiente para obrigar o público a parar, ouvir e ficar. Entre músicas, o ambiente era descontraído, com pausas marcadas pelo humor e pela boa disposição, criando uma proximidade que ajudou a quebrar a barreira entre palco e público.
Os Debunker abriram, assim, o River Stone Fest da melhor forma possível e acabaram por se apresentar como a primeira grande surpresa desta décima edição. Uma atuação que deixou bem claro, logo à partida, que ainda havia muito para descobrir ao longo do dia.

AGAINST THEM ALL
Com The Time Is Now, o icónico tema de John Cena, a servir de banda sonora à entrada, o quinteto algarvio Against Them All sobe ao palco com uma energia impossível de ignorar. Uma presença particularmente distinta dentro do alinhamento, e talvez precisamente por isso capaz de prender desde cedo a atenção de quem ainda chegava ao recinto. Inseridos na nova vaga do Hardcore/Beatdown português, os Against Them All carregam nas costas uma sonoridade pesada, direta e sem grandes rodeios, onde as influências do Hardcore nova-iorquino e do Beatdown se encontram com uma atitude de confronto e resistência. E, cedo se percebeu que, para eles, o palco não seria apenas um lugar para tocar.
Musicalmente, as guitarras assumiam um papel central, construindo uma parede sonora que tanto assentava em riffs densos e repetitivos como mergulhava em distorções pesadas ou inesperadas passagens melódicas. A voz acompanhava esta dinâmica com igual versatilidade, alternando entre registos mais graves e outros mais rasgados, enquanto a bateria mantinha o pulso de toda a máquina. E, apesar da hora ainda precoce, o moshpit apareceu com frequência, como seria de esperar de uma atuação deste género. Mas havia aqui algo mais do que simplesmente peso: os Against Them All recusam estruturas demasiado previsíveis e, sem depender de fórmulas óbvias, conseguem construir uma atuação incrivelmente cativante. A intensidade era tanta que, ainda numa fase inicial, o vocalista já tinha uma ferida na cabeça, continuando a atuação como se nada fosse.
A ligação ao público foi crescendo ao longo do concerto, com espaço para temas em português e, sobretudo, para uma aproximação física cada vez maior. A determinado momento, o vocalista abandona o palco e cola-se à grade, transformando a barreira entre banda e público numa mera formalidade. E se a música carregava o espírito do Hardcore, a atitude também: havia raiva, entrega e uma vontade quase palpável de libertar toda aquela energia. O concerto terminou com Violência Doméstica, acompanhada de mais uma explosão de energia da banda e do público. No final, os Against Them All despediam-se daquele que foi o seu primeiro concerto no Norte, mas, perante uma receção tão calorosa, fica a sensação de que dificilmente será o último.

THE OMINOUS CIRCLE
Quando os The Ominous Circle subiram ao palco, a luz do dia ainda iluminava o recinto, mas a negritude da banda fez com que a noite se instalasse mais cedo. Cobertos de preto e envoltos numa aura quase ritualística, os portugueses trouxeram consigo uma atmosfera pesada, sombria e opressiva, transformando por completo o ambiente do River Stone. A sua abordagem ao Death/Black Metal está longe de se resumir à brutalidade: há uma componente atmosférica muito forte, capaz de criar uma sensação de desconforto e fascínio em simultâneo. Durante aqueles minutos, parecia que o recinto tinha sido transportado para um lugar bem mais negro.
Musicalmente, os The Ominous Circle movimentam-se entre diferentes velocidades e texturas sem nunca perderem a sua identidade. Por entre batidas que parecem marchas fúnebres, riffs dissonantes, momentos de Doom sufocante e súbitas explosões de velocidade, a banda construiu uma muralha sonora tão densa quanto hipnótica. O mais impressionante era precisamente a forma como conseguiam ser simultaneamente crus e sofisticados, permitindo que cada tema respirasse dentro daquele caos cuidadosamente construído. Com temas de Cloven Tongues of Fire, o seu mais recente registo, e de trabalhos anteriores, a banda mostrou ao vivo toda a intensidade e obscuridade que caracterizam a sua discografia.
Os The Ominous Circle conseguiram criar uma atmosfera tão envolvente que, por momentos, a melhor forma de os apreciar era simplesmente ficar a olhar e deixar que aquela massa de Death/Black Metal negro nos consumisse. Havia algo de hipnótico na forma como a banda ocupava o palco e construía aquele ambiente sufocante, tornando fácil esquecer tudo o que acontecia à volta e simplesmente mergulhar na música. Portugal esteve, mais uma vez, muito bem representado, numa atuação que não se limitou a passar pelo palco, deixando uma marca bem vincada no ambiente e em quem teve a oportunidade de a testemunhar.

GODARK
Os Godark subiam ao palco em substituição dos Sunborn, que, por motivos alheios à organização, acabaram por cancelar a sua presença. A tarefa não era fácil: além de a banda ser responsável pela organização do festival, tinham agora de deixar os bastidores e assumir o palco perante um público que esperava por eles. É uma responsabilidade enorme, mas os Godark acabariam por protagonizar um dos concertos mais marcantes de todo o evento!
A atuação arrancou com alguns problemas técnicos relacionados com os samples, que falharam durante os primeiros temas. Ainda assim, a banda seguiu em frente sem nunca deixar cair a energia, enquanto o público respondia com uma enorme compreensão e apoio. Resolvido o problema, Vítor anunciou que finalmente poderiam proporcionar a experiência completa, e a resposta foi imediata, com o recinto a explodir em gritos e palmas. A situação acabou por resultar num daqueles momentos em que um imprevisto, em vez de prejudicar a experiência, acaba por torná-la mais pessoal. Sentiu-se uma verdadeira comunhão entre banda e público, como se todos estivessem a partilhar aquele pequeno obstáculo e, depois, a celebração de o ultrapassar.
A partir daí, os Godark entregaram-se completamente ao concerto, navegando entre temas de Omniscience, lançado em 2025, e material de Forward We March. E é sempre difícil falar desta banda sem algum orgulho: partilhando raízes com eles, é impossível não sentir uma satisfação especial ao vê-los representar tão bem o nosso país dentro do universo do Melodic Death Metal.
Musicalmente, os Godark estiveram enormes. Há na banda uma mestria muito particular na criação de melodias que permanecem na memória e continuam a ecoar muito depois de cada tema terminar. As guitarras assumem aqui um papel absolutamente central, sendo a verdadeira espinha dorsal do som e da identidade da banda. Em cada tema, constroem camadas melódicas e de peso com uma naturalidade impressionante, alternando entre momentos mais atmosféricos e outros de maior intensidade, sem nunca perderem o controlo da composição. O baixo mantém toda a estrutura ancorada, enquanto a bateria de Fábio se mostra explosiva e dinâmica, acrescentando força e movimento a cada passagem.
Mas aquilo que torna os Godark particularmente interessantes ao vivo vai muito além da competência técnica. Existe uma cumplicidade evidente entre todos os elementos, um equilíbrio muito bem conseguido entre técnica e emoção que faz com que cada música respire de forma orgânica. Todos parecem completamente imersos naquilo que estão a fazer, como se naquele momento nada mais existisse para além do palco. No centro dessa construção surge Vítor, não apenas pela enorme versatilidade vocal, alternando entre agressividade e melodia com enorme naturalidade, mas também pelo carisma e pela intensidade com que se entrega. A sua presença funciona como um verdadeiro catalisador, elevando ainda mais uma atuação que já era, por si só, extremamente coesa.
O resultado é uma intensidade quase física, partilhada por toda a banda, onde cada elemento contribui para que os temas ganhem uma dimensão diferente ao vivo. Foram também os Godark que tiveram a particularidade de acompanhar o cair da noite sobre o River Stone, e dificilmente poderia ter existido melhor banda sonora para esse momento. À medida que a luz desaparecia e o recinto mergulhava na escuridão, os Godark iam construindo o ambiente perfeito para a noite começar, deixando no ar algumas das melodias mais marcantes de todo o festival. No final, Leaving Out encerrou uma atuação recebida com um dos maiores aplausos de todo o festival. E dificilmente poderia haver melhor recompensa.

SHORES OF NULL
Vindos da Itália e a estrearem-se finalmente em Portugal, os Shores of Null tinham a difícil tarefa de suceder aos Godark, mas trouxeram consigo uma mudança de ambiente quase imediata. Se a banda portuguesa tinha acompanhado o cair da noite com uma dimensão mais épica, os italianos instalaram definitivamente a melancolia no recinto. Há na sua sonoridade ecos que poderão lembrar Amorphis, Lake of Tears ou até Saturnus, mas os Shores of Null têm uma identidade super vincada para transformar essas influências numa proposta muito própria, que a banda define como Melancholic Dark Metal.
Por entre vocais limpos e melódicos e outros berrados e desesperados, a banda foi construindo uma atuação que vive precisamente desse contraste. As melodias atmosféricas conviviam com passagens carregadas de agressividade, enquanto as guitarras iam criando camadas densas e envolventes que davam aos temas uma dimensão quase hipnótica. A componente Doom estava naturalmente presente, mas nunca de forma limitadora: havia espaço para o Gothic, para o Death e para uma forte componente melódica, tudo executado com uma qualidade técnica irrepreensível. Era uma música pesada, sim, mas sobretudo emocional, capaz de transmitir uma sensação de tristeza e beleza em simultâneo.
E talvez tenha sido precisamente essa capacidade de navegar entre diferentes estados de espírito que tornou o concerto tão interessante. Os Shores of Null não precisaram de recorrer constantemente à velocidade ou à brutalidade para prender a atenção. Souberam trabalhar os silêncios, os tempos mais arrastados e as melodias para criar tensão, deixando depois que os momentos de maior agressividade surgissem com ainda mais impacto. A voz de Davide Straccione assumia aqui um papel fundamental, alternando entre a fragilidade dos registos limpos e a intensidade dos vocais extremos, enquanto as duas guitarras construíam grande parte da atmosfera que envolve a música da banda. Havia uma sensação constante de movimento, como se cada tema fosse uma viagem entre a luz e a escuridão.
A estreia em território nacional deixou, por isso, uma impressão super positiva. Os Shores of Null conseguiram transportar para o palco toda a riqueza atmosférica da sua música e criar uma ligação com um público que, em alguns casos, estava a descobrir a banda pela primeira vez. Já perto do final, chegaram dois temas de The Loss of Beauty, álbum de 2023 que continua a ser uma das referências da sua identidade melódica, encerrando uma atuação que deixou vontade de voltar a vê-los por cá. O próprio Davide Straccione deixou essa promessa no ar: “Espero ver-vos novamente“. Com Homesick, o novo álbum, prestes a ser lançado a 16 de outubro, talvez não tenhamos de esperar demasiado.

WOLFHEART
Depois de uma tarde inteira a percorrer diferentes vertentes da música pesada, chegava finalmente um dos nomes mais aguardados da décima edição. Os finlandeses Wolfheart regressavam a Portugal para assumir o estatuto de headliners desta edição, perante um recinto já completamente rendido ao ambiente da noite, não precisaram de muito para mostrar por que continuam a ser uma das referências do Melodic Death Metal nórdico. Desde os primeiros acordes de Ancient Cold, a banda de Tuomas Saukkonen ergueu uma parede sonora imponente, onde a agressividade dos riffs se encontrava com melodias grandiosas e uma atmosfera profundamente ligada à natureza e às paisagens geladas da Finlândia. O resultado era simultaneamente pesado, épico e emocional, uma combinação que os Wolfheart dominam como poucas bandas.
Ghosts of Karelia e Burning Sky mantiveram essa intensidade, mas foi com Breakwater que a atuação ganhou uma dimensão ainda mais agressiva e violenta. O tema é um verdadeiro ataque frontal, com uma bateria demolidora e uma intensidade que não dá praticamente espaço para respirar. É precisamente nesta capacidade de alternar entre diferentes graus de peso que reside parte da força dos Wolfheart: podem ser épicos e melódicos num momento e, no seguinte, transformar o palco numa verdadeira avalanche de peso. As guitarras assumiam naturalmente o protagonismo, enquanto a bateria de Joonas Kauppinen acrescentava ainda mais força a cada mudança de ritmo. Ao vivo, estes contrastes ganham uma dimensão particularmente poderosa, fazendo com que cada tema adquira uma identidade própria dentro do alinhamento.
A viagem pela discografia prosseguiu com The King e Carnivore, antes de The Hunt recuperar uma das músicas mais emblemáticas da fase inicial da banda. Do álbum de estreia Winterborn até o mais recente EP Draconian Darkness II, lançado em 2025, os Wolfheart construíram uma identidade muito própria, e o alinhamento escolhido para Rio de Moinhos permitiu precisamente percorrer esse caminho. Boneyard e Grave voltaram a colocar o peso em primeiro plano, enquanto The Hammer encerrou a atuação com uma última descarga de energia. Ao longo de todo o concerto, a banda mostrou uma enorme segurança em palco e uma capacidade impressionante para transformar aquelas composições em algo ainda maior ao vivo.
Mas talvez o mais marcante tenha sido perceber a forma como os Wolfheart conseguem criar uma atmosfera tão grandiosa sem nunca perder a componente humana e emocional. Há uma frieza característica na sua música, mas nunca é distante. Pelo contrário, existe uma sensação constante de melancolia, força e resistência que atravessa cada composição e que, ao vivo, ganha uma dimensão ainda maior. O público do River Stone respondeu à altura, acompanhando os temas, batendo cabeça e deixando bem claro que o regresso dos finlandeses era um dos momentos mais aguardados da noite. Como headliners, os Wolfheart não se limitaram a cumprir calendário: dominaram o palco, elevaram o ambiente do recinto e entregaram uma atuação poderosa, épica e emocional, à altura da responsabilidade que lhes tinha sido confiada. Foi uma verdadeira demonstração daquilo que esta banda é capaz de fazer ao vivo, com uma entrega e uma mestria impressionantes, deixando em Rio de Moinhos uma daquelas atuações que dificilmente se esquecem.

DER WEG EINER FREIHEIT
Chegava finalmente um dos momentos mais aguardados da décima edição. Vindos da Alemanha e a estrearem-se em Portugal, os Der Weg Einer Freiheit subiam ao palco com uma responsabilidade enorme, mas também com uma expectativa à altura do seu estatuto. E, se já existiam razões suficientes para esperar muito desta atuação, a realidade acabou por superar tudo aquilo que se poderia imaginar. Desde os primeiros segundos de Marter, ficou claro que estávamos perante algo diferente. A intensidade do Black Metal da banda, aliada a uma dimensão atmosférica e emocional absolutamente esmagadora, transformou o recinto num espaço hipnótico e elevatório. Não havia um único elemento em palco que parecesse estar ali apenas para cumprir o seu papel: tudo era executado com uma precisão impressionante e, ao mesmo tempo, com uma entrega visceral. Para mim, sem qualquer dúvida, um dos melhores concertos de todas as edições do River Stone Fest e um dos melhores que tive oportunidade de assistir.
A viagem continuou com Xibalba, antes de chegarmos a um dos momentos mais marcantes: Immortal. Aqui, os Der Weg revelaram uma das suas facetas mais atmosféricas, com os registos limpos e as melodias a criarem um contraste quase perfeito com a brutalidade que dominara os momentos anteriores. A música cresce progressivamente, acumulando emoção até atingir um crescendo absolutamente arrebatador. Foi um daqueles momentos em que o concerto deixa de ser apenas uma demonstração de técnica e passa a ser uma experiência emocional. Elevatório, mágico e, honestamente, difícil de traduzir em palavras. A banda consegue precisamente aquilo que distingue os grandes concertos: fazer com que uma música que conhecemos adquira uma dimensão completamente diferente quando é vivida ao vivo.
E se Immortal representou esse lado mais contemplativo, Eos tratou de nos recordar o porquê de os Der Weg serem uma força tão impressionante dentro do Black Metal contemporâneo. O riff desta faixa, imediatamente reconhecível, tornou-se uma espécie de assinatura da banda e, ao vivo, ganhou uma dimensão ainda maior. As guitarras assumiam o controle, alternando entre melodias grandiosas e momentos de uma intensidade quase sufocante, enquanto a bateria de Tobias Schuler acrescentava uma violência e precisão extraordinárias. A banda consegue construir estes contrastes com uma naturalidade impressionante: há momentos em que tudo parece prestes a desmoronar e, no segundo seguinte, surge uma nova camada melódica que transforma o caos em algo verdadeiramente belo. Ruhe e Aufbruch mantiveram essa dinâmica, fazendo o concerto avançar como uma única peça, sem nunca perder intensidade ou capacidade de surpreender.
E quando parecia que já tínhamos recebido tudo, Forlorn surgiu como o momento perfeito para encerrar a atuação. O tema começa de forma delicada, com a voz limpa a assumir o protagonismo sobre uma batida que vai crescendo lentamente. Aos poucos, as guitarras vão surgindo e acrescentando novas camadas, construindo um crescendo belo, sufocante e profundamente emocional, carregado de dor e tensão. Existe aqui uma melancolia quase palpável, como se cada novo elemento acrescentasse mais peso à composição. Tudo acontece sem pressa, permitindo que a música acumule emoção até atingir o ponto de rutura. E quando finalmente explode, fá-lo no seu próprio tempo, transformando toda aquela contenção numa verdadeira descarga emocional, intensa e arrebatadora. Um momento de enorme beleza e sofrimento, completamente atmosférico, que deixou o recinto mergulhado na música e tornou o encerramento ainda mais marcante.
Por fim, o alinhamento revelou-se extremamente bem construído, levando-nos por diferentes facetas de Der Weg Einer Freiheit sem nunca perder coerência. Os alemães chegaram a Rio de Moinhos pela primeira vez e, em pouco mais de uma hora, protagonizaram aquilo que, para mim, foi uma das melhores atuações de toda a história do River Stone Fest. Uma estreia absolutamente memorável e um daqueles concertos que ficam na memória muito depois de as últimas notas desaparecerem.

CAPELA MORTUÁRIA
Depois de um dia inteiro de música, os Capela Mortuária tinham a responsabilidade de fechar a décima edição do River Stone Fest. E que melhor forma de terminar um festival do que com uma boa dose de Thrash Metal rápido, agressivo e sem filtros? O quarteto trouxe para Rio de Moinhos toda a energia crua da velha escola, entre riffs cortantes, ritmos frenéticos e uma atitude irreverente que rapidamente tomou conta do palco. Havia uma sensação de urgência em cada tema, como se a banda soubesse que aquela seria a última oportunidade da noite para levar o público ao limite.
E foi precisamente isso que aconteceu. A energia dos Capela Mortuária revelou-se contagiante, com o público a responder com headbanging, mosh pits e uma entrega à altura daquilo que vinha do palco, mesmo apesar da hora já avançada da noite. A banda mostrou uma identidade super sólida dentro do Thrash nacional, equilibrando a agressividade e a velocidade com uma boa dose de personalidade e humor. A atitude descontraída entre temas contrastava com a violência descarregada durante os mesmos, criando uma dinâmica que manteve o concerto sempre vivo.
Ao longo da atuação, ficou também evidente a capacidade da banda para transformar a sua música numa verdadeira celebração do espírito old-school. Sem grandes artifícios, os Capela Mortuária confiaram nos riffs, na velocidade e na interação com o público para construir um concerto direto e genuíno, daqueles em que é difícil ficar parado. Não podiam existir melhores condições para a despedida: depois de tantas horas de música, o River Stone Fest terminou em alta rotação, com os Capela Mortuária a deixarem o recinto em plena combustão e a fechar a décima edição com a violência necessária para dizer adeus.

Mais uma vez, o River Stone Fest provou que não é apenas mais um festival no calendário português, mas um verdadeiro ponto de encontro para quem vive e respira música pesada. O ambiente ao longo de todo o dia foi excelente, com um público sempre participativo, uma organização atenta e aquela sensação de proximidade que continua a ser uma das grandes características do festival. A décima edição fica, assim, marcada por um cartaz diversificado, grandes atuações e, acima de tudo, por um ambiente que tornou cada momento ainda mais especial. Foi mais uma edição super bem-sucedida e, agora que o verão chegou ao fim, resta-nos começar a fazer a contagem decrescente para o próximo ano. Mas, felizmente, a espera não será assim tão longa: em março há ainda a edição de inverno do River Stone. Até lá, fica a memória de mais um grande capítulo desta história, e a certeza de que voltaremos a Rio de Moinhos para muitas mais celebrações da música pesada.
Agradecimentos finais a Ricardo Silva e ao festival pela cedência das fotografias.

