A cena autoral do Espírito Santo (BRA) pulsa forte e quem prova isso com propriedade é o Atrox. Originado no solo canela-verde de Vila Velha, o projeto fincou mais uma estaca importante ao lançar, no dia 20 de setembro, o seu mais novo trabalho de estúdio: Atrox II. Longe de fórmulas mastigadas ou de produções pasteurizadas, o disco chega para consolidar a identidade de um grupo que faz barulho com alma, suor e muita personalidade no cenário independente capixaba.

Para entender as raízes desse projeto, é preciso voltar no tempo e observar como a parceria entre Pedro Moscardi e Ruan Reis começou a tomar forma na cena independente capixaba. Longe de aglomerações de lineup complexas, a dupla encontrou na simplicidade estrutural de um baixo e uma bateria a liberdade exata para criar sua própria tempestade sonora. Essa química de duo não apenas moldou a identidade da banda desde os primeiros ensaios em Vila Velha, mas também deu o tom de urgência e compactação que define cada acorde executado por eles nos palcos do Estado.

Enquanto o primeiro álbum fincou as estacas estéticas, a concepção de Atrox II eleva a fasquia técnica sem perder a sujeira orgânica que define a banda. O processo de produção deste segundo registro exigiu um cuidado refinado na captação, buscando lapidar as frequências e dar mais corpo à dinâmica instrumental. A sintonia entre Moscardi e Reis permitiu a exploração de arranjos mais ambiciosos, onde pausas tensas conversam perfeitamente com explosões de volume, resultando em uma viagem sonora imersiva, calculada e extremamente coesa.

Dentre os pontos altos que impulsionam o disco, a escolha dos singles desempenha um papel fundamental para fisgar o ouvinte logo na primeira audição. A faixa de trabalho principal selecionada para puxar o repertório traduz o amadurecimento composicional do duo, trazendo um riff de baixo hipnotizante que costura melodias densas e uma entrega vocal apaixonada, criando ganchos que grudam na cabeça e mantêm a tensão lá no alto do início ao fim da faixa.


"O Primeiro Cartão de Visitas"

Para compreender a maturidade do novo momento, vale a pena resgatar as origens sonoras da dupla e o impacto deixado por seu primeiro disco oficial, lançado em 2023. Aquele debute funcionou como um cartão de visitas rústico e afiado, explorando timbres empoeirados, atmosferas densas e uma urgência instrumental que já deixava claro o DNA roqueiro dos músicos. Era um som cru, que flertava com o desert rock e mostrava que Vila Velha guardava.

 

Enquanto o primeiro álbum fincou as estacas estéticas, a concepção de Atrox II eleva a fasquia técnica sem perder a sujeira orgânica que define a banda. O processo de produção deste segundo registro exigiu um cuidado refinado na captação, buscando lapidar as frequências e dar mais corpo à dinâmica instrumental. A sintonia entre Moscardi e Reis permitiu a exploração de arranjos mais ambiciosos, onde pausas tensas conversam perfeitamente com explosões de volume, resultando em uma viagem sonora imersiva, calculada e extremamente coesa.

Mais do que reproduzir clichês do gênero, o Atrox injeta uma atmosfera quase cinemática em suas composições. Há nas entrelinhas de suas músicas uma sensibilidade estética que dialoga com paisagens urbanas decadentes, noites abafadas e a solidão do concreto, elementos que conversam intimamente com a vivência de quem produz arte fora dos grandes eixos culturais do país. Outro ponto que merece destaque na trajetória do duo é a entrega visceral nos palcos. Mesmo contando apenas com duas frentes instrumentais, a banda consegue preencher o espaço físico com uma muralha de frequências graves e uma dinâmica de palco que surpreende quem os assiste ao vivo, transformando pequenas casas de show e festivais independentes em verdadeiros caldeirões de energia crua. Com Atrox II, o grupo também deixa claro que a independência artística não é um fardo, mas sim um terreno de total liberdade criativa. Ao dispensar amarras comerciais e apostar em um som sem concessões estéticas, Pedro e Ruan reafirmam que o futuro da música pesada capixaba está em boas mãos guiado pela honestidade de quem faz som por pura urgência de expressão.

Nas considerações finais, Atrox II se firma como um triunfo não apenas para a discografia do Atrox, mas para o rock autoral produzido no Espírito Santo. Em tempos de consumo rápido, ver músicos da terra investindo em um conceito artístico denso, autêntico e executado com tanta garra é um sopro de renovação para a cena local e nacional. Em suma, este novo lançamento coroa Pedro Moscardi e Ruan Reis como forças criativas indispensáveis da musica capixaba atual. É um álbum feito para ser absorvido em volumes absurdos, reforçando que o peso e a psicodelia capixaba têm endereço certo e fôlego de sobra para ir muito mais longe.


FAIXAS:

  1. Drops
  2. Give Up
  3. Victim of My Life
  4. Died
  5. Without You

NOTA: 9.5/10