De deuses sumérios a entidades do panteão nórdico, a blasfêmia se fez presente.
A começar pela data escolhida. O “09” de 26/09/2026 não me parece uma coincidência. O espírito do “666” se manifestou de forma oculta e, com essa obscura data, o ritual se concretizou.
A fila para adentrar a Burning House só crescia. Bangers com sacolas de alimentos nas mãos aguardavam ansiosamente. Do lado de fora, o calor que fazia em São Paulo já dava o sinal de que as chamas infernais estavam prontas para receber seus leais. A cerveja refrescava, mas não saciava e nem diminuía o calor do ímpeto blasfêmico dos presentes.
Muitos vinham de longe, de outros estados, como Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, por exemplo. A saciedade viria posteriormente.
Então, por fim, às 18h30, foi autorizado o ingresso dos hereges para a celebração diabólica.

Pouco depois, às 19h30, três seres devotados às chamas e à escuridão subiram ao palco.
A horda recifense Evoked ficou encarregada de iniciar os trabalhos. O trio formado por Sorcerer Do’Urden (Diego Do’Urden), nos vocais e guitarra, Cadaverina Exmors, no baixo, e Apophis, na bateria, estava devidamente trajado e preparado para batalhar e travar sua cruzada anticristã com riffs, violência sonora e a agressividade característica de quem sabe o que faz.
Um trio com vivência old school e que bebe do cálice profano há bastante tempo, com passagens por nomes cruciais do Metal Negro e extremo brasileiro, como Mystifier, Infested Blood e Decomposed God, entre outros.

A entrada da Evoked no palco e a atmosfera proporcionada me causaram a sensação de estar diante daqueles que carregavam o caixão com o corpo desfalecido de Cristo para queimá-lo nas chamas impuras.
Sob as bênçãos de um extenso backdrop do Old Man’s Child, uma sinfonia densa e catártica, tal como uma tempestade sem precedentes, tomou conta da Burning House enquanto a absurda legião se deleitava.
O começo me pareceu um funeral maldito, com silhuetas negras espreitando o cadáver imundo para levá-lo às profundas chamas.
Em uma apresentação impecável, o público agitava e contemplava com admiração a técnica empregada no baixo, na guitarra e na bateria, além dos brados incansáveis e da hecatombe sonora que chegava aos nossos ouvidos.
O repertório da Evoked estava fortemente concentrado em seu material mais recente. A banda vinha apresentando músicas de Warfare of the Gods (2025), álbum de estreia que reúne composições concebidas originalmente por Sorcerer Do’Urden entre 1997 e 1999. O trabalho é precedido pelo EP Assassins of Hades (2023), de onde também saíram algumas das faixas que passaram a fazer parte do repertório ao vivo da horda.



Entre os temas apresentados pela banda nessa fase estavam “Assassins of Hades” (Assassins of Hades, 2023), “Sword of Abyssal Shadows” (Warfare of the Gods, 2025), “The Binding of the Evil One” (Warfare of the Gods, 2025), “Warfare of the Gods” (Warfare of the Gods, 2025) e “Older Than Time Star” (Warfare of the Gods, 2025).
Não tenho, entretanto, a pretensão de afirmar que essa foi exatamente a ordem executada naquela noite.
O que ficou registrado, isso sim, foi a força com que o material foi apresentado e a maneira como a Evoked conseguiu transformar aquele primeiro ato em algo muito maior do que simplesmente uma banda de abertura.

No público, cada qual onde estava, ficou. Ninguém queria perder seu lugar e ficar mais distante do palco, que havia se transformado no altar da mais imperativa heresia.
Com os olhos voltados para o palco, assim a mensagem maligna da horda Evoked foi entregue. Ouvidos sedentos e olhos atentos. O Metal Negro prevaleceu e esta seria apenas a primeira parte, o primeiro ato.
Assista o video da apresentação, registro este feito por este que vos escreve para o canal Rock Doido do Argoth:
A blasfêmia, até ali, já nos havia deixado saciados. Mas o anfitrião da noite ainda não havia se apresentado.

Então, às 21h, após a execução de clássicos do Metal extremo mundial no sistema de som da casa — entre eles “In the Shadows of the Horns”, do Darkthrone —, a sinfonia satânica voltou a tilintar seus metais. Os donos da noite enfim se fizeram presentes: os noruegueses do Old Man’s Child.
Saindo do inferno dos trópicos, com aquele calor infinito de São Paulo, para as geleiras intermináveis, cruzando o Atlântico para um ritual magistral. O deleite causado pela Evoked havia deixado aquele apetite por mais escuridão e, representando o Brasil, a horda entregou um público ensandecido que clamava por Satanás.
PS: Sim, tinha um cara gritando e clamando pelo poderoso rei das profundezas. Nada de diferente em um show de Black Metal. Seria estranho se começassem a clamar por Jesus Cristo. Risos.
Com sua sombria host, o Old Man’s Child se “materializou” no palco da Burning House.
A ímpia sinfonia veio com toda a sua força iconoclasta, derrubando deuses e tomando o trono de gelo para si.
E aqui havia algo que tornava aquela apresentação ainda mais especial.
À frente da banda, Galder. Ao seu lado, uma formação escolhida a dedo para levar novamente aos palcos a obra do Old Man’s Child: Cyrus, na guitarra; Elvorn, no baixo; e Tjodalv, na bateria.
Três nomes que também carregam uma história bastante particular dentro da cena norueguesa. Cyrus e Tjodalv possuem ligações com Dimmu Borgir e Old Man’s Child, enquanto Elvorn integra o universo do Susperia e outros projetos do Metal extremo norueguês. Uma formação que, mesmo funcionando como banda de apoio ao projeto de Galder, não tinha absolutamente nada de improvisada.
Diferentemente do que eu imaginava, pensei que seria uma boa apresentação. Mas não estamos falando de qualquer banda e/ou qualquer show. O frontman do Old Man’s Child é nada mais, nada menos que o infame Galder.

Lenda viva do Black Metal norueguês, que integrou por décadas o Dimmu Borgir.
E, sem comparações, Galder, por si só, já domina o palco. Brinca, agradece ao público, declara seu amor ao público e ao Brasil. Um poço de simpatia, desfazendo aquele estereótipo do europeu carrancudo.
Simpático, fazia questão de cumprimentar quem estivesse “colado na grade”. O público vibrava e pedia mais. Inúmeros pedidos podiam ser ouvidos vindos da plateia e, quando aquela aguardada música era revelada no set, o êxtase era imediato.
A sensação era de que a banda havia se empenhado para trazer um repertório que agradasse ao público e não deixasse nenhum som importante de fora. Viam-se pessoas contentes, cantando e pulando. Cada música que se revelava era uma comemoração.
Galder sorria e apontava para os presentes como se agradecesse individualmente a cada um que estava ali, como se dissesse: “Que bom que você veio. Fico feliz que esteja aqui.”

E o set realmente percorreu diferentes momentos da trajetória do Old Man’s Child, passando por praticamente toda a fase clássica da banda.
Em ordem cronológica pela discografia, o repertório apresentado em São Paulo contemplou:
“King of the Dark Ages” (Born of the Flickering, 1996);
“Doommaker” e “Soul Possessed” (The Pagan Prosperity, 1997);
“Towards Eternity” (Ill-Natured Spiritual Invasion, 1998);
“Hominis Nocturna” e “Unholy Vivid Innocence” (Revelation 666 – The Curse of Damnation, 2000);
“The Soul Receiver” (In Defiance of Existence, 2003);
“Twilight Damnation” (Vermin, 2005);
“The Dream Ghost” (Vermin, 2005);
e “God of Impiety” e “The Millennium King” (Ill-Natured Spiritual Invasion, 1998; The Pagan Prosperity, 1997).

A ordem acima está organizada cronologicamente pela discografia, e não corresponde à ordem em que as músicas foram executadas no palco. No show, a banda abriu com “Towards Eternity”, seguida por “King of the Dark Ages”, “Doommaker”, “Hominis Nocturna”, “Born of the Flickering”, “The Soul Receiver”, “Twilight Damnation”, “God of Impiety”, “Soul Possessed”, “The Dream Ghost”, “Unholy Vivid Innocence” e a aguardada “The Millennium King”.
E foi justamente essa mistura de diferentes fases que tornou o repertório tão especial. Não havia apenas uma viagem nostálgica por um determinado álbum. Havia uma espécie de retrospectiva viva de uma trajetória que atravessou os anos 1990, os anos 2000 e chegou até aquele palco em 2026.
Na outra ponta, o público cantou do começo ao fim, não permanecendo em silêncio em nenhuma canção. Um mosh se formava, para a felicidade dos “mosheiros” de plantão. Digo “não felicidade” para aqueles que queriam apenas ficar ali quietos, sem serem engolidos ou levar esbarrões.
Pude presenciar fãs em clara e evidente emoção, tal como a realização de um sonho.

Da minha parte, posso dizer que um filme passou diante dos meus olhos, principalmente por imaginar que talvez nunca veria um show dessa poderosa entidade do Black Metal, o Old Man’s Child, aqui no Brasil.
Até porque a banda havia entrado em hiato e permaneceu por mais de duas décadas longe dos palcos. Agora, porém, o projeto liderado por Galder voltou à atividade ao vivo e, ao que tudo indica, existe a intenção de novos trabalhos e de uma retomada mais efetiva dos palcos.
Palhetas, baquetas, abraços foram distribuídos. Fotos foram feitas e ambas as bandas, Old Man’s Child e Evoked, pareciam se sentir em casa.
Acredito que isso muito se deva à experiência intimista que a Burning House proporciona, tal como o reencontro de antigos amigos e o surgimento de novas amizades que se uniram em um único intuito: mostrar a força e a presença do Metal extremo na essência do público latino e sul-americano.
Assista aqui o video da apresentação do Old Man’s Child, video também feito por este que vos escreve para o canal Rock Doido Do Argoth. Confere e se inscreva no canal:
Antes, durante e depois das apresentações, era possível ver a equipe técnica das bandas circulando pela casa e cumprimentando a todos com muita simpatia.
Além do imenso bandeirão que tomava toda a parede do palco da Burning House, o Old Man’s Child trouxe também sua própria mesa de som, somando-se ao equipamento profissional fornecido pela casa. O resultado foi uma experiência auditiva ímpar.
Galder, durante todo o show, tocou com uma Flying V, Jackson Signature, branca e lindíssima.
As luzes mais baixas, ora em tons vermelhos, ora em tons mais frios, colaboraram para uma experiência sonora bastante imersiva. Não era apenas um show. Todo o cuidado havia sido tomado e tudo se mostrou muito singular.
Da discografia do Old Man’s Child, praticamente todos os principais períodos tiveram alguma representação no repertório. Apenas Slaves of the World (2009), último álbum lançado pela banda até o momento, permaneceu de fora.
Este foi um grande show!
Único por sua experiência ímpar e surreal por sua natureza, capaz de reunir antigas e novas gerações. Black Metal sinfônico que atravessa décadas e se mantém íntegro e sem “massagem”. Assim defino o trabalho do Old Man’s Child e da Evoked.
E, aliás, estas palavras não possuem a intenção de diminuir, mas sim de salientar o quão visceral é essa música e o quanto isso é importante na minha vida e na de todos os fãs das bandas e do estilo.
Que a chama do Metal Negro nunca se apague e se eternize.
Assim foi concluída esta celebração.
A blasfêmia e a tomada do trono nos dizem muito: novo disco? Tomara que sim!
Novas vindas ao Brasil e à América Latina? Sim, também.
O que aconteceu em São Paulo não foi único por ser uma única data, mas se demonstrou único pela experiência de ver nossos “ídolos” firmes e fortes, levando sua arte, sua música e, principalmente, proporcionando aquela acolhida que somente a música pode proporcionar.
Ao final, nas caixas de som, até “Dancing Queen”, dos suecos do ABBA, tocou no sistema de som da casa, dando de fato as boas-vindas e desejando um bom retorno.
Parabéns à Caveira Velha Produções e à Talent Nation Latin America por mais esta histórica e impecável produção.

