A história da BRAT, quarteto feroz vindo diretamente de Nova Orleans (EUA), começou em meio ao caos festivo do Mardi Gras de 2020. Desde a fundação, a banda se recusou a seguir as cartilhas engessadas do metal tradicional, injetando uma identidade visual e conceitual que choca e atrai na mesma medida. Longe de abraçar o niilismo cinzento comum ao underground, o grupo fincou sua bandeira em uma estética exagerada, irônica e propositalmente contrastante, misturando a crueza de guitarras podres com uma energia pop abrasiva que rapidamente chamou a atenção da cena extrema internacional.

Lançado no dia 25 de setembro pela Prosthetic Records, “Manslayer“ coroa a evolução do grupo após o burburinho gerado por seus primeiros trabalhos, consolidando-os como um dos nomes mais instigantes do metal contemporâneo. A produção do disco foi tratada com um cuidado cirúrgico para não perder a essência suja que define o grupo, mas garantindo corpo e brutalidade técnica. Cada pista foi moldada para soar orgânica, evitando aquela compressão excessiva e plástica que esteriliza o metal moderno, permitindo que a sujeira dos amplificadores e a crueza da percussão respirem com violência.

Como vitrine prévia do álbum, a escolha do single “Speculum Bleed” funcionou como um manifesto da brutalidade estética do grupo. A faixa entrega um cartão de visitas implacável, unindo uma velocidade rítmica sufocante a uma dinâmica de riffs que não dão margem para respiro. Ao lado de faixas como “Trophy Hunting” e da própria faixa-título, o single demonstra como a banda sabe dosar o peso instrumental do deathgrind com uma verve lírica debochada e incisiva, que trata de vingança e escárnio sem recorrer aos clichês macabros habituais.

O grande motor conceitual e sonoro do disco é o que eles próprios cunharam como “bimboviolence“. Trata-se de uma colisão frontal proposital: de um lado, a violência sônica irredutível do powerviolence, do hardcore e do death metal mais sujo; do outro, uma estética visual e uma atitude hiper-feminina, colorida, irônica e escrachada. Esse contraste não é apenas um truque de marketing, mas a espinha dorsal do trabalho. Enquanto o som destrói tudo ao redor, a postura lírica debocha abertamente da fragilidade do ego masculino e da pose solene que tantos puristas do metal tentam proteger a todo custo.


"Amplificadores no talo e zero esterilização: a engenharia do som cru em Manslayer".

Quando a vocalista Liz Selfish assumiu de vez a responsabilidade pelas letras neste disco, ela buscou inspiração em um lugar completamente fora da curva para o metal extremo: a música country tradicional norte-americana, mais especificamente nas narrativas de vingança cantadas por mulheres (na linha de nomes como Carrie Underwood e Miranda Lambert).Enquanto o metal costuma apelar para os clichês fantásticos de horror, carnificina genérica ou ocultismo, o BRAT usou a estrutura lírica das músicas country de “mulheres traídas e revoltadas” que buscam acerto de contas com maridos infiéis ou abusadores, mas empurrou essa energia para o extremo absoluto do deathgrind.

Toda essa dinâmica visual e conceitual desemboca diretamente na capa do disco, onde um salto alto cor-de-rosa aparece cravado fundo no crânio de um homem engravatado. Essa imagem resume visualmente a alma do bimboviolence: uma colisão direta entre o deboche estético espalhafatoso e a violência crua de um acerto de contas definitivo, debochando abertamente da pose engomadinha e dos maneirismos machistas que historicamente povoam o imaginário do metal pesado.

Antes de assumir o microfone e liderar o quarteto no circuito internacional de metal extremo, ela era apenas uma figura presente na cena underground como fã de longa data e apoiadora de shows. Liz costuma contar em entrevistas que nunca tinha tido nenhuma experiência prévia tocando em instrumentos ou cantando em projetos anteriores; ela simplesmente consumia vorazmente shows de hardcore e metal desde a adolescência até dar o salto improvável de ir para a linha de frente de um grupo de deathgrind. Para tirar o vocal rasgado e brutal do papel no início, ela treinou sozinha em casa cantando junto a plenos pulmões faixas de bandas como Jesus Piece e A Day To Remember, transformando essa bagagem de fã obstinada na base da sua própria identidade vocal.


“Manslayer” funciona como uma marretada na porta de uma cena que muitas vezes se esquece de como se divertir enquanto destrói tudo. O quarteto de Nova Orleans pegou a própria identidade visual e sonora, esticou a corda ao máximo e provou que o peso extremo não precisa de pose de mau e nem de carinha fechada para fazer estrago. É um registro que debocha dos dogmas do próprio estilo que ocupa, mostrando que a inteligência de uma banda está justamente em rir da própria cara enquanto entrega um dos sons mais viscerais e honestos dos últimos anos. este segundo álbum se firma como um soco certeiro na mesmice da cena contemporânea. A BRAT prova que é perfeitamente viável fazer um som denso, sujo e extremamente violento sem perder o humor, a inteligência crítica e uma personalidade gigantesca. É um trabalho que não pede licença para existir e que deixa claro que o futuro da música pesada pertence a quem tem coragem de subverter as regras por dentro.

FAIXAS:

  1. Intro
  2. Aileen Wuornos
  3. Speculum Bleed
  4. Bone Spurs
  5. Botchtox
  6. Media Slop
  7. Trophy Hunting
  8. Asking for Hell
  9. Heretic Burning
  10. Interlude
  11. Manslayer (Hell Hath No Fury)
  12. Bloody Mary
  13. Femicidal Vengeance (feat. Revocation)
  14. Spit on His Grave
  15. Ways to Kill Your Husband
  16. Blistered Tongues (feat. Walls Of Jericho)
  17. Outro

NOTA: 9/10