– Muito obrigado pelo tempo cedido à equipe do Cultura em Peso. Você pode nos contar como surgiu o UGANGA?

Manu Joker: O começo de tudo foi em Uberaba, no tradicional Sertão da Farinha Podre, era final de 1993. Eu tinha saído do Sarcófago um pouco antes e comecei a tocar com várias pessoas de forma descompromissada em alguns projetos também de estilos variados. Um desses projetos era o Ganga Zumba, que depois foi rebatizado como Uganga e virou uma banda de verdade quando encontrou sua sonoridade. Mais de 3 décadas depois, várias formações, 8 álbuns e tours pelo Brasil e Europa, a banda segue firme, renovada e olhando pra frente. Diminuir o ritmo não é uma opção, muito pelo contrário.

– Gostaria de saber como você define o Uganga. Eu, particularmente, achei o trabalho de vocês voltado para o hardcore, com pitadas de metal. Concorda comigo?

Manu Joker: Sim, estamos primordialmente nessa encruzilhada entre os dois estilos. Nossa música tem suas raízes fundamentadas no hardcore e no metal, em especial no thrash metal, o que pode realmente nos definir como uma banda de crossover. Porém, a nossa fórmula tem outros elementos como, por exemplo, o dub, o rap, o doom, o drums’n’bass e até a música mineira de raiz. É crossover, sim, porém livre de fórmulas musicais e estéticas pré-estabelecidas. Isso não quer dizer que a gente não ame bandas como Suicidal Tendencies, D.R.I., Cro-Mags ou Cryptic Slaughter. Nós só fazemos um tipo de música diferente.

– “Ganeshu” é o seu novo registro. Como foi o processo de composição deste material?

Manu Joker: Após o lançamento do “Libre!” (2022), a banda passou por uma reformulação total. Depois de mais de duas décadas compondo com o mesmo time, eu me vi recomeçando do zero. E isso, além de ter sido um desafio, foi por outro lado também inspirador. “Ganeshu” marca o início dessa nova fase, nos leva para outro lugar e foi composto nesse período de transição, com pessoas que estavam chegando e outras somente de passagem ou partindo. Mais do que qualquer outro álbum que já lançamos, é um disco de renascimento. Nós só tínhamos dois caminhos, ou a banda voltava mais forte ou acabava.

– Gostamos muito da qualidade sonora alcançada por vocês. Suponho que o trabalho em estúdio tenha sido bem tranquilo. O que você pode nos falar sobre esta etapa, até chegarmos ao lançamento propriamente dito?

Manu Joker: Você está certo, realmente foi uma das gravações mais tranquilas que já fizemos. Um corre rápido, leve e divertido. Novamente gravamos no Rocklab, em Goiás, e posso dizer que temos uma química muito boa com o mestre Gustavo Vazquez, que co-produziu o álbum comigo. Ele conhece bem a banda, entende nossa sonoridade e tirou um som animal. No Rocklab estamos em casa, isso é um fato. Modéstia à parte, a banda também fez uma pré-produção muito caprichada antes de ir pra lá, chegamos prontos na hora de registrar as músicas. Um detalhe sobre essas gravações é que, por sugestão do Gustavo, toda a base instrumental foi gravada junta, com a banda tocando numa sala, olho no olho, e sem metrônomo. Isso, ao meu ver, trouxe pro trabalho muito da energia que temos ao vivo. Não é fácil levar essa essencia pro estúdio e eu acredito com toda certeza que chegamos bem perto disso. As músicas não soam como uma colagem de takes gravados, e maquiados, individualmente. A terceira parte do documentário “Ganeshu: 3 Décadas 4 Elementos” vai ser toda dedicada às gravações e, em breve, estará disponível no nosso canal do YouTube. Aproveito pra convidar todo mundo a conferir os dois primeiros episódios que já estão no ar, com média de 20 minutos cada. O documentário completo terá ao todo 4 partes, cada uma dedicada a um elemento da natureza (Água,Fogo, Terra e Ar), e é um excelente complemento pra se entender o nosso momento atual.

-Vinicius, eu adorei as linhas mais melodiosas presentes em “Ganeshu”. Mesmo você não tendo gravado o álbum, o que pode nos falar sobre as guitarras do Jean (Pagani) neste trabalho?

Vinícius Luz: O Jean é um excelente guitarrista, os solos do “Ganeshu” são os meus preferidos da discografia do Uganga, são tecnicamente os mais desafiadores. Além da melodia, a guitarra base do Jean não fica pra trás, muito peso, groove e power chords com nona adcionando tensão, criando uma sonoridade aberta e trazendo um ar mais moderno pras composições.

– Manu, a arte da capa é bem diferente, fugindo do padrão a que estamos acostumados. Qual mensagem você quis transmitir com ela?

Manu Joker:  O conceito da capa parte de uma entidade fictícia que imaginei fundindo Exu e Ganesha. Novamente aqui temos uma encruzilhada, um crossover, dessa vez entre África e Índia. Apesar de culturalmente distintas, ambas as figuras têm muito em comum: são os mensageiros, são os removedores de obstáculos e mostram o que você precisa ver. Muitas vezes isso é diferente do que você gostaria de ver (risos). África e Índia se encontram no Brasil, metal e hardcore se fundem na nossa música. A arte gráfica foi desenvolvida pelo meu irmão Artur Fontenelle, da Deadmouse Design, que já havia trabalhado conosco no “Libre!”. Ele teve uma interpretação perfeita desse conceito e fez um trampo verdadeiramente incrível. É uma capa simples, direta e muito inspirada. E concordo com você, ela foge dos clichês das capas de metal. Eu amei o resultado.

– Imagino que vocês já devam estar trabalhando em músicas novas. Poderiam nos adiantar como elas estão soando?

Vinícius Luz:  Por enquanto, são seis demos em processo de lapidação. Já temos um bom rascunho: cerca de 60% do álbum. Tem blast beats, breakdowns, riffs marcantes e muito groove. Quando eu crio riffs, pego referências de outros trabalhos do Uganga para me adaptar à sonoridade, principalmente “Opressor”, “Ganeshu” e “Vol. 3: Caos, Carma, Conceito”. Além de estudar esses trabalhos anteriores, busco associar referências do meu gosto pessoal ao estilo da banda, incorporando essas influências na hora de compor. Gojira, Helmet, Lamb of God, Sepultura, Black Sabbath, Surra e Slayer são alguns dos nomes que uso como referência para compor no Uganga.

– Vocês já estão prontos para excursionar novamente por outras regiões do país? Pergunto isso porque, depois de ouvir o seu material, fiquei curioso para vê-los ao vivo.

Vinícius Luz: Estamos sempre prontos para pegar a estrada e tocar por aí. Temos várias datas fechadas até o final do ano e outras a caminho, inclusive mais uma tour pela região sul, dessa vez indo até o Rio Grande. Eu gosto de tocar no sul: o público é bem animado, compra bastante merch e recebe a banda muito bem. Temos boas amizades por lá e com certeza faremos outras nessa volta.

Manu Joker: Demos uma reduzida nos shows nesse segundo semestre pra focar também na composição do próximo álbum, mas tem muita coisa vindo, alguns festivais interessantes e o plano de finalmente voltar a Europa pela terceira vez. Como estamos tendo suporte pra isso agora, acho que vamos conseguir viabilizar esse teto pra 2027. De preferência com um álbum novo.

– Como vocês analisam o mercado fonográfico atualmente? Vocês acreditam que o nicho que  fazem parte, permite espaço para novos nomes promissores, como é o caso aqui?

Manu Joker: Eu vejo o nicho do Uganga por um espectro mais amplo. A base maior com certeza é de pessoas que consomem metal, hardcore e afins. Mas já conseguimos respostas muito interessantes também quando pegamos platéias sem essas características. Acredito que, mesmo a muito tempo sem ser uma banda nova, ainda somos uma novidade interessante (risos). Ouço muito quando tocamos com bandas de mais visibilidade comentários tipo “não conhecia vocês e gostei muito” ou “vim pra ver fulano de tal e sai fã do Uganga”. Essa banda até 2019 estava num ritmo muito intenso, plantando e colhendo. Logo depois disso entramos num momento bem complexo, de passos lentos porém importantes, que só foi se estabilizar em 2025. Agora já atravessamos a arrebentação (risos). Estamos prontos e renovados pra seguir e ir além de onde estamos.

– Mais uma vez obrigado pelo tempo cedido ao site Cultura em Peso. Agora o espaço é de vocês dois para as considerações finais…

Manu Joker: Acompanho o trabalho de vocês desde o início, conheço o Cremo faz uma cota e já e me considero parte da família CEP. Sempre que precisarem tamo aí, abraço.

Vinícius Luz: Obrigado pelas perguntas e pelo interesse no nosso trabalho.