No passado dia 12 de Setembro, um dos acontecimentos mais especiais do ano tomou conta da maravilhosa Vila de Sintra. Na Quinta da Ribafria, entre a natureza, a imponência histórica do espaço e uma atmosfera carregada de misticismo, os Moonspell protagonizaram uma noite que parecia ter sido escrita à medida da sua própria identidade. Organizado pela Afirma Artists, com o apoio da Cultursintra e da Câmara Municipal de Sintra, o evento marcou a estreia dos Moonspell na vila e reuniu todos os ingredientes para uma noite verdadeiramente histórica.

Tudo apontava para uma das grandes noites do ano: um concerto dos icónicos Moonspell, esgotado já há largas semanas, num lugar absolutamente singular, com Far From God apresentado na íntegra e a celebração dos 30 anos de Irreligious, um dos álbuns mais importantes da história do metal português. Para quem decidiu ficar de fora, fica o aviso: perdeu uma noite verdadeiramente especial. A começar pelo próprio local: a Quinta da Ribafria não é apenas um espaço onde se monta um palco e se recebe um concerto. É um lugar com identidade própria, carregado de história, natureza e uma atmosfera quase sobrenatural. E, à medida que o público começava a chegar, tornava-se cada vez mais evidente que dificilmente poderia ter sido escolhido um cenário mais adequado para receber os Moonspell.

A organização teve também o cuidado de antecipar uma das principais dificuldades do local: o acesso. Situada numa zona mais remota de Sintra e com estacionamento naturalmente limitado, a Quinta poderia facilmente transformar-se num problema logístico. Em vez disso, foram disponibilizados vários shuttles entre o centro da vila e o recinto, uma solução que contou com uma adesão massiva do público e que permitiu que a chegada decorresse de forma bastante tranquila. No interior, merchandising, comida e bebida completavam a oferta, criando todas as condições para que o público pudesse simplesmente entrar, instalar-se e preparar-se para a noite que tinha pela frente.

E depois havia o palco: estrategicamente colocado diante do belíssimo palacete da Quinta, rodeado pela vegetação e pelas estátuas que caracterizam o espaço, ganhava uma dimensão completamente diferente à medida que a luz natural desaparecia. Com a noite já instalada, o céu estrelado por cima de nós e a iluminação a mergulhar o cenário numa escuridão quase teatral, havia qualquer coisa de cinematográfico e indescritível naquela imagem. Aquele não era apenas o palco onde os Moonspell iam tocar. Naquele contexto, parecia fazer parte do próprio espetáculo.

Tudo estava preparado. Ou assim parecia… Quando chegou o momento de a banda subir ao palco, problemas técnicos obrigaram os Moonspell a abandonar o recinto por duas vezes. O que inicialmente poderia parecer apenas um pequeno atraso, rapidamente se transformou numa situação bem mais preocupante. O relógio avançava, a equipa técnica entrava e saía do palco e, entre o público, começou a surgir uma pergunta inevitável: Será que o concerto vai mesmo acontecer? A ansiedade era praticamente palpável. Os rostos do público refletiam a mesma incerteza que se percebia nos próprios elementos dos Moonspell. Durante cerca de 40 minutos, a equipa técnica trabalhou sem parar, numa verdadeira corrida contra o tempo para tentar encontrar uma solução. E, naquele momento, ninguém parecia ter a certeza de qual seria o desfecho. Até que, finalmente, tudo ficou resolvido!

Quando os Moonspell regressaram ao palco, a resposta do público foi imediata: uma enorme ovação, carregada de alívio, entusiasmo e, acima de tudo, reconhecimento. Depois de quase 40 minutos de incerteza, ninguém tinha arredado pé. O público ficou. A banda ficou. A equipa ficou. E o concerto, contra todas as probabilidades, ia mesmo acontecer. Mais tarde, Fernando Ribeiro haveria de confessar que “isto estava por um fio para não acontecer”. E talvez seja precisamente por isso que aquele momento acabou por tornar a noite ainda mais especial. A adversidade criou uma espécie de cumplicidade instantânea entre banda e público. Já não estávamos simplesmente à espera de um concerto: estávamos todos a torcer para que ele acontecesse! E aconteceu. Porque imprevistos fazem parte de qualquer produção, por muito bem preparada que esteja. O que nem sempre acontece é ver uma banda e uma equipa técnica recusarem-se a desistir, a trabalhar até ao último minuto para garantir que o espetáculo chega ao público. Naquela noite, os Moonspell e toda a sua crew deram tudo para que isso acontecesse. Fernando Ribeiro ainda encontrou espaço para o humor, comentando a situação com uma frase que arrancou gargalhadas ao público: “Se fosse o Dave Mustaine, já se tinha ido embora.” Felizmente, não era Dave Mustaine.

Moonspell | @the.goldenrush

O concerto arrancou com Cross Your Heart, pessoalmente uma das faixas mais fortes de Far From God, e bastaram os primeiros acordes para percebermos que os Moonspell não vinham apenas apresentar um novo álbum: vinham ocupar aquele espaço e fazê-lo parte do espetáculo. E foi logo aqui que a Quinta da Ribafria entrou verdadeiramente em cena: as luzes espalhadas pelo palacete, projetadas sobre a arquitetura e os elementos envolventes, criaram um espetáculo visual que acompanhou a banda ao longo de toda a faixa e que seria uma constante durante todo o concerto. A combinação entre a imponência do cenário, a escuridão da noite e a iluminação cuidadosamente trabalhada fazia com que, por momentos, fosse difícil perceber onde terminava o concerto e onde começava o próprio espaço.

Seguiu-se Far From God, o primeiro single de avanço do mais recente álbum homónimo, e a atmosfera gótica manteve-se intacta. A receção do público foi calorosa e surpreendentemente imediata, com grande parte da plateia a acompanhar a música e a demonstrar que, apesar de recente, o tema já encontrou o seu lugar no imaginário dos fãs. Havia, nestas primeiras duas faixas, uma ligação evidente a uma das facetas mais marcantes da história dos Moonspell: aquela sonoridade mais gótica, sombria, atmosférica e teatral que ajudou a definir a identidade da banda, particularmente na era de Irreligious. Mas reduzir Far From God a uma simples viagem ao passado seria injusto. Os Moonspell nunca foram uma banda de fórmulas ou de amarras. Fazem aquilo que sentem que têm de fazer, quando sentem que é o momento certo para o fazer, e o resultado, tantas vezes ao longo da sua carreira, é precisamente essa capacidade de continuar a surpreender sem perder a sua identidade. Far From God foi mais um exemplo disso mesmo.

A fechar este primeiro bloco surgiu Biblical, também de Far From God, talvez ainda não tão enraizada na memória coletiva do público como as duas faixas anteriores, não teve, naturalmente, o mesmo nível de resposta imediata. Ainda assim, a energia manteve-se intacta e a plateia continuou completamente envolvida, acompanhando a banda enquanto esta começava a desenhar, música após música, o universo de Far From God naquele cenário tão particular. Três temas, três momentos distintos e uma primeira certeza: os Moonspell tinham encontrado na Quinta da Ribafria o palco perfeito para contar esta nova história.

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E então chegou um dos primeiros grandes momentos da noite. Não apenas pela música em si, mas pelo peso histórico que carrega e pela extraordinária capacidade de unir diferentes gerações de fãs num único momento de comunhão. Era chegada a hora de regressar ao passado e fazê-lo com um dos temas mais fortes de toda a carreira da banda: Opium. Há músicas que, independentemente do número de álbuns lançados ou das diferentes fases atravessadas por uma banda, parecem destinadas a permanecer para sempre numa setlist. Opium é precisamente uma dessas músicas. Quem conhece os Moonspell sabe exatamente o que acontece quando os primeiros acordes surgem: um tema profundamente enraizado no lado mais gótico da banda, mas com peso suficiente para incendiar qualquer recinto, e a Quinta da Ribafria não foi excepção. A resposta do público foi imediata: vozes ergueram-se por todo o recinto, corpos começaram a acompanhar o ritmo e, por alguns minutos, diferentes gerações de fãs pareceram transformar-se num só. Era a primeira verdadeira viagem a Irreligious e ficou imediatamente claro que aquele público tinha vindo também para celebrar três décadas de um álbum que continua tão vivo hoje como quando foi lançado.

A viagem continuou com Awake e, se Opium representa uma das faces mais reconhecíveis dos Moonspell, esta foi uma oportunidade para redescobrir uma faixa que ao vivo ganha uma dimensão completamente diferente. Awake é teatral, é dramática, é sombria, e naquele cenário, sob a arquitetura da Quinta da Ribafria e envolvida pelo jogo de luzes, tornou-se quase uma pequena peça de teatro. Houve momentos em que a música parecia ter sido escrita especificamente para aquele palco. O resultado? Arrepios, arrepios e mais arrepios.

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Quando a intensidade parecia já estar no máximo, os Moonspell regressaram a Far From God para um dos momentos mais emotivos de toda a noite. The Great Wolf in the Sky surgiu como uma homenagem a Pedro Pires, que já não se encontra entre nós, e a atmosfera transformou-se por completo. O espetáculo de luzes assumiu aqui um papel particularmente poderoso: um lobo foi projetado no céu, pairando sobre o palacete, enquanto a música se transformava numa verdadeira homenagem. Durante aqueles minutos, o concerto deixou de ser apenas uma celebração da música, e tornou-se um momento coletivo de memória e de luto. O público acompanhou a banda nesse silêncio emocional, sentindo a perda como se fosse também nossa. Também no palco, o teclista deixou por momentos o seu lugar atrás das teclas para se juntar aos restantes elementos nas cordas, algo que faz naturalmente parte da interpretação de The Great Wolf, mas que, naquele contexto, acabou por ganhar um simbolismo quase involuntário. Ver todos os elementos da banda juntos, enquanto o lobo era desenhado no céu, reforçava ainda mais aquela sensação de união e de homenagem. Foi um daqueles instantes em que centenas de pessoas deixam de ser apenas público e passam a fazer parte da mesma emoção.

Depois de um momento tão intenso, era altura de aliviar um pouco o ambiente e Fernando Ribeiro sabe bem como fazê-lo. “Entrámos pela porta grande”, disse, apontando para o palacete que servia de cenário ao palco, antes de acrescentar: “Acabei de adquirir este palacete. After party após o concerto.” As gargalhadas do público foram imediatas e necessárias.

Your Promise of Light e For the Love of Mortals deram continuidade à viagem por Far From God, antes de regressarmos a Irreligious com Ruin & Misery e A Poisoned Gift. Se a primeira é uma presença habitual nos alinhamentos dos Moonspell, A Poisoned Gift é uma raridade bem maior, e em Sintra assumiu ainda mais importância, sendo tocada pela primeira vez desde 2021. Quando os primeiros segundos do tema ecoaram pela Quinta da Ribafria, a surpresa foi evidente no público. E não é difícil perceber porquê: a atmosfera cinematográfica e dramática desta faixa encontrou naquele cenário o enquadramento perfeito. Depois de testemunhar esta interpretação, fica a sensação de ter feito parte de algo verdadeiramente especial. A Quinta da Ribafria, o palacete, a escuridão e A Poisoned Gift juntos? Perfeito.

A primeira metade do concerto já tinha ficado para trás, mas, para o público, o tempo parecia ter simplesmente voado. E foi nesse ritmo quase ilusório que Fernando Ribeiro anunciou, nas suas palavras, a entrada em palco de “alguém que saiba cantar”. O momento era de Raven Claws, e para acompanhar Fernando nos vocais surgiu Mariangela Demurtas (ex-Tristania). A simbiose entre os dois foi imediata. Mariangela dominou completamente os refrões deste tema potentíssimo, acrescentando uma dimensão vocal extraordinária à interpretação, enquanto a energia em palco rapidamente se propagava pelo recinto. Foi um daqueles momentos em que a participação especial deixa de ser apenas um convidado em palco e passa a fazer verdadeiramente parte do espetáculo.

Ainda pelo universo de Irreligious, chegou Mephisto, um tema que dispensa apresentações e que voltou a provar por que razão permanece tão especial ao vivo. Foi um momento em que palco e público se transformaram numa só massa sonora, com centenas de vozes a cantar em uníssono. Herr Spiegelmann surgiu de seguida, antes da quebra momentânea na viagem por Irreligious, e regressamos a Far From God com Our Freedom to Fall e Reconquista. Foi precisamente antes de Reconquista que Fernando Ribeiro fez questão de abordar a escolha do nome tema: “Avisaram-me em relação à escolha do nome deste tema, mas em Moonspell só eu é que tenho de ter opinião sobre isso”, afirmou assertivamente, deixando clara a posição da banda e afastando qualquer leitura política que pudesse estar a ser associada ao seu nome. Esclarecida a questão, Reconquista mostrou-se exatamente aquilo que se esperava: grandiosa, melódica, intensa e penetrante. Um excelente momento para fechar esta parte do concerto e deixar o público com a sensação de que tinha acabado de assistir a algo enorme, ainda que os Moonspell estivessem apenas a preparar a sua saída temporária do palco.

Depois de uma breve saída os Moonspell regressaram para o encore. E, a esta altura, havia três temas que, muito provavelmente, já ocupavam a mente de todos os presentes. O primeiro foi Vampiria, que embora não faça parte de nenhum dos dois álbuns em celebração desta noite, era difícil imaginar este alinhamento sem um dos grandes clássicos de Wolfheart. É um daqueles temas que parece ter conquistado há muito tempo o seu lugar permanente nos concertos de Moonspell e, naquele cenário, ganhou uma dimensão absolutamente especial. A Quinta da Ribafria mergulhada na escuridão, o palacete iluminado e aquela atmosfera quase sobrenatural criaram o enquadramento perfeito para um dos temas mais emblemáticos da banda. Durante aqueles minutos, era difícil pedir mais. Seguiu-se Alma Mater, outro tema de Wolfheart que simplesmente tinha de estar presente. O hino maior dos Moonspell, aquele que em palcos portugueses assume sempre uma dimensão particularmente especial. E, como seria inevitável, o público transformou-se numa só voz. Não havia distinção entre palco e plateia: todos cantávamos juntos, todos conhecíamos cada palavra, cada momento, cada pausa. Alma Mater é isto, e em Portugal, é isto e muito mais.

Moonspell | @the.goldenrush

Faltava apenas um tema, e que tema para terminar uma noite como esta: Full Moon Madness encerrou o concerto e, naquele lugar, dificilmente poderia existir uma escolha mais perfeita. Um dos grandes clássicos de Irreligious surgia finalmente no alinhamento para fechar uma noite que, desde o primeiro minuto, parecia ter sido desenhada para aquele cenário. A força de um dos temas mais reconhecíveis dos Moonspell fundiram-se num único momento. O título nunca pareceu tão apropriado (embora não fosse uma noite de lua cheia), Full Moon Madness não foi apenas o último tema do alinhamento, foi a banda sonora perfeita para aquela noite. E quando as últimas notas ecoaram pela Quinta da Ribafria, ficou aquela sensação rara de termos acabado de assistir a algo que dificilmente poderá ser repetido da mesma forma. Não foi apenas a celebração de Far From God, não foi apenas a comemoração dos 30 anos de Irreligious, foi uma celebração da própria história dos Moonspell, num dos cenários mais extraordinários onde a banda alguma vez atuou.

Uma noite de metal, de orgulho, de história, de emoção e, acima de tudo, de comunhão entre uma banda e o seu público. Uma noite de Full Moon Madness.

Setlist:
1 – Cross Your Heart
2 – Far From God
3 – Biblical
4 – Opium
5 – Awake
6 – The Great Wolf in the Sky
7 – Your Promise Of Light
8 – For the Love of Mortals
9 – Ruin & Misery
10 – A Poisoned Gift
11 – Raven Claws (with Mariangela DeMurtas)
12 – Mephisto
13 – Herr Spiegelmann
14 – Our Freedom to Fall
15 – Reconquista
Encore
16 – Vampiria
17 – Alma Mater
18 – Full Moon Madness

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No final da noite, ficou a certeza de que esta não foi apenas mais uma data na longa história dos Moonspell. Foi uma noite em que tudo pareceu ganhar um significado especial: a música, o público, a história da banda e, acima de tudo, o cenário. E talvez o facto de tudo ter estado, literalmente, “por um fio” no início, torne o que se viveu ainda mais especial. Durante aqueles longos minutos de incerteza, ninguém sabia se o concerto iria acontecer. No final, tivemos quase duas horas de música, emoção, celebração e uma comunhão rara entre banda e público.

A Quinta da Ribafria ofereceu uma moldura difícil de igualar para celebrar Far From God e os 30 anos de Irreligious, enquanto os Moonspell provaram, uma vez mais, que continuam capazes de transformar um concerto numa experiência. Entre a euforia, os arrepios, o inesperado e a emoção, acabou por nascer algo maior do que um simples espetáculo: uma memória coletiva. Daquelas noites que não se medem apenas pelo alinhamento ou pela qualidade da performance, mas pela sensação de ter estado exatamente no lugar certo, na hora certa. E se no início chegámos a questionar se aquela noite iria sequer acontecer, no final só havia uma certeza: aquela noite aconteceu, e aconteceu de uma forma que dificilmente será esquecida.

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