Na passada terça-feira, 22 de setembro, o Porto foi palco de um dos acontecimentos mais especiais do ano. Os lendários Heavenwood regressaram aos palcos e escolheram o belíssimo e mítico Coliseu do Porto Ageas, um dos espaços mais emblemáticos da cidade, como cenário para uma celebração verdadeiramente memorável. Num formato Coliseu Box, pensado para privilegiar a proximidade e a ligação entre banda e público, a noite ficou marcada pela apresentação de The Tarot of the Bohemians – Part II, o mais recente capítulo da história da banda, pela presença de convidados especiais e, inevitavelmente, pelo regresso a hinos que atravessaram gerações e ajudaram a escrever algumas das páginas mais importantes do metal português.

Tudo indicava que esta seria uma noite inesquecível! Muito antes de os primeiros acordes, havia já no ar a sensação de que aquele não seria apenas mais um concerto. Havia expectativa, nostalgia e, sobretudo, a consciência de se estar perante um momento especial: o regresso aos palcos de uma banda cujo nome se confunde com a própria história do metal português.
O encontro de gerações entre o público tornava essa dimensão ainda mais evidente. Entre os presentes estavam aqueles que viveram intensamente o lançamento de Diva, em 1996, e acompanharam os Heavenwood numa época particularmente marcante para o metal nacional. Estavam também aqueles que chegaram mais tarde e descobriram discos como Swallow (1998) ou Redemption (2008) anos depois das suas edições. E também quem ainda não estava inteiramente imerso no universo da banda e encontrou nesta noite a oportunidade perfeita para o descobrir. Percursos diferentes, gerações diferentes, memórias diferentes, mas todos reunidos pelo mesmo nome e, naquela noite, perante o mesmo palco. Talvez seja precisamente aí que melhor se compreenda a dimensão do legado dos Heavenwood. Poucas bandas conseguem atravessar décadas e continuar a juntar, no mesmo espaço, quem guarda determinadas canções como parte da banda sonora da sua vida e quem está apenas agora a começar a descobri-las.
E havia algo particularmente simbólico em ver esse encontro acontecer no Coliseu. A imponência e a história da sala contrastavam de forma belíssima com a proximidade proporcionada pelo formato Coliseu Box, criando uma atmosfera simultaneamente grandiosa e intimista. Não existia a sensação de distância que tantas vezes acompanha os grandes palcos, pelo contrário, banda e público pareciam destinados a partilhar a mesma celebração.
Quando as luzes se apagaram, porém, toda a expectativa acumulada deu lugar àquilo que realmente importava. Independentemente da geração, do momento em que cada pessoa descobriu os Heavenwood, ou da relação que mantinha com a sua música, quem ali esteve assistiu a algo muito maior do que um simples regresso aos palcos.

E foi sob uma atmosfera profundamente dramática que os Heavenwood deram início à noite. Uma introdução falada por uma voz feminina tomou conta da sala, intensificando uma tensão que, na verdade, já se encontrava instalada pela própria construção visual do palco e pelas imponentes figuras que dele se erguiam, até que os primeiros acordes de Death quebraram definitivamente a espera. Desde os primeiros instantes tornou-se também evidente a qualidade irrepreensível do som: as duas guitarras surgiam perfeitamente definidas e equilibradas, sustentadas pela autêntica máquina que é Eduardo (Okkultist) na bateria, enquanto o trabalho vocal ganhava uma dimensão particularmente poderosa através do coro, com Beatriz Mariano (Okkultist) a reforçar as vozes mais agressivas e Sandra Oliveira (Blame Zeus) a conferir força e profundidade aos vocais femininos limpos. Seguiu-se Moonlight Girl, mantendo intacta a intensidade de uma entrada que rapidamente deixou claro que os Heavenwood não tinham subido àquele palco apenas para revisitar a sua história. No centro de tudo, Ricardo demonstrava um domínio inquestionável tanto da guitarra como da voz, algo que dificilmente surpreende quem conhece o seu percurso, mas que, perante a presença e segurança demonstradas ao vivo, continua inevitavelmente a impressionar. Para o terceiro tema da noite – Morning Glory Clouds –, a viagem recuou até 2011, a Abyss Masterpiece, mergulhando a sala numa faceta mais melódica e vincadamente gótica dos Heavenwood. Em apenas três temas, a banda tinha conseguido estabelecer aquilo que viria a marcar todo o concerto: peso, melodia, teatralidade e uma execução de enorme precisão, sem nunca sacrificar a emoção que sempre esteve no centro da identidade dos Heavenwood.
A viagem prosseguiu até 2016 com The Empress, de The Tarot of the Bohemians – Part I, trazendo consigo uma dose acrescida de peso. Construído em torno de um riff forte e dominante, daqueles que imediatamente definem a identidade de um tema, foi também aqui que os vocais mais agressivos ganharam uma nova dimensão, carregados de uma sensação visceral de raiva e dor. De regresso ao presente e a The Tarot of the Bohemians – Part II, The Moon confirmou-se como um dos grandes momentos do novo álbum: profundamente melódica, envolvente e gótica, é uma daquelas composições que, sem cair na previsibilidade, se instala imediatamente na memória como se sempre tivesse feito parte dela. Mais uma demonstração da capacidade de Ricardo para construir refrões marcantes e melodias únicas, viciantes e imediatamente reconhecíveis.
Antes de prosseguir, Beatriz Mariano abandonou o coro e avançou até à frente do palco para assumir as vozes de Since the First Smile, pérola resgatada de Diva (1996), o álbum de estreia da banda. Mais lento, melancólico e profundamente atmosférico, o tema encontrou em Beatriz uma intérprete perfeita: nos movimentos, na presença e naquele carisma vestido de negro que tão bem lhe conhecemos, parecia fundir-se com a própria sombra da composição. Mas se nas vozes o momento lhe pertenceu por inteiro, Ricardo foi magistral no solo de guitarra daqueles que permanecem connosco muito depois de terminarem. Apresentado de forma distinta, o tema foi crescendo lentamente nos seus instantes finais até atingir um desfecho verdadeiramente arrepiante. E que belo momento foi.

13th Moon trouxe consigo uma abordagem mais pesada, sem nunca perder as raízes que definem o som dos Heavenwood. Aqui, a bateria de Eduardo assumiu especial protagonismo, com uma percussão particularmente distintiva, interpretada com uma aparente facilidade, mas sempre com enorme alma. De seguida, regressámos a 2026 com The Lightning-Struck Tower, um dos momentos mais agressivos da noite, marcado por riffs de inspiração black’n’roll e por uma tensão constante que alternava entre peso, melodia e dramatismo, criando uma sensação quase permanente de urgência. E depois da tempestade, veio a bonança: Shadowflower levou-nos de volta a 1998 e a Swallow, recuperando um dos temas mais especiais e importantes da discografia dos Heavenwood. Uma composição que carrega consigo o peso da história da banda e que, ao vivo, ganhou uma dimensão particularmente emotiva.
Sensivelmente a meio do concerto, com o público já completamente rendido à atmosfera gótica que dominava a sala e o palco, e com aquela inevitável sensação de que o tempo estava a passar depressa demais, regressámos a 2016 com The High Priestess. O tema arrancou pesado, sustentado por um riff potente, antes de o refrão melódico irromper e estabelecer aquele equilíbrio entre peso e melodia que os Heavenwood tão bem dominam. A conjugação das três vozes atingiu aqui uma dimensão verdadeiramente épica, elevando ainda mais um tema cujo crescendo de intensidade se revelou simplesmente arrepiante. Foi particularmente especial assistir à interpretação deste tema, pois, pessoalmente, é um daqueles que mais me marcou de toda a discografia da banda. Mágico!
Antes de avançar, Ricardo fez questão de agradecer ao Coliseu por acolher e abraçar este tipo de eventos, num gesto que reforçou também a importância daquela noite para a banda. Seguiu-se The Sun, do mais recente The Tarot of the Bohemians – Part II, tema com uma composição profundamente emotiva e portadora de uma mensagem forte. Os vocais limpos de Ricardo assumiram novamente o protagonismo, conduzindo uma faixa de aparente simplicidade, mas repleta de emoção e profundidade, enquanto as guitarras acrescentavam beleza através de solos que nunca soam excessivos. Mais uma vez, ficou evidente a extraordinária capacidade de Ricardo para construir melodias envolventes, refrões memoráveis e momentos instrumentais que permanecem na memória. E quando o tema abranda nos instantes finais, criando uma breve suspensão antes de crescer novamente, o resultado é um daqueles momentos que arrepiam.
Chegou agora a vez de Sandra Oliveira abandonar o coro e assumir por completo os vocais de The Hanged Man, avançando para a frente do palco para um daqueles momentos que dificilmente deixam alguém indiferente. E deixem-me que vos diga: ouvir esta senhora cantar é, simplesmente arrepiante! A segurança vocal, o domínio absoluto da interpretação, o timbre únuico e a forma como ocupa o palco tornam impossível desviar a atenção. Durante estes minutos, Sandra foi senhora e dona do palco, confirmando, uma vez mais, a dimensão de uma das vozes femininas mais impressionantes do panorama nacional. Um daqueles momentos em que pouco mais há a fazer do que parar, ouvir e deixar os arrepios acontecerem.

Já na reta final antes do encore, os Heavenwood continuaram a viajar pela sua história com Rain of July, mergulhando novamente num universo profundamente gótico, mas sem abdicar de uma boa dose de peso. Seguiu-se The Stars, mais uma demonstração clara da extraordinária capacidade da banda para equilibrar melodias e peso, o lado gótico e as vertentes mais extremas, navegando entre diferentes universos sonoros sem nunca perder a identidade tão própria que caracteriza os Heavenwood. Essa capacidade de construir temas que evoluem, surpreendem e atravessam diferentes atmosferas é, afinal, um dos grandes trunfos da banda e uma das razões pelas quais a sua música continua tão reconhecível. Para fechar esta primeira parte do concerto, Frozen Images, recuperado de Diva, trouxe consigo um momento particularmente emotivo. Ricardo dedicou o tema ao primeiro baixista da banda, que já não se encontra entre nós, lembrando que, apesar da sua ausência física, “está aqui connosco”. Musicalmente, a composição encontrou um equilíbrio perfeito entre a melancolia e a dimensão mais Doom dos Heavenwood, encerrando o alinhamento principal com uma intensidade emocional que tornou inevitável a sensação de que ainda não estávamos preparados para dizer adeus.
Era agora tempo de a banda abandonar o palco por alguns instantes, mas o público recusava-se simplesmente a aceitar que a noite tivesse terminado: palmas incessantes, gritos, assobios e, sobretudo, um coro repetido e cada vez mais intenso de “Heavenwood! Heavenwood!”. Não houve um único segundo de silêncio. O Coliseu permanecia em ebulição, numa demonstração absolutamente inequívoca de que ninguém estava disposto a sair dali sem voltar a ver a banda em palco. Era o público a exigir o encore, mas, acima de tudo, a devolver aos Heavenwood toda a emoção que tinha recebido durante aquela noite. Naquele momento, a ligação entre banda e público tornou-se ainda mais impossível de ignorar.

Restavam apenas dois temas, mas seriam precisamente dois daqueles que dispensam apresentações e que fazem parte do imaginário de praticamente todos os seguidores do metal português. Quando a banda regressou ao palco, Ricardo limitou-se a dizer: “Esta eu não vou dizer qual é.” Nem precisava. Bastaram os primeiros segundos de Suicide Letters para o Coliseu explodir numa reação imediata. O público reconheceu o hino sem qualquer hesitação e cantou cada momento de uma das composições mais emblemáticas dos Heavenwood. Depois de uma noite inteira a percorrer diferentes capítulos da história da banda, era impossível imaginar melhor forma de recuperar um dos temas que ajudaram a cimentar o seu nome e que continuam, décadas depois, a provocar a mesma reação em quem os ouve.
E quando parecia que já não havia espaço para mais emoção, Ricardo anunciou: “Esta vem diretamente do coração.” Heartquake fechou a noite num clima de celebração. De melodia mais luminosa e contagiante, com um ritmo quase festivo e dançável, o tema transformou o Coliseu numa enorme celebração coletiva. Sandra e Beatriz abandonaram novamente o coro e juntaram-se a Ricardo na frente do palco, contribuindo para uma despedida em grande, à altura de uma noite tão especial. Sendo um dos temas mais conhecidos da banda, Heartquake funcionou como o ponto final perfeito: um último momento de comunhão entre Heavenwood e público, com todos a cantar, a saltar e a celebrar uma história que, naquela noite, provou estar bem longe de terminar.
Setlist:
1- Death
2- Moonlight Girl
3- Morning Glory Clouds
4- The Empress
5- The Moon
6- Since the First Smile
7- 13th Moon
8- The Lightning-Struck Tower
9- Shadowflower
10- The High Priestess
11- The Sun
12- The Hanged Man
13- Rain of July
14- The Stars
15- Frozen Images
Encore
16- Suicidal Letters
17- Hearthquake
Muito longe de ser um simples regresso aos palcos, o concerto foi a confirmação de que há legados que o tempo não apaga e músicas que continuam a encontrar novas gerações muito depois de terem sido escritas. Entre os clássicos que fizeram história, os temas de The Tarot of the Bohemians – Part II e uma produção que soube aliar peso, melodia, teatralidade e emoção, a banda apresentou-se com uma força e uma segurança impressionantes. Ricardo, Sandra, Beatriz, Walter e Eduardo demonstraram que a identidade dos Heavenwood permanece intacta, mas também que continua a existir espaço para evoluir e surpreender. Talvez seja essa a maior vitória desta noite: perceber que, três décadas depois do início desta história, os Heavenwood continuam capazes de encher um palco de emoção, de juntar diferentes gerações e de fazer um Coliseu cantar em uníssono. Foi uma noite especial, intensa e profundamente emotiva. Uma noite que não será apenas recordada por quem esteve presente, mas que passa a fazer parte da própria história dos Heavenwood e, inevitavelmente, da história do metal português.

