Em outubro de 2024, os portuenses The Small Hours deixaram a sua pegada no panorama do metal nacional com o lançamento de Quimera, um EP conceitual e inteiramente cantado em português. Cruzando a densidade opressiva do Doom Metal, a agressividade calculada do Melodic Death Metal e a grandiosidade imersiva do Metal Sinfônico, este trabalho mergulha de cabeça numa narrativa profundamente trágica.

A obra, lançada em 14 de agosto de 2024 pelo projeto liderado por António Costa, desvenda a agonia e o sofrimento de alguém que perdeu quem mais amou, traçando o retrato visceral e claustrofóbico de uma jornada autodestrutiva na tentativa fútil de os recuperar. No fundo, é uma exploração crua daquela que talvez seja a nossa maior vulnerabilidade comum: a desorientação avassaladora de enfrentar o luto e a impossibilidade de aceitar a ausência definitiva de quem nos moldou a alma.

Desde os primeiros minutos do primeiro tema, Quimera I Acto “Deus Quis”, somos irremediavelmente introduzidos ao universo melancólico e denso de Quimera. O projeto define logo de início uma identidade muito única e pessoal, potencializada pelo fato de ser cantado em português, o que lhe confere uma autenticidade crua, havendo inclusive traços de estilos musicais portugueses na forma como os refrões são interpretados. A dinâmica vocal é um dos maiores trunfos da banda: vocais berrados e rasgados, carregados de uma dor enraivecida, intercalam-se com vozes limpas ligeiramente operáticas e com coros que rapidamente nos transportam para uma missa sinistra e fúnebre.
A audição flui como uma história que se recusa a seguir padrões óbvios ou previsíveis. A composição instrumental equilibra-se de forma magistral, oscilando organicamente entre o peso esmagador do doom, a agressividade cortante do death metal, passagens com uma veia de groove e momentos de leveza atmosférica. Há espaço tanto para o headbanging mais enérgico como para fechar os olhos e deixar que a música nos transporte para paisagens gélidas e de pura negritude. Esta variação constante afasta qualquer sombra de monotonia e confere aos temas um caráter verdadeiramente penetrante, com altos e baixos emocionais milimetricamente calculados.
Ao longo do percurso, a banda vai revelando novas cartas na manga. A matriz sinfônica, embora nunca assuma o papel central de forma óbvia, surge como uma peça fundamental para dar estrutura à obra. No decorrer do disco, o dramatismo atinge patamares elevados, dando azo a apontamentos surpreendentes, como a introdução de spoken words carregadas de emoção. Mesmo em detalhes mais específicos, como a inclusão de solos de guitarra pouco habituais nos cânones tradicionais do doom, os The Small Hours conseguem injetar fatores altamente distintivos.
É difícil enumerar todos os pontos fortes de um trabalho tão coeso, mas a expressividade e o equilíbrio vocal destacam-se largamente. A forma como este álbum nos envolve é simplesmente incrível. Sem darmos conta, estamos completamente imersos nesta realidade melancólica, com uma capacidade de entrar pela mente adentro que poucas bandas conseguem alcançar.
A viagem culmina no regresso ao ADN mais puro do doom, lento, pesado e melancólico, encerrando com uma beleza nos instantes finais que deixa arrepios. É uma reta final super atmosférica e emocional, a forma perfeita de fechar uma obra com tanto peso e complexidade instrumental. Bebendo de inspirações diversas, o resultado final está longe de ser uma cópia previsível. Os The Small Hours assinam um registo genuíno, reafirmando o talento deste projeto portuense na música extrema cantada em português.
Por fim, Quimera é uma experiência que nos obriga a encarar de frente a desolação, provando que na música extrema portuguesa há espaço para a brutalidade dar as mãos à mais pura e dilacerante poesia do desespero. É sobre aquele sentimento inevitável que a vida nos atira aos ombros e que tantas vezes julgamos ser inteiramente nosso, incompreendido por todos. Mas aqui, Quimera entende-o, falando por nós quando as palavras nos faltam.
Alinhamento:
1 – Quimera I Acto “Deus Quis”
2 – Quimera II Acto “Veneno”
3 – Quimera III Acto “Destino”
Banda: The Small Hours
Álbum: EP Quimera
Label: Independente
Data de Lançamento: 14 Agosto 2024

