Fazia quase vinte anos que eu não via Las Manos de Filippi ao vivo. O reencontro aconteceu no sábado, 12 de setembro, no Pez Volcán, Córdoba, em uma noite que teve, desde o começo, um som contundente e equilibrado.

A abertura ficou por conta de Pachuco, banda cordobesa emergente que apresentou uma proposta sólida e encontrou na qualidade do áudio uma aliada importante. O som foi excelente nos dois shows, algo que nem sempre acontece e que, neste caso, permitiu aproveitar cada instrumento sem perder a energia do conjunto.

foto de @garciagarra

Depois veio Las Manos de Filippi. E a primeira impressão foi física: uma parede compacta de som literal.

Há bandas que levam suas músicas ao palco com precisão. Las Manos faz outra coisa. Ao vivo, as canções parecem crescer, ganhar volume, tensão e uma força que muitas vezes supera a dos discos. A mistura de rock, punk, ska, reggae, cumbia e ritmos latino-americanos se torna mais áspera e muito menos domesticada.

El Cabra continua sendo um grande frontman. Não precisa de uma produção grandiosa para dominar o palco: sua maneira de cantar, se movimentar e lançar cada frase como uma palavra de ordem é suficiente. Com o passar dos anos, transformou sua presença em uma marca própria dentro de uma cena que a banda ajudou a construir a partir das margens.

foto de @garciagarra

A setlist percorreu diferentes etapas de sua história e incluiu canções como “I.P.H.G.”, “Milei se cae”, “El sistema”, “Crisis internacional”, “Himno al cucumelo”, “Latino”, “El libertario”, “Chiquito Belliboni”, “Palestina”, “Organización” e “Los métodos piqueteros”. O repertório não deixou dúvidas sobre o lugar ideológico ocupado pela banda: Las Manos de Filippi é uma banda de esquerda e não faz questão de esconder isso. A setlist completa pode ser consultada aqui.

As palavras de ordem políticas não apareceram apenas entre uma música e outra. No meio do show, houve um intervalo em que uma mulher subiu ao palco para compartilhar sua história: ela é mãe de dois filhos desaparecidos, um durante a última ditadura militar e outro em democracia. Seu pedido foi concreto e doloroso: continuar a luta para encontrá-los, colaborar financeiramente de forma voluntária e não abandonar a organização diante de um sistema político que continua oferecendo respostas insuficientes.

Durante alguns minutos, o palco deixou de ser apenas um lugar para tocar músicas. Tornou-se um espaço de denúncia, memória e convocação. O público ouviu com respeito, colaborou com a arrecadação e depois voltou ao pogo com a mesma intensidade com que havia recebido cada canção.

Esse momento se transformou em uma extensão natural daquilo que Las Manos de Filippi vem fazendo há mais de três décadas. No caso da banda, música e militância não aparecem separadas. As canções falam de organização, exploração, poder, repressão e resistência; o palco completa esse discurso com corpos, vozes e participação.

foto de @garciagarra

Há também algo mais que explica a permanência da banda. Las Manos construiu um espaço próprio, desenvolveu uma identidade reconhecível e levou sua proposta a diferentes países da América Latina e da Europa. Com o passar do tempo, também funcionou como uma verdadeira banda-escola: um espaço por onde passaram músicos que mais tarde desenvolveram carreiras enormes, como Gaspar Benegas, que integrou o grupo e depois se consolidou como guitarrista de Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado.

Voltar a vê-las depois de vinte anos permitiu comprovar que bandas como essa se tornam mais conscientes do que são e reafirmam, em cada show, o próprio legado. Las Manos de Filippi continua sendo uma mistura incômoda de música popular, humor, revolta, dança e política. No Pez Volcán, essa combinação voltou a soar com uma potência que não cabe inteiramente em um disco.

Soou contundente como uma parede. Mas também como uma assembleia.