Cinco anos depois, os Heavy Ocean celebram o álbum H/O, dando-lhe o formato que o disco sempre mereceu! Lançado originalmente em 20 de agosto de 2021, H/O marcou um passo decisivo no percurso da banda portuense, cruzando influências de post-metal, post-rock e shoegaze. Cinco anos depois, em 20 de agosto de 2026, o álbum recebe finalmente a sua primeira edição em vinil, traduzindo as suas paisagens sonoras densas e instrumentais para o formato físico que a sua música sempre exigiu.

Desafiando os ouvintes tanto quanto a si próprios, os Heavy Ocean constroem um som imersivo que exige entrega. Embora alimentada por referências que vão de Russian Circles a Deftones, a banda procura imprimir uma assinatura vincada e própria no universo do post-metal. E para assinalar este quinto aniversário, H/O ganha agora uma nova vida em formato vinil. Originalmente gravado e misturado por André Matos nos Raising Legends Studios entre 2019 e 2020, o trabalho prova ter-se mantido como uma peça fundamental da identidade do coletivo portuense. Este relançamento concretiza, assim, uma ambição antiga do grupo, cujos planos originais de edição física em vinil acabaram por ser adiados devido ao impacto da pandemia. Agora, pelas mãos de Carlos Nascimento, temos o vinyl mastering realizado, tornando este marco de 5 anos ainda mais especial.
O álbum arranca com uma Intro ambiental e etérea, desenhando uma paisagem sonora que incute uma sensação de leveza e tranquilidade. Porém, essa acalmia é rapidamente desfeita em Tainted, o tema que verdadeiramente nos introduz à identidade dos Heavy Ocean. Aqui surgem as guitarras densas, as melodias marcantes e os riffs dissonantes de distorção encorpada, sustentados por uma estrutura imprevisível onde nada parece calculado, mas tudo encaixa com precisão cirúrgica. A progressão do tema rejeita os caminhos óbvios: oscila com facilidade entre a violência do peso post-metal e a subtileza de passagens mais contemplativas. Há uma entrega quase instintiva do trio à própria escrita musical, arrastando inevitavelmente o ouvinte para uma viagem da qual é impossível escapar.
Pale Horse dá continuidade à viagem com uma abordagem notoriamente mais rebelde e arrojada. O riff inicial é magnético e marcante, e abre caminho para um tema extenso e denso, profundamente focado na exploração de texturas, cordas e percussão. É a definição perfeita de experimentação esculpida numa faixa que recusa previsibilidades, regras engessadas ou estruturas monótonas. O trabalho das guitarras e da bateria assume aqui um protagonismo exemplar, enquanto a música ganha vida: cresce, acelera, desacelera e introduz novos elementos num desenvolvimento orgânico e imprevisível, até culminar num momento profundamente contemplativo.
Numb pode ser o tema mais curto do disco (à exceção da Intro), mas está longe de ser o mais simples. O arranque é misterioso e sem pressa, introduzindo elementos de forma ponderada e gerando uma tensão quase hipnótica sobre o rumo da composição. Este é, aliás, um dos grandes trunfos dos Heavy Ocean: a capacidade de desenvolver temas gradualmente, e de cruzar uma execução técnica irrepreensível com a espontaneidade de ideias que fervilham de personalidade. Quando o tema finalmente explode num riff vincado, o headbanging torna-se inevitável e um peso magnético carregado de dissonâncias à Gojira conquista-nos no imediato. No encerramento, a faixa descreve um arco perfeito e regressa ao ponto de onde partiu. É uma estrutura circular simbólica que parece evocar a inevitabilidade dos ciclos: a ideia de que, mesmo após a tempestade e o ruído, a vida acaba sempre por nos reconduzir ao silêncio e ao ponto de origem.
Na reta final do disco, Ten Ton Heart ergue-se sobre uma arquitetura de percussão intrincada que assume o verdadeiro protagonismo da faixa, transbordando progressivismo e audácia. À semelhança do restante alinhamento, o tema recusa amarras ou fórmulas previsíveis e, ao fim de 30 minutos de audição, o tempo parece ter escorrido sem que uma única palavra fosse necessária para comunicar a urgência da obra. É aqui que surge, de forma subtil, algum tremolo picking, acrescentando mais uma camada de cor à paleta estilística do trio. A faixa ganha contornos ainda mais profundos ao desaguar numa primeira passagem atmosférica: um oásis de serenidade e descompressão que surge como uma necessidade visceral para processar o peso acumulado. É o fôlego indispensável antes de a música recomeçar a sua escalada paciente em direção a um clímax avassalador. Contudo, após atingir esse pico de intensidade sonora, o tema não se extingue na violência do ruído. Ele dissolve-se numa segunda passagem ambiental que encerra a composição de forma leve e calma. Este fecho sereno funciona como a descompressão final da viagem, a calmaria absoluta que sucede à tempestade, deixando o ouvinte em suspenso no silêncio que regressa.
Solace carrega a dura responsabilidade de fechar uma obra que vai muito além de um simples disco de post-metal: é uma verdadeira viagem instrumental que exige uma audição atenta. O tema apresenta, talvez, a paisagem atmosférica e ambiental mais marcante de todo o álbum. Ao fechar os olhos, a música transporta-nos para um vale pacífico, silencioso e harmonioso. Paradoxalmente, constrói-se também uma sensação sufocante de que o abismo está próximo, um destino implacável que somos forçados a aceitar quando as guitarras irrompem de forma agressiva e avassaladora, mantendo a melodia incrivelmente intacta no meio da tempestade. Estas reflexões podem ser interpretações pessoais, mas são a prova viva de que a música instrumental nos desafia a criar um universo próprio. Desafio-vos a fazer o mesmo. E, quando parecia que os Heavy Ocean já tinham apresentado todas as suas cartas, somos surpreendidos por uma passagem profundamente progressiva e pesada que guia a obra até o seu desfecho, encerrando o disco em puro caos.
H/O é uma grande demonstração de força técnica. É um organismo vivo que respira, colapsa e renasce ao longo de cada curva sonora. O trabalho da banda portuense transcende o gênero ao transformar o peso bruto em pura emoção, onde o silêncio e o caos mantêm um diálogo perfeito.
Cinco anos depois, este regresso em vinil parece conferir uma profundidade tridimensional ao som. Não é apenas uma celebração de longevidade, mas a entrega do formato nobre que uma obra deste calibre sempre mereceu. E quanto ao disco, não há dúvidas de que se trata de uma estreia colossal que afirma os Heavy Ocean como uma das forças mais cativantes e destemidas da música instrumental contemporânea.
Alinhamento:
1- Intro
2- Tainted
3- Pale Horse
4- Numb
5- Ten Ton Heart
6- Solace
Banda: Heavy Ocean
Álbum: H/O
Data de lançamento: 20 de agosto de 2021, com edição em vinil em 20 de agosto de 2026
Label: Independente

