Saudações a todos os leitores do Cultura em Peso diretamente da República Tcheca! Como uma equipe de três pessoas que cobriu o Brutal Assault para a revista no ano passado, tivemos novamente a oportunidade de caminhar pelo histórico complexo da Fortaleza de Josefov, em Jaroměř. Nesta série de resenhas, vamos compartilhar nossas experiências com as bandas que vimos durante o festival, acompanhadas por algumas das belas fotografias de Alp. Vamos começar!

No ano passado, perdemos o trem — ops! —, mas desta vez chegamos cedo à estação central de Praga. Para nós, o Brutal Assault começa antes mesmo de Jaroměř: começa em Praga. Ver dois terços da multidão de uma estação vestidos com camisetas de bandas, carregando enormes bolsas de camping e usando coletes de batalha é uma experiência surreal, como se tivéssemos entrado no meio de um set de filmagem. Bastou seguir os caras de barbas e cabelos enormes e… pronto! Estávamos dentro do Brutal Express.

Tínhamos ouvido dizer que havia cerveja dentro do Brutal Express, mas esse serviço aparentemente havia sido retirado ou era exclusivo do trem do primeiro dia. Eu estava cheio de esperança ao embarcar no trem de aquecimento do Brutal Assault, imaginando uma cerveja gelada e desagradável para acompanhar a viagem, mas nada feito. Pelo menos havia algumas pessoas realmente legais no trem, e foi ali que encontramos nossos primeiros amigos do Brutal Assault 2026.

Como estávamos hospedados na área de Beherit, que fica um pouco mais próxima da cidade, mas um pouco mais distante da área do festival em comparação com outros campings, dedicamos boa parte daquele dia às compras necessárias para sobreviver aos cinco dias de acampamento. Nunca subestime o que pode ser necessário durante cinco dias em uma barraca — estamos falando praticamente de habilidades básicas de sobrevivência. Você vai experimentar dores ancestrais, como não conseguir dormir por causa do frio ou da dureza do chão, além dos gemidos e barulhos dos vizinhos…

Ahab se apresenta durante o warm-up do Brutal Assault 2026 na República Tcheca
Photo alp.yz | @culturaempeso

No ano passado, as nuvens escuras sobre nossas cabeças seguraram suas lágrimas até a primeira nota tocada pelo Funeral. Foi um espetáculo, e naquele momento cheguei a acreditar que algo milagroso estava acontecendo. Não havia como aquilo se repetir uma segunda vez… certo?

Errado. As nuvens do dia de aquecimento do Brutal Assault 2026 começaram a despejar chuva assim que o Ahab subiu ao palco. Dois anos, duas bandas devastadoras de doom metal, duas chuvas. Será que esses caras têm algum tipo de controle sobre a natureza?

Desde seu álbum de estreia, The Call of the Wretched Sea, lançado em 2006, o Ahab se consolidou como uma das principais bandas da cena de death/doom e funeral doom, um segmento que, honestamente, nunca contou com tantas bandas.

A apresentação começou com The Isle, de The Boats of the Glen Carrig, seguida por The Divinity of Oceans e O Father Sea. Depois de preparar o público, a banda apresentou duas músicas de seu álbum mais recente, The Coral Tombs.

Embora essas músicas mantenham elementos característicos do Ahab, elas também apresentam passagens mais limpas e algumas influências de post-metal, acrescentadas à tradicional mistura de funeral doom e death doom da banda.

O grupo entregou uma apresentação competente e emocional, mas confesso que fiquei um pouco decepcionado por não ouvir nenhuma música do álbum de estreia. Embora todos os discos do Ahab mantenham um nível consistentemente alto, The Call of the Wretched Sea foi o álbum que conquistou a maioria dos fãs, eu inclusive, e ainda não considero que tenha sido superado pelos trabalhos posteriores.

Eu queria sair dali para caçar sob o sol…

The Laws se apresenta no warm-up do Brutal Assault 2026 na República Tcheca
Photo alp.yz | @culturaempeso

The Laws foi a atração principal do dia de aquecimento. Algumas horas antes do show, tivemos uma entrevista com a banda, o que nos ajudou a esclarecer algumas dúvidas sobre o grupo e seu vínculo com o legado do Sarcófago. Não queremos entregar spoilers, então recomendamos conferir a entrevista que fizemos com toda a banda.

O The Laws é liderado por Gerald Minelli no baixo, um dos membros fundadores da banda que também participou de todas as formações de tributo ao Sarcófago após os anos 2000. A atual formação de palco conta ainda com Pedro Nicolsky nos vocais e teclados, além de Cesar Pessoa e Igor Podrao nas guitarras.

O The Laws fez uma apresentação impressionante, reaquecendo uma área que havia ficado praticamente congelada durante o show do Ahab. A banda abriu com The Black Vomit e seguiu com clássicos do Sarcófago, como Satanic Lust, The Laws of Scourge e Screeches from Silence.

Mas o melhor ficou para o final. O set terminou com Nightmare e, é claro, Midnight Queen. Eu sequer havia nascido quando o Sarcófago encerrou suas atividades, mas a energia e a presença de palco do The Laws justificam a existência do projeto como uma continuação da história do Sarcófago.

Depois dessa apresentação, voltamos para nossas barracas, preparando-nos para o primeiro dia oficial do festival.

The Laws durante sua apresentação no Brutal Assault 2026, na República Tcheca
Photo alp.yz | @culturaempeso

Um dos grandes pioneiros do metal extremo, vindo das periferias do Brasil, não poderia ser outro senão o Sarcófago. A angústia adolescente de uma vida sob a ditadura militar brasileira se transformou em alguns dos sons mais agressivos dos anos 1980 — e ainda bem que isso aconteceu. Das letras barbaramente distorcidas e quase hilariamente brutais de INRI (Deathrash) ao trabalho mais elaborado de Laws of the Scourge, a banda se tornou um marco.

E quem assume a responsabilidade por levar esse legado aos palcos é o The Laws. Durante nossa entrevista, porém, eles deixaram claro que não pretendem chamar o projeto de banda cover. A visão apresentada é a de uma continuação direta do Sarcófago, formada pelos integrantes que ainda estão dispostos a tocar, entre eles Gerald Incubus Minelli, além de novos músicos. A banda também pretende lançar material inédito em um futuro próximo.

Além disso, o The Laws comercializa durante suas turnês produtos oficiais licenciados de álbuns do Sarcófago. Pelo que pudemos entender, o ex-baterista Manu Joker e o membro fundador Wagner Lamounier Antichrist não demonstram oposição ao projeto e seguem concentrados em suas próprias atividades.

Mas chega de contexto: vamos ao show. Para ser justo, as músicas foram todas matadoras. Uma combinação de faixas dos álbuns INRI e Laws of the Scourge, além do EP Rotting, com uma música de Hate, foi suficiente para deixar o público completamente ensandecido e pronto para derrubar as barricadas.

O novo vocalista, Pedro Nicolsky, não poupou esforços e demonstrou uma ótima técnica, combinada a um timbre genuinamente imundo e repulsivo. Ele também assumiu os teclados em uma ou duas músicas. A única coisa que me incomodou foi o fato de ele pronunciar algumas palavras corretamente — “if you are a false, don’t en-TRY” acabou soando como “entree” —, mas isso parece fazer parte da brincadeira.

Cesar Pessoa e Igor Podrao dividiram as guitarras e atravessaram as músicas como uma faca quente atravessando manteiga. No baixo, Gerald Incubus Minelli se uniu a Morto na bateria para criar uma sonoridade pesada, densa e volátil.

É um projeto especialmente interessante para quem não teve a oportunidade de assistir ao Sarcófago em sua época. Vale a pena ficar de olho no novo material que deve ser lançado em breve.

Brutal Assault 2026

Data: 4 de agosto de 2026 (Warm-up) e de 5 a 8 de agosto de 2026

Local: Fortaleza de Josefov, Jaroměř, República Tcheca

Endereço: 5. května, 551 01 Jaroměř-Josefov, República Tcheca

Festival: Brutal Assault

Mais informações no site oficial do Brutal Assault