Os concertos começaram por volta das 18h, no Teatrão, em Coimbra, dando início a uma noite construída em torno do underground e de propostas bastante distintas entre si. Ao longo das horas, o palco foi mudando de identidade, passando por ambientes negros e hipnóticos, momentos de puro caos e atuações onde a ligação entre músicos e público se tornou impossível de ignorar.

A abrir a noite estiveram os Lord Of Confusion, vindos de Leiria, com a responsabilidade de aquecer a sala – e trataram disso muito bem. O seu Evil Doom instalou-se lentamente no espaço, criando desde os primeiros minutos uma atmosfera pesada e hipnótica. Os riffs densos foram acompanhados por vozes desoladas e um teclado assombroso, elementos que ajudaram a construir aquela aura negra e quase ritualística que a banda tão bem consegue criar.
Sem pressa de revelar tudo de imediato, os Lord Of Confusion foram deixando a música crescer e envolver a sala. O resultado foi uma atuação que não precisou de excessos para prender a atenção: bastou-lhes a densidade dos riffs, a atmosfera e aquela sensação constante de que algo sombrio estava a acontecer no palco.

Depois foi a vez dos So Dead, a jogar em casa. Sendo uma banda de Coimbra, a passagem pelo Teatrão. teve naturalmente um significado especial, mas o trio não se limitou a tirar partido da condição de anfitriões. Cruzando synth punk, post-punk e art rock, apresentaram uma proposta crua, hipnótica e bastante energética.
Os sintetizadores acrescentaram uma dimensão própria ao som, enquanto a componente rítmica manteve a atuação em movimento. Havia uma espécie de tensão permanente na música dos So Dead, alternando entre momentos mais dançáveis e outros mais desconfortáveis e experimentais. Uma atuação que mostrou bem a identidade do trio e que funcionou particularmente bem naquele contexto.

A meio da noite surgiu ainda uma surpresa fora do cartaz original: Caravananana. Durante uma pequena pausa do festival, cá fora, a música continuou num formato diferente, numa atuação gratuita e aberta a quem quisesse aproveitar o momento para conhecer um pouco mais do Colapso.
Foi uma espécie de extensão do próprio festival para fora da sala, permitindo que quem estava por Coimbra pudesse aproximar-se do evento sem precisar de bilhete. Um extra simples, mas que acrescentou outra dimensão à noite e quebrou a separação entre o palco e o espaço exterior.

De regresso ao Teatrão, os Dokuga assumiram o palco. Vindos do Porto e com duas décadas de percurso, trouxeram consigo uma abordagem crua e direta ao punk, marcada pelo d-beat e pela atitude que continua a definir a banda.
Não houve necessidade de grandes artifícios. Os Dokuga foram rápidos, ásperos e caóticos, mantendo uma energia constante ao longo da atuação. A experiência acumulada ao longo destes anos estava evidente na forma como ocupavam o palco e conduziam o concerto. Era punk sem filtros, com aquela urgência característica de quem continua a encontrar no palco uma razão para continuar a fazer parte do underground.

Seguiram-se os Pledge, uma das bandas que mais aguardava ver nesta edição – e a expectativa não saiu defraudada.
O post-hardcore e o noise rock dos Pledge ganharam uma dimensão particularmente forte ao vivo. Era impossível tirar os olhos do palco. Havia uma energia física evidente, mas aquilo que mais se destacou foi a emoção da voz e a conexão entre os elementos da banda. Cada movimento parecia fazer parte da própria música, e essa ligação acabava inevitavelmente por chegar ao público.
Foram explosivos, mas também carismáticos. Entre momentos de maior tensão e descargas mais violentas, os Pledge conseguiram criar uma atuação que não se limitou a reproduzir aquilo que ouvimos nM. Havia uma entrega real, uma sensação de presença e de envolvimento que tornou o concerto num dos momentos que mais me marcou durante a noite.

Depois de toda essa descarga, os Soul Of Anubis subiram a um palco já quente – e não deixaram a temperatura descer.
A dupla trouxe para Coimbra a sua fusão de Doom, Sludge e Post-Metal, preenchendo o espaço com riffs esmagadores, grooves pesados e uma atmosfera profundamente sombria. A formação reduzida a dois músicos poderia parecer, à partida, um desafio para uma sonoridade desta dimensão, mas em palco a sensação foi precisamente a oposta.
A guitarra e a bateria criaram uma parede sonora densa, onde o peso dos riffs se cruzava com momentos mais atmosféricos. Havia espaço para sentir o groove, mas também para deixar que a música criasse aquela sensação de escuridão que acompanha os Soul Of Anubis. Um concerto que mostrou como não é preciso uma formação numerosa para ocupar um palco por completo.

E quando parecia que a noite já tinha passado por todos os seus extremos, ficaram os Hetta com a responsabilidade de fechar o Colapso.
Vindos do Montijo, o quarteto trouxe uma dose explosiva de hardcore, screamo e noise rock. A sua atuação viveu precisamente desse contraste entre momentos melódicos e passagens furiosas, sem nunca perder a intensidade.
Os Hetta fecharam a noite com uma energia própria, combinando agressividade e emoção numa atuação que manteve a sala envolvida até ao último momento. Depois de um alinhamento tão diversificado, fazia sentido terminar com uma banda capaz de juntar várias dessas sensações numa única atuação: peso, caos, melodia e entrega.
Ao longo da noite, o Colapso conseguiu apresentar um cartaz que não se prendeu a uma única definição de underground. Doom, synth punk, d-beat, post-hardcore, noise rock, sludge e screamo passaram pelo mesmo palco sem que nenhuma proposta parecesse deslocada.
Mais importante ainda, houve espaço para bandas com percursos e ”linguagens” diferentes mostrarem aquilo que têm para dizer, seja através da atmosfera dos Lord Of Confusion, da energia dos So Dead, da crueza dos Dokuga, da entrega dos Pledge, do peso dos Soul Of Anubis ou da intensidade dos Hetta.
O Colapso não foi apenas uma sequência de concertos. Foi uma noite de contrastes, de descoberta e, acima de tudo, de música feita com identidade.
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