Por Sérgio “Murray” Martins

Nota: 09.0/10.0

O novo álbum da MAD SNEAKS, Incognito, chega cercado por uma proposta que combina perfeitamente com a própria essência do trio: fazer Rock sem pedir licença. Lançado em 7 de março de 2026, o trabalho reúne dez faixas e está disponível digitalmente de forma exclusiva no Bandcamp, além de uma edição física limitada em CD. A escolha não é mero detalhe, já que a própria banda faz questão de afirmar que “Rock Orgânico não morreu. Só saiu do streaming”. Formada por Agno Dissan (guitarra e vocal), Amaury Johns (bateria) e Phill Andreas (baixo), a MAD SNEAKS trabalha sobre uma mistura de Grunge, Rock Alternativo, Punk e Stoner, recuperando a sujeira e a espontaneidade dos anos 1990 sem transformar o resultado em uma simples cópia de seus ídolos.

A abertura com “Dead Killer”, que conta com a participação especial de Page Hamilton, do Helmet, já deixa claro que Incognito não está interessado em apresentações comportadas. A guitarra de Agno Dissan carrega boa parte do impacto do trio, enquanto o baixo de Phill Andreas ajuda a engrossar a estrutura e Amaury Johns conduz as músicas com uma bateria direta, sem excessos, mas bastante eficiente para manter o peso e a dinâmica. A parceria com Hamilton ainda acrescenta uma camada particularmente interessante ao repertório, aproximando a faixa do lado mais agressivo do Rock Alternativo. Na sequência, “The Cure” mergulha em uma atmosfera mais sombria e introspectiva, enquanto “Pandora” trabalha uma faceta mais melódica e emocional. Em entrevista recente, a própria banda destacou justamente “The Cure”, “Coma” e “Biocide” como músicas que representam bem o equilíbrio buscado entre peso, crítica, introspecção e vulnerabilidade.

“Dirty Blood” é outro momento que merece atenção. Com apenas 2min15s, a faixa funciona quase como uma descarga concentrada de tensão, explorando sentimentos de inadequação, cansaço e conflito interno. O material também ganhou um videoclipe marcado por máscaras, sombras e fogo, imagens utilizadas para representar diferentes fragmentos da personalidade e a busca por libertação das expectativas externas. Já “Coma” amplia esse universo emocional com uma composição mais pesada e sufocante, na qual o confronto com medo, dependência e autodestruição ganha um tratamento bastante visceral. É justamente nesse tipo de abordagem que a proposta da MAD SNEAKS funciona melhor: em vez de esconder as imperfeições atrás de uma produção excessivamente limpa, o trio aposta em uma sonoridade que preserva a sensação de músicos tocando juntos, algo que os próprios integrantes apontam como fundamental para a identidade do disco.

Outro ponto forte aparece na segunda metade do álbum. “Shots, Roses and Fire” combina melodia e tensão, enquanto “Label” assume um caráter mais provocativo ao abordar o peso dos julgamentos e dos rótulos impostos pelos outros. “Medeleine”, por sua vez, retoma com força aquela atmosfera noventista que acompanha o grupo desde os primeiros trabalhos, e “Biocide”, com quase cinco minutos, talvez seja uma das faixas em que o lado mais sombrio do repertório se manifesta de maneira mais evidente. A história da MAD SNEAKS ajuda a entender essa sonoridade: ainda em sua fase inicial, o grupo já declarava admiração por Nirvana, além de nomes como Silverchair, Alice in Chains, Helmet, Ramones, Soundgarden e Social Distortion. A banda também trabalhou ao longo da carreira com nomes importantes da produção internacional, como Jack Endino e Toby Wright, reforçando uma conexão com a tradição do Rock Alternativo que vai muito além de uma simples referência estética.

No fim das contas, Incognito funciona justamente porque não tenta reinventar o Grunge ou fingir que suas referências não existem. A MAD SNEAKS conhece muito bem o terreno em que pisa e utiliza essa bagagem para construir um álbum que alterna peso, melancolia, ironia e vulnerabilidade com naturalidade. A banda afirma que não compôs o disco pensando em algoritmos, playlists ou em descobrir uma fórmula para alcançar mais pessoas, mas simplesmente em fazer o trabalho que queria fazer — e essa postura aparece na própria estrutura do álbum, pensado para ser ouvido do começo ao fim. O resultado é um registro honesto, orgânico e suficientemente áspero para dialogar com quem sente falta daquele Rock menos polido, mas também acessível o bastante para conquistar ouvintes que estão chegando agora a esse universo. Incognito não precisa disputar espaço com o passado: ele simplesmente mostra que a linguagem do Rock dos anos 1990 ainda pode encontrar novos caminhos quando existe personalidade por trás das guitarras.