O segundo capítulo da cobertura do Brutal Assault 2026 traz uma sequência de apresentações que atravessou diferentes gerações e vertentes do metal. De Belzebong e seu stoner doom hipnótico a nomes históricos como Metal Church, Samael e Nevermore, o festival mostrou novamente a sua capacidade de reunir estilos distintos em uma mesma programação.
A jornada ainda passou pelo crossover do Municipal Waste, pelo sludge/hardcore do Kylesa, pela atmosfera sombria do Triptykon e Amenra, além do metal progressivo do Protest the Hero. Confira as impressões dos shows.
Belzebong foi a banda responsável por abrir o festival no palco principal, uma escolha um tanto curiosa considerando a quantidade de bandas de core e death metal presentes na programação. Mas não há do que reclamar. Eles estão entre minhas bandas favoritas.
Mesmo uma banda mediana de stoner doom pode provocar uma mistura enorme de alegria e melancolia, e Belzebong está entre as melhores do gênero. Com músicas como Diabolical Dopenosis, Bong Thrower e Acid Funeral, o grupo mostrou a Jaroměř como o stoner doom pode ser intrigante e surpreendente, mantendo ao mesmo tempo um groove pesado e desagradável.
Ouvir a paisagem sonora da banda se transformar de uma ideia para outra ao vivo, enquanto eu já conhecia todas as músicas de memória, foi uma experiência realmente incrível. O som ao vivo, mesmo da área Natural Stand, tão distante do palco, estava melhor do que nos próprios álbuns. O que mais eu poderia querer? 10/10.

200 Stab Wounds é uma banda relativamente jovem de death metal que conquistou rapidamente os elogios de fãs do death metal old school e até mesmo de alguns elitistas do metal. Considerando a quantidade de pessoas fazendo mosh durante o show, às 13h, enquanto uma onda de calor extremo estava em vigor na região, fica claro que esse reconhecimento também chegou ao público em geral.
Eu mesmo não conseguia aproveitar tanto as músicas da banda anteriormente, mas durante o show pude perceber como elas funcionam bem ao vivo. Ainda assim, algumas partes pareciam seguir caminhos que não levavam a lugar nenhum e acabaram quebrando o ritmo do mosh algumas vezes, então não posso dizer que aproveitei tanto a apresentação.
Apesar disso, um death metal mediano, quando bem produzido, é definitivamente agradável e fácil de ouvir. 6/10.

O legado do Metal Church é fundamental para a história do metal. Com formações constantemente modificadas durante seus primeiros anos — incluindo um período em que chegaram a ensaiar com Lars Ulrich —, eles ajudaram a estabelecer as bases para a criação de grandes hinos de heavy metal e thrash metal.
Vários ex-integrantes do Metal Church já faleceram, como o vocalista David Wayne e o baterista Kirk Arrington. O trágico suicídio de Mike Howe, em 2021, quando ainda era integrante ativo da banda, certamente tornou a situação ainda mais difícil. Mesmo assim, sob a liderança do guitarrista fundador Kurdt Vanderhoof, o Metal Church continua de pé.
Além de Kurt e Rick van Zandt, integrante desde 2012, o restante da formação é relativamente novo. Brian Allen, do Dark Arena, Ken Mary, do Flotsam & Jetsam, e ninguém menos que David Ellefson se juntaram ao Metal Church em 2025, formando uma nova escalação de peso.
Foi um privilégio ver todos esses grandes nomes reunidos sob a bandeira do Metal Church, interpretando os clássicos sem deixar escapar uma única nota. A banda apresentou uma música do álbum mais recente dessa formação, Dead to Rights, e dedicou o restante do show aos dois discos lendários, Metal Church e The Dark.
Considerando a formação recente e a enorme discografia do Metal Church, seria totalmente compreensível se eles não dessem tanta atenção às músicas antigas ou se aproveitassem o show para promover o novo álbum. Mas não. Eles foram humildes o suficiente para oferecer ao público exatamente aquilo que ele realmente queria.
Somente por essa decisão, somada à execução impecável, a banda merece o máximo respeito. 9/10.

Samael sempre foi uma banda peculiar. Eles começaram como uma banda de black metal pouco convencional e aberta a diferentes influências. Depois de alguns álbuns lançados nos anos 1990, passaram a mergulhar cada vez mais em paisagens sonoras industriais.
Os trabalhos lançados entre o início e a metade dos anos 2000 foram uma verdadeira loucura. Ao ultrapassar o industrial e entrar no cyber metal com Reign of Light, além do estranho e eletrônico Era One, a banda parecia atravessar uma espécie de crise de identidade.
Porém, há cerca de vinte anos, o Samael mantém uma identidade bastante consistente como banda de industrial metal, sempre incorporando elementos de black metal e metal sinfônico.
O repertório do Samael no Brutal Assault foi composto exclusivamente pelos dois álbuns antigos, Ceremony of Opposites, de 1994, e Passage, de 1996. Eu diria que são os melhores discos do Samael, então essa decisão mostra que eles provavelmente concordam.
Além das músicas desses dois álbuns, a banda também apresentou dois singles recentes, Black Matter Manifesto e Hail to the Sun. Gostei bastante das duas músicas, pois elas soaram como uma combinação entre o Samael de meados dos anos 1990 e a fase posterior ao Era One.
A banda tocou bem, mas, por algum motivo, os shows no palco principal do Brutal Assault por volta das 17h ou 18h, especialmente quando possuem muitos elementos sinfônicos, costumam apresentar problemas de som. Infelizmente, o Samael também sofreu com isso. 6/10.
Nevermore sofreu bastante com conflitos internos em períodos anteriores, o que levou parte da banda a formar o Sanctuary e, posteriormente, ao hiato do Nevermore em 2011.
Felizmente, em 2024, Jeff Loomis e Van Williams anunciaram o retorno do Nevermore e abriram audições para as posições de baixo e vocal. Dois turcos residentes nos Estados Unidos, o baixista Semir Özerkan e o vocalista Berzan Önen, foram escolhidos para as funções, e o Nevermore está em turnê desde então.
Eles passaram recentemente pela Turquia, mas eu queria vê-los no Brutal Assault. E aqui estamos.
A banda apresentou uma seleção de músicas lançadas entre 1999 e 2005, dedicando metade do tempo de apresentação às faixas de Dead Heart in a Dead World. Parece que o Nevermore está tentando compensar o tempo perdido entre 2011 e 2024, algo que ficou evidente tanto na escolha das músicas centrais quanto na energia da apresentação.
Jeff Loomis estava afiado como sempre, e foi uma honra ver aqueles solos sendo executados como se fossem a coisa mais fácil do mundo.
Mas o verdadeiro destaque do show, pelo menos para mim, foi a presença de palco de Berzan Önen. Berzan sempre foi uma voz admirada na cena metal turca, e muitos de nós imaginávamos que um dia ele cantaria ao lado de algum grande nome. Mas nem ele poderia imaginar que acabaria ocupando o lugar deixado pelo saudoso Warrel Dane.
A interpretação dramática e precisa de Berzan, com suas notas prolongadas, encaixou-se de maneira impressionante no registro de Dane. Eu chegaria a dizer que os vocais de Berzan ao vivo foram ainda melhores do que os de Dane.
Lembro-me de Dane segurar algumas partes em relação às versões de estúdio, enquanto Berzan entregou tudo com pelo menos as mesmas características das gravações originais — se não ainda melhor.
Espero que isso não pareça uma crítica desrespeitosa a Warrel Dane, porque gosto muito dele. Foi impossível não se emocionar durante The Heart Collector, especialmente ao observar a expressão abatida de Loomis, enquanto Berzan o consolava algumas vezes no palco. 10/10.
Eu conhecia apenas Static Tensions do Kylesa, mas mesmo assim escolhi assistir à banda em vez do Fit for an Autopsy, já que os dois shows aconteciam no mesmo horário. E fiquei feliz ao descobrir que metade do repertório era composta por músicas daquele álbum.
O Kylesa possui um som único. Talvez uma vantagem de ser uma banda dos Estados Unidos, eles conseguem reunir muitas influências de crust, stoner, psicodelia e sludge.
O dueto vocal entre Laura Pleasants e Philip Cope reforça as raízes hardcore e sludge do Kylesa e é uma das características mais singulares da banda.
Adoro ver mulheres na cena do metal, especialmente assumindo vocais agressivos, e Laura certamente fez um ótimo show. Achei os vocais de Philip um pouco fracos, e também havia algo estranho no som. Um amigo me contou que os shows do Kylesa normalmente não apresentam um som excepcional, então talvez seja algo recorrente.
Ainda assim, foi uma apresentação única e muito divertida. 8/10.
Municipal Waste é famoso pela combinação perfeita entre crossover e thrash metal, com músicas explosivas que geralmente duram cerca de dois minutos.
Não consegui contar quantas músicas eles tocaram, mas, pelo que pude ouvir, passaram por grande parte das favoritas dos fãs, incluindo Breathe Grease, Grave Dive, Sadistic Magician, Slime and Punishment, Wave of Death e Demolizer.
Foi um show muito divertido e, considerando que o sol havia acabado de se pôr, era a oportunidade perfeita para entrar no mosh — e muita gente aproveitou.
Eu, porém, estava cansado demais e só consegui assistir ao show e observar as pessoas fazendo mosh acima da área Natural Stand. O Municipal Waste não decepcionou e, com certeza, vou fazer mosh com eles em uma ocasião em que estiver mais descansado. 9/10.

Ah, Tom Warrior… por onde começar? Este é um homem que ocupa uma posição central na cena do metal há mais de 45 anos, revolucionando o gênero a cada passo.
Do som proto-metal extremo do Hellhammer ao thrash maníaco do Celtic Frost, chegando finalmente à sonoridade carregada de sludge e doom de Monotheist, lançado em 2005, e à posterior criação do Triptykon, ele sempre esteve no centro das transformações do metal.
Também preciso mencionar a participação de H. R. Giger ao longo da trajetória dessas bandas, emprestando sua arte para capas de álbuns que permanecem imediatamente reconhecíveis. O DNA do Triptykon certamente está impregnado pelo trabalho perverso e sobrenatural de Giger. Que ele seja sempre lembrado.
O show ao vivo foi, como sempre, extremamente atmosférico e tenso, com uma forte presença de neblina e iluminação. A chuva leve no início da apresentação preparou perfeitamente o palco para a escuridão que viria a seguir.
Como de costume, o repertório combinou Celtic Frost e Triptykon, com clássicos como Circle of the Tyrants e Into the Crypts of Rays, do Celtic Frost, durante a qual os fãs obviamente cantaram a letra de memória, além de Goetia e Demon Pact, do Triptykon.
E eles ainda surpreenderam os fãs mais inclinados ao lado primitivo do metal com Messiah, do Hellhammer.
Tom Warrior mostrou boa interação com o público e, embora não se movimentasse muito pelo palco, Vanja, no baixo, compensou isso, batendo cabeça e se movimentando intensamente. Ela realmente trouxe a energia necessária à apresentação.
O “novo” baterista, Johannes, demonstrou, pelo que pude perceber, enorme entusiasmo por estar na banda e entregou tudo no palco. Já os vocais de Santura foram assombrosos durante as músicas do Triptykon.
Não há muito mais a dizer sobre essa apresentação sólida, além de desejar aos integrantes uma vida longa e força suficiente para muitos novos projetos musicais. Eu, particularmente, estou curioso para saber se teremos um novo álbum do Triptykon ou, quem sabe, o surgimento de uma nova banda.
Como Tom Warrior disse durante o show: “I AM STILL NOT DEAD…”
Protest the Hero sempre ocupou um lugar especial no meu coração, e Fortress provavelmente é meu álbum favorito de metal progressivo/melodic metalcore.
Eu estava muito empolgado para vê-los, mas também apreensivo, pois sabia que Rody Walker já havia perdido a voz algumas vezes no passado.
O repertório foi o mais diversificado possível, com uma música de cada lançamento, com exceção de Fortress, que recebeu três faixas.
Musicalmente, a banda foi incrível, mas foi decepcionante perceber o quanto Rody modificou seu estilo vocal. Cara, sinto falta daquele velho dawg que havia nele. 5/10.

A atração responsável por encerrar a noite foi o Amenra. Eles tocaram sete músicas em uma hora e acabaram servindo como uma boa trilha sonora enquanto eu caminhava cansado pela área do festival.
Consegui ouvir Solitary Reign desde o começo, algo que estava entre aquelas pequenas metas musicais que eu queria cumprir. Bom, eu não tenho exatamente uma lista, mas ela existe na minha cabeça, eu acho.
Assim como aconteceu com o Cult of Luna no mesmo horário no ano passado, quando a banda entregou um show incrível, o Amenra também correspondeu.
Algumas partes dos vocais soaram estranhas em comparação com as versões dos álbuns, e eu também não estava no estado de espírito ideal para aproveitar o Amenra da maneira que a banda merecia. 7/10.
Brutal Assault 2026
Local: Fortaleza de Josefov, Jaroměř, República Tcheca.
Festival: Brutal Assault.
Confira a programação e as informações oficiais do festival antes de planejar sua próxima visita.
Se você esteve no Brutal Assault 2026, conte nos comentários qual apresentação mais marcou sua passagem pelo festival. Continue acompanhando o Cultura em Peso para mais resenhas, fotos e cobertura dos grandes festivais de metal.


