Na passada quinta-feira, dia 23.07.2026, a Invicta foi palco de uma noite histórica do underground, promovida pela Paraform Live. O evento juntou a energia da casa, os Repugnator, à tão aguardada estreia absoluta dos colombianos MASACRE em solo português, contando ainda com um aquecimento de luxo garantido pelo DJ Set de Fernando Ribeiro. Tudo isto, no já mítico espaço da cidade, o M.Ou.Co.

O dia 23 de julho ficará para sempre gravado na memória da cidade como o momento em que as lendas sul-americanas do death metal MASACRE atuaram, finalmente, pela primeira vez em Portugal. Para os fãs do género, este foi um acontecimento imperdível que não só correspondeu às expectativas, como as superou. Afinal, não é todos os dias que se tem a oportunidade de assistir à estreia em território nacional de uma banda com um legado desta dimensão.
Como se a ocasião já não fosse suficientemente especial, a Paraform Live encarregou-se de a tornar ainda mais memorável. Além da presença dos Repugnator e da sua devastadora proposta de war metal, o evento contou ainda com um DJ set de Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell, que assumiu os comandos da música no espaço exterior. Durante cerca de duas horas, o ambiente foi de puro convívio, copos erguidos e boa disposição, ao som de clássicos que atravessaram vários estilos da música pesada, aquecendo o público na perfeição para a noite que se seguia.

Quando o relógio deu as 20h30, a festa deixou a luz do dia e desceu ao piso subterrâneo. Chegara a hora dos Repugnator jogarem em casa e abrirem as hostilidades para o ritual profano que se seguiria.
REPUGNATOR
Sem precisar de qualquer tempo de aquecimento, os Repugnator entraram em palco de armas apontadas, disparando uma rajada de War/Black/Death Metal com toda a força e brutalidade. O impacto foi imediato: a banda apresentou uma proposta visceral e pouco habitual na cena, um ataque sonoro incrivelmente violento, poderoso e viciante que tomou de assalto o piso subterrâneo. A vertente visual complementou perfeitamente o ritual, com pinturas faciais e acessórios que tornaram a atmosfera ainda mais soturna, abafada e ameaçadora.
A primeira grande descarga de choque veio sem dúvida da frente de palco. Os vocais de Scourge Degradator soaram abissais, sufocantes e levados ao extremo, com o efeito de reverb e eco a conferir uma camada acrescida de verdadeira podridão à interpretação. A acompanhar esse pesadelo vocal, a instrumentalização apresentou riffs potentíssimos sustentados por uma secção rítmica demolidora, com um baterista implacável que agiu como uma autêntica metralhadora humana, a comandar a velocidade com uma precisão e violência desconcertantes, parecendo projetar aquela cadência “com uma perna às costas”.
Mais do que uma demonstração de virtuosismo técnico purista, o que sobressaiu na atuação dos portuenses foi o puro feeling e a entrega visceral ao momento. Sentia-se uma atitude de go with the flow, sem calculismos, onde a vontade crua dos músicos ditava a dinâmica do concerto. Temas como Putrid Gates of Bone, Visage of Rot e Pyretic Smog of Degradation traduziram na perfeição essa identidade, espalhando uma podridão desconfortavelmente incrível que rapidamente se apoderou de cada canto da sala e contagiou todos os presentes.
À medida que o concerto avançava, a sala ia ficando cada vez mais composta e rendida ao caos. Desde o primeiro segundo que a banda não deu espaço nem tempo para o público respirar, mantendo a fasquia no limite da agressividade. Com uma prestação tão sentida quanto devastadora, os Repugnator não só deram uma prova de força perante a sua massa associativa, como demonstraram ser mais do que merecedores de partilhar o cartaz e abrir caminho para a estreia histórica de MASACRE em Portugal.

MASACRE
Quando o relógio deu as 21h30, o ar da sala tornou-se elétrico. Os MASACRE subiram ao palco sob um mar de aplausos e uma multidão que se esmagou contra o palco, para testemunhar a estreia absoluta da banda em solo português. A ocasião trazia um peso acrescido: a celebração dos históricos e fundamentais álbuns Reqviem e Sacro, bem como a gravação de um vídeo oficial ao vivo para imortalizar este capítulo. Logo a partir das primeiras notas, percebeu-se que o que ali se ia viver não era apenas mais um concerto, mas um evento histórico para o Death Metal na Invicta.
O vocalista Alex Okendo, dotado de uma presença verdadeiramente animalesca, conquistou a assistência em escassos segundos. O seu carisma avassalador e vocais impressionantes seriam, por si só, suficientes para incendiar o recinto, mas o rigor técnico de toda a formação provou imediatamente o porquê de ostentarem o estatuto de autênticas lendas do Death Metal sul-americano. A interação com a plateia foi, sem exagero, das melhores e mais sinceras que já se viram por cá. O espírito genuíno e caloroso da América do Sul dissolveu qualquer barreira entre o palco e a sala, transformando a audiência e a banda numa única e grande família.
Musicalmente, foi uma demonstração de força e maestria. O Death Metal cru, rápido e implacável dos colombianos deu a sensação constante de estarmos a ser atropelados, e a adorar cada segundo dessa violência sonora. Os solos de guitarra, embora sem sobressaturar as composições, deixaram qualquer um de boca aberta, demonstrando uma experiência e maturidade onde os mestres das cordas executavam passagens complexas quase de olhos fechados. Na retaguarda, a secção rítmica funcionou com uma precisão cirúrgica, capitaneada por um baterista transformado numa autêntica besta da percussão, cujo peso na pedalada se sentiu como o epicentro de um sismo a abalar a Invicta.
Como seria de esperar, a resposta da audiência esteve à altura do terramoto em palco, com circle pits constantes, violentos e incansáveis. Contudo, o clímax absoluto e o ponto de rutura da noite deu-se quando ecoaram os primeiros acordes do clássico Cortejo Fúnebre. O público, que já se encontrava ao rubro, atingiu o delírio total perante um dos temas mais icónicos e fascinantes do reportório da banda, selando uma interpretação caótica, orgânica e verdadeiramente inesquecível.
Se Cortejo Fúnebre representou o auge emocional da atuação, os MASACRE estavam longe de dar o golpe final. Ainda houve tempo para despejar mais quatro autênticas bombas sobre uma audiência que se recusava a abrandar, mantendo a intensidade no máximo até ao último segundo. O fecho com Death Metal Forever revelou-se, por isso, mais do que uma simples escolha de repertório: foi uma declaração de princípios. Numa noite que marcou a estreia dos colombianos em Portugal e que ficará para sempre gravada na memória de quem a viveu, dificilmente poderia existir um tema mais apropriado para encerrar uma celebração absoluta do Death Metal.
Foram dezenas de minutos onde o tempo pareceu parar e a história do underground se escreveu ao vivo. Sentir aquela descarga de energia crua, sabendo que cada segundo daquela estreia memorável estava a ser imortalizado em vídeo, transformou a atuação num momento verdadeiramente transcendental. Foi uma daquelas noites raras e mágicas em que a fúria da música se funde com a memória coletiva de quem lá esteve, garantindo que a primeira passagem dos colombianos por Portugal fique gravada a ferro e fogo no coração dos fãs.

Setlist:
1 – Sacro
2 – Orgasmos Escuros (Paraíso)
3 – Brutales Masacres
4 – Dios Del Horror
5 – Ola de Violencia
6 – Más Allá del Dolor…
7 – Sangrienta Muerte
8 – Cortejo Funebre
9 – Escoria
10 – Moral Esclava
11 – Blasfemias
12 – Death Metal Forever
Em suma, a passagem de MASACRE pela Invicta, acompanhados dos portuenses Repugnator, foi uma vitória estrondosa para a música extrema e uma celebração exemplar da cultura underground. O público respondeu com uma entrega exemplar do início ao fim, correspondendo à fasquia elevada que foi colocada em palco e na régua de som. Um aplauso final é inteiramente devido à Paraform Live, que demonstrou uma visão e organização irrepreensíveis, desde a aposta ganha no convívio ao ar livre com o DJ Set de Fernando Ribeiro até ao rigor do alinhamento na sala subterrânea.
Noites destas relembram-nos do porquê de amarmos esta música: pelo peso, pela paixão e pela comunidade genuína que se cria à volta dela.
Agradecimentos finais à Paraform Live pela cedência das fotografias.

