Nazareth emocionou fãs de diferentes gerações no Tork N’ Roll – Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

No último dia 25 de julho, o Tork n’ Roll foi palco de uma noite verdadeiramente memorável para a história da música pesada na capital paranaense. Celebrando inacreditáveis 55 anos de uma trajetória lendária, os escoceses do Nazareth desembarcaram em Curitiba com a Latin America / Brazil Hits Tour 2026, promovida no país com a chancela irretocável da Top Link Music.

A casa de shows estava completamente lotada e exibia um mosaico bonito de se ver: uma mescla viva de gerações, com forte presença de um público veterano e saudosista, além de apreciadores dos mais diversos nichos musicais — não apenas do rock e do metal — que foram até lá para vivenciar a magia pura e inconfundível que marcou os anos 70 e 80.

Phornax no palco do Tork N’ Roll. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

A missão de aquecer a noite ficou a cargo dos gaúchos da Phornax. Embora a banda tenha entregado um show cirúrgico do ponto de vista técnico e musical, apresentando o repertório do seu mais recente e elogiado trabalho, Hellforge (disponível em todas as plataformas digitais), uma boa parcela da plateia pareceu não absorver completamente a proposta. O público, majoritariamente inclinado ao Hard Rock clássico e às baladas atemporais do Nazareth, talvez tivesse “ornado” melhor com uma sonoridade um pouco menos voltada ao metal pesado tradicional.

Phornax, Tork N’ Roll, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto
Força e tradição do metal gaúcho no Tork N’ Roll. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

Mesmo assim, os gaúchos não deixaram por menos e honraram o palco! Músicas como “Silent War“, “Hell’s Paradise“, “A Matter of Time” e “Ghosts from the Past” mostraram a força da composição autoral do grupo. No comando das seis cordas, o renomado Eduardo Martinez (ex-Hangar e Panic) era a pura definição de energia, entrega e empolgação, roubando a cena ao lado da presença marcante do baixista Sfinge Lima. Nos vocais, Cristiano Poschi impressionou com um alcance e uma técnica vocal impecáveis e de alto nível — sem contar o carisma constante ao conversar e interagir com o público —, ainda que com uma presença de palco um pouco mais contida em relação ao dinamismo único de seus parceiros de banda.

Com cerca de 13 minutos de atraso em relação ao horário previsto, o Nazareth subiu ao palco para entregar o que só pode ser descrito como algo verdadeiramente único e arrebatador.

Jimmy Murrison, apesar das falhas com equipamento, esbanjou energia e presença! Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto
Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

Apesar de sérios problemas técnicos que acometeram as pedaleiras do lendário guitarrista Jimmy Murrison ao longo da noite, o brilho da performance nunca se apagou. A precisão e o carisma contagiante do inoxidável baixista e fundador Pete Agnew sustentaram a espinha dorsal do grupo com maestria exemplar.

Entretanto, o grande elemento surpresa que deixou o público no Tork n’ Roll absolutamente de queixo caído foi a potência, o alcance e o timbre avassalador do novo vocalista, Gianni Pontillo (que assumiu o posto em dezembro de 2025 para substituir Carl Sentance). Falar que a atuação de Pontillo foi absurda e surreal ainda é pouco para traduzir o que ele fez naquele palco! Seu estilo rasgado, drives precisos e cheios de soul resgata de forma impressionante a essência da “fase de ouro” da banda nos anos 1980, canalizando o espírito do saudoso Dan McCafferty de uma maneira que arrepia até o último fio de cabelo.

O repertório foi extremamente bem pensado e balanceado para resumir meio século de hinos, embora, para esta redatora em particular, um pouquinho mais de “sofrência” fosse muito bem-vinda no setlist. Sentimos falta de preciosidades como “Games”, “Star”, “I Don’t Want to Go On Without You”, “Sunshine” e a clássica “Holy Roller”. Contudo, nada disso tirou o brilho da aula de rock ‘n’ roll que presenciamos!

A abertura do show foi um golpe direto no peito. Abrindo com Telegram, Miss Misery e Razamanaz, com riffs “acelerados” e o peso de uma locomotiva, a banda provou que o tempo não perdoa ninguém, mas o Nazareth não perdoa o tempo.

Nazareth no palco do Tork N’ Roll comemorando 55 anos de existência. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

Shanghai’d e Love leads to Madness, trouxeram algo “mais dançante” preparando a alma para receber Dream On, em que a execução desta pérola acústica levou o Tork n’ Roll a um coro uníssono de emocionar. A sensibilidade interpretativa de Pontillo aqui foi cirúrgica, provando que sua voz alcança notas altíssimas sem perder a potência, doçura e a nostalgia.

E se anos 80 o bom e velho hard rock tinha como referência percussiva, cowbell ditando ritmo, MAIS COWBELL é o que tivemos em Hair Of The Dog, com seu cowbell inconfundível e o riff mais pesado do Hard Rock escocês, a música transformou a pista em uma celebração coletiva de braços levantados e cabeças balançando.

E obviamente, não poderia deixar de registrar o momento (talvez) mais aguardado por todos: LOVE HURTS e o ápice emocional da noite. A interpretação rasgada e visceral da música que se tornou hino de gerações fez até os corações mais duros (como o desta redatora) fraquejarem, em que cenas lamentáveis de sofrência só não foram piores porque mal havia espaço para se mover. Foi o momento em que Curitiba cantou com a alma escancarada!!

E se a noite já estava gravada na memória de todos, um momento específico eternizou a passagem do Nazareth por Curitiba. Visivelmente emocionado no palco ao declarar o quanto estava feliz por tocar na cidade e o quão importante aquele momento era para sua carreira, Gianni Pontillo quebrou qualquer barreira entre ídolo e fã.

Gianni Pontillo. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

No meio da emocionante Where Are You Now, o vocalista simplesmente desceu do palco e foi para o meio da plateia! Caminhando entre os fãs atônitos, Pontillo cantou e se encantou junto ao público ali presente, trocando olhares, abraços e sorrisos em uma comunhão pura de carisma e respeito. Foi uma atitude de um verdadeiro mestre de cerimônias que entende que o rock de verdade se faz olho no olho, sem pedigree ou pedestal.

Sair do Tork n’ Roll após mais de uma hora e meia de puro Hard Rock é entender o motivo pelo qual o Nazareth permanece gigante há 55 anos. As bandas passam, algumas modas até morrem, mas a verdade contida nas quatro cordas de Pete Agnew e na garganta abençoada de Gianni Pontillo permanece inabalável. Curitiba presenciou não apenas um show, mas um verdadeiro culto à resistência, à memória e à paixão pela música bem-feita. O amor pode até machucar, mas noites como essa curam qualquer alma headbanger!

SETLIST Nazareth:
1.Telegram
2.Miss Misery
3.Razamanaz
4.Shanghai’d in Shanghai
5.Love Leads to Madness
6.Dream On
7.Holiday
8.This flight tonight
9.Light comes down
10.Whiskey Drinkin’ Woman
11.Beggars day
12.Changing times
13.Hair of the dog
14.Love Hurts
15.Turn On Your Receiver
16.Where are you now
17.Go Down Fighting