Depois de dois dias de intensidade, descobertas e concertos que já deixaram marcas profundas nesta edição, o SonicBlast 2026 entrava no seu terceiro dia sem dar qualquer sinal de abrandamento. A Praia da Duna do Caldeirão voltava a encher-se de festivaleiros preparados para mais uma jornada de música, sol e convívio, enquanto os vários palcos se preparavam para receber mais um desfile de nomes de peso. O cansaço começava inevitavelmente a acumular-se, mas a vontade de continuar parecia falar mais alto e o cartaz do terceiro dia ajudava a esquecer qualquer dor muscular.

Elder, por @pmgama

Depois de um primeiro dia marcado por concertos absolutamente memoráveis como Deafheaven, Chat Pile, Trash Talk e Bongzilla, e de um segundo que trouxe a celebração dos Turbonegro, a intensidade dos Kylesa e a irreverência dos The Casualties, chegávamos ao terceiro dia com a fasquia novamente elevada. E havia razões para manter as expectativas altas: High on Fire, Elder, Necrot, 1000mods e muitos outros nomes prometiam mais uma jornada capaz de atravessar diferentes territórios da música pesada.

Se os dois primeiros dias já tinham demonstrado a enorme diversidade do SonicBlast, o terceiro e último dia prometia continuar essa viagem sem restrições. Entre doom, stoner, sludge, psicadelismo, death metal e outras propostas menos fáceis de catalogar, havia ainda muito para descobrir. O corpo podia pedir descanso, mas a música não esperava e estava na altura de voltar ao recinto para descobrir o que o terceiro dia tinha reservado.

SUMMER OF HATE – Main Stage 1

O terceiro dia começou com uma surpresa vinda de bem perto de casa. Os Summer of Hate, banda de Espinho, assumiram a abertura do Main Stage 1 depois da substituição dos Levitation Room e acabaram por conquistar completamente os presentes. O anúncio da alteração já tinha sido feito alguns dias antes do festival, mas a atuação revelou-se, pelo menos para mim, uma das grandes surpresas do dia. Para quem acredita que o primeiro concerto da tarde pode ser facilmente ignorado, os Summer of Hate provaram precisamente o contrário: às vezes, é logo no início que se encontram algumas das maiores surpresas do festival.

A proposta da banda assenta num shoegaze atmosférico e experimental, onde o psicadelismo, o pop e influências de diferentes partes do mundo se cruzam para criar uma sonoridade verdadeiramente envolvente. Os vocais femininos, simultaneamente angelicais e assombrosos, assumiram um papel central, enquanto os movimentos quase hipnotizantes da vocalista eram reforçados por uma imagem cuidadosamente construída, com uma capa preta e asas brancas. Os restantes elementos da banda também contribuíram para esta estética, através de pinturas faciais e acessórios que pareciam transportar o público para outro universo. Em alguns temas, os vocais masculinos mais explosivos do guitarrista criavam uma interessante dualidade, contrastando com a delicadeza da voz principal. Houve ainda espaço para batidas e influências de inspiração oriental, acrescentando novas camadas a uma atuação que serviu também para apresentar alguns dos temas do novo álbum lançado este ano.

Uma abertura inesperada, atmosférica e, acima de tudo, surpreendente, que mostrou desde logo que o terceiro dia ainda tinha muito para oferecer. Os Summer of Hate conseguiram criar um ambiente completamente distinto daquele que se esperaria encontrar logo no arranque de uma jornada de música pesada, envolvendo o público numa espécie de viagem hipnótica onde imagem e som se complementaram na perfeição. Uma excelente forma de começar o dia e uma daquelas atuações que nos fazem perceber, desde cedo, que vale a pena estar atento a tudo o que passa pelos palcos do SonicBlast.

Summer Of Hate, por @pmgama

PRIMITIVE RING – Main Stage 2

Os Primitive Ring chegaram ao Main Stage 2 com uma proposta de heavy psych que rapidamente começou a ganhar espaço no recinto. O trio de Los Angeles, formado por músicos ligados a projetos como Hooveriii, Frankie and the Witch Fingers, Fuzz e GØGGS, apresentou uma sonoridade construída à volta de riffs complexos, pesados e extremamente orelhudos. Mas foi sobretudo a combinação das duas vozes que mais se destacou: dois timbres e registos distintos a surgirem em simultâneo, criando uma espécie de eco psicadélico que acrescentava uma dimensão extra aos temas e tornava a experiência ainda mais envolvente.

A guitarra assumiu naturalmente um papel de destaque, sobretudo nos solos, profundamente psicadélicos e capazes de transformar os temas em verdadeiras viagens sonoras. Mas, apesar de toda a complexidade instrumental, os Primitive Ring nunca perderam de vista aquilo que torna o rock tão eficaz: o ritmo. Os temas tinham tudo para pôr o público a dançar, criando uma interessante dualidade entre a complexidade dos arranjos e a facilidade com que o corpo respondia à música.

Foi um concerto que mostrou como o heavy psych pode ser simultaneamente elaborado, hipnótico e, acima de tudo, divertido.

Primitive Ring, por @pmgama

MARGARITA WITCH CULT – Maind Stage 1

Os britânicos Margarita Witch Cult deram continuidade à viagem psicadélica do terceiro dia, mas acrescentaram-lhe uma dose considerável de peso. A proposta de stoner/doom metal da banda de Birmingham assentou em riffs densos e carregados de distorção, daqueles que tornam praticamente impossível resistir ao headbanging, mesmo quando o pescoço já começa a dar sinais claros de que talvez fosse melhor parar. A banda soube equilibrar muito bem as duas vertentes: alguns temas mergulhavam profundamente no doom, mais lentos, pesados e arrastados, enquanto outros puxavam pelo lado stoner, com mais psicadelismo, groove e até alguma velocidade.

E essa alternância tornou o concerto particularmente dinâmico. Quando os riffs aceleravam, os temas revelavam-se bastante catchy e convidavam naturalmente à dança, enquanto os momentos mais lentos criavam aquela sensação de peso que tão bem encaixa no universo do SonicBlast. No meio do público, até algumas bolas gigantes insufláveis circulavam pelo recinto, criando aquela curiosa combinação entre a música pesada e o ambiente descontraído que já se tornou praticamente uma imagem de marca do festival.

Quando chegou a altura de terminar, a plateia não estava disposta a deixar os Margarita Witch Cult partir sem mais uma música. Depois de um enorme mar de aplausos e gritos, a banda de Birmingham voltou para um último momento em palco e despediu-se com um medley de Black Sabbath, uma escolha perfeita para celebrar as suas próprias raízes e prestar homenagem aos gigantes que ajudaram a definir o peso que se sentia naquele palco.

Margarita Witch Cult, por @pmgama

NECROT – Main Stage 2

Deixem-me começar com a seguinte informação: Necrot foi, de longe, um dos concertos mais distintos de todo o festival e também um dos meus favoritos. Depois de três atuações marcadas pelo psicadelismo, chegou a hora de cortar completamente esse ambiente e acelerar (e muito) o ritmo. A responsabilidade ficou entregue aos americanos, mestres do death metal old-school, que entraram no Main Stage 2 para descarregar uma brutalidade que contrastou de forma quase abrupta com tudo o que tínhamos acabado de ouvir. Para quem ainda reduz erradamente o SonicBlast a stoner e doom, esta foi mais uma confirmação da enorme diversidade do cartaz e da vontade do festival em explorar também os territórios mais extremos da música pesada.

E os Necrot não se limitaram a trazer death metal: trouxeram o momento mais pesado do festival até então, sem qualquer margem para discussão. A técnica do trio foi absolutamente impressionante, com uma precisão e velocidade que inicialmente pareciam até contrastar com alguma tensão visível em palco. Essa tensão, contudo, desapareceu rapidamente, talvez quando perceberam a quantidade de energia que tinham diante de si. O público respondeu imediatamente ao desafio: crowdsurfing constante, circle pits cada vez maiores e uma intensidade que parecia não ter qualquer intenção de abrandar. A certa altura, o vocalista ainda lançou o desafio: “os seguranças ainda não fizeram nada hoje, deem-lhes algum trabalho”. O resultado foi exatamente aquilo que se poderia esperar.

Rapidez, brutalidade, técnica e uma vontade evidente de estar ali definiram uma atuação que se tornou, sem dúvida, um dos grandes momentos do festival. Mais do que provar que o público do SonicBlast está preparado para uma dose generosa de death metal old-school, os Necrot mostraram que esta diversidade funciona e que há espaço para levar o peso muito mais longe. Se a aposta neste lado mais extremo do metal era um teste, a resposta não podia ter sido mais clara: estamos prontos para mais. Que venha mais death metal nas próximas edições.

Necrot, por @pmgama

1000MODS – Main Stage 1

Os 1000mods são daquelas bandas que já não precisam de apresentação quando chegam a Portugal. Pouco importa quantas vezes regressem: o público português continua a recebê-los de braços abertos e, a cada passagem, os gregos parecem encontrar uma nova forma de transformar o recinto numa enorme celebração de stoner rock. No SonicBlast, essa ligação voltou a ser evidente desde os primeiros momentos, com uma plateia completamente entregue a uma banda que já conhece muito bem o caminho para conquistar este público.

Musicalmente, os 1000mods mantêm aquela fórmula que tão bem os caracteriza: riffs pesados, herdeiros diretos de Black Sabbath, construídos com paciência e sem qualquer necessidade de pressa. Os temas desenvolvem-se progressivamente, acrescentando camadas de peso e psicadelismo até atingirem o ponto certo, enquanto o som analógico, espesso e carregado de distorção reforça ainda mais essa identidade. É uma música que não precisa de recorrer à velocidade para ser intensa, mas que deixa os riffs crescerem, ganhar corpo e ocupar todo o espaço.

E talvez seja precisamente essa capacidade de construir cada momento que explica a relação tão especial que os 1000mods mantêm com o público português. A banda grega voltou a demonstrar a enorme experiência acumulada depois de tantos anos de estrada e centenas de concertos, mas sem nunca perder aquela entrega genuína que torna cada atuação especial. Mais uma passagem por Portugal, mais uma vez um concerto memorável, e a certeza de que, quando os 1000mods voltarem, o público português estará novamente à espera deles.

1000mods, por @pmgama
TEEN MORTGAGE- Maind Stage 2

Os Teen Mortgage trouxeram ao Main Stage 2 uma abordagem ao punk rock que fugiu um pouco daquilo que tínhamos ouvido até então. O duo de Washington D.C., composto por James Guile na guitarra e voz e Ed Barkauskas na bateria, mostrou como é possível retirar muito de uma formação reduzida a apenas dois elementos. A sua sonoridade cruza a urgência e atitude do punk com uma componente mais pesada, onde algumas influências de sludge acrescentam densidade e tornam o resultado particularmente interessante.

Essa mistura dá aos Teen Mortgage uma identidade própria, sem que a banda precise de recorrer a grandes complexidades. A guitarra assume naturalmente grande parte do espaço sonoro, enquanto a bateria mantém o ritmo vivo e direto, criando uma sensação simultaneamente crua e pesada. É punk, sem dúvida, mas com uma camada adicional de peso que o afasta da fórmula mais convencional e encaixa perfeitamente na diversidade estilística que o SonicBlast continua a apresentar ao longo dos seus dias.

Num festival onde é fácil encontrar bandas com formações numerosas e paredes de som gigantescas, ver um duo ocupar o palco com esta segurança acaba também por ser uma experiência interessante. Os Teen Mortgage mostraram que não é preciso mais do que guitarra, bateria e uma boa dose de atitude para construir uma proposta capaz de se destacar. Mais uma demonstração de que, mesmo dentro do punk rock, há espaço para explorar novas combinações e fugir às expectativas.

Teen Mortgage, por @pmgama
ELDER – Main Stage 1

Os Elder chegaram ao Main Stage 1 como os primeiros grandes headliners do terceiro dia, e havia uma razão muito clara para a expectativa em torno deste concerto. Formados no final dos anos 2000, os americanos construíram um percurso marcado por uma evolução constante: se a fase inicial da banda assentava sobretudo em stoner/doom metal, os trabalhos posteriores levaram essa base para territórios de psychedelic stoner metal e rock progressivo. Esta transformação tornou os Elder numa das bandas mais respeitadas e consistentes da atualidade, capazes de crescer musicalmente sem nunca perder a identidade que os tornou reconhecíveis.

E se havia alguma dúvida sobre a dimensão que os Elder tinham alcançado, bastava olhar para o recinto. Este foi, provavelmente, o momento em que o SonicBlast pareceu mais cheio em todo o terceiro dia, com uma verdadeira multidão concentrada diante do Main Stage 1. A banda respondeu à altura dessa responsabilidade, apresentando uma sonoridade construída através de riffs densos e repetitivos, longas estruturas instrumentais e passagens atmosféricas que iam crescendo progressivamente. Não era uma música feita para ser consumida rapidamente: era preciso deixar que os temas se desenvolvessem e nos envolvessem.

É precisamente aí que reside uma das maiores forças dos Elder. A banda consegue partir das fundações do stoner e do doom e expandi-las para territórios progressivos e psicadélicos, criando composições longas e complexas sem nunca transformar essa complexidade num exercício de exibicionismo. Em palco, essa evolução tornou-se particularmente evidente: as mudanças de dinâmica, os riffs que se prolongavam e as diferentes camadas instrumentais criavam uma sensação de uma viagem contínua. A execução era tecnicamente irrepreensível, mas nunca fria, existindo uma intensidade crescente à medida que cada tema avançava e se transformava.

Num festival onde o peso e o psicadelismo assumem tantas formas diferentes, os Elder mostraram uma das suas versões mais ambiciosas. O público permaneceu completamente entregue àquela experiência, enquanto a banda provava porque se tornou uma referência incontornável dentro do psychedelic stoner metal e do rock progressivo. Foi um concerto expansivo, hipnótico e profundamente imersivo, mas também um daqueles momentos em que a dimensão do recinto e a quantidade de pessoas presentes fizeram perceber que estávamos perante um dos grandes nomes desta edição. Os Elder não precisaram de esmagar o público com brutalidade: mas fizeram com que o público mergulhasse na música.

Elder, por @pmgama

HIGH ON FIRE – Main Stage 1

Se os Elder tinham acabado de proporcionar uma viagem expansiva e psicadélica, os High On Fire chegaram ao Main Stage 1 para nos lembrar que também é possível fazer uma viagem através da violência, do peso e da velocidade. Segundo headliner do dia e último grande nome do cartaz a subir ao palco principal nesta edição, o trio de Oakland, Califórnia, encontrou um recinto que, apesar da hora avançada, continuava completamente cheio. E não poderia haver melhor cenário para receber uma das bandas mais importantes do metal pesado contemporâneo. Liderados pelo incontornável Matt Pike, os High On Fire carregam uma identidade construída ao longo de décadas, cruzando sludge, stoner e doom numa mistura que não deixa espaço para indiferença.

Desde os primeiros riffs ficou imediatamente claro que não estávamos perante uma banda interessada em facilitar a vida a ninguém. O som dos High On Fire é físico: riffs massivos, ritmos galopantes, distorções pesadas e a voz áspera de Pike formam uma parede sonora que parece avançar sobre o público. Mas há muito mais do que brutalidade nesta fórmula. Existe groove, existe psicadelismo e existe uma construção quase hipnótica dos temas, que permite à banda alternar entre momentos de velocidade destrutiva e passagens mais arrastadas sem nunca perder a sensação de urgência. É precisamente essa capacidade de juntar diferentes linguagens do metal sem perder coerência que tornou os High On Fire tão importantes.

E ao vivo, o trio transforma essa identidade numa verdadeira máquina de guerra. Matt Pike continua a ser uma presença absolutamente magnética, mas a força dos High On Fire está também na forma como os três elementos funcionam em conjunto: não existem artifícios desnecessários, apenas guitarra, baixo, bateria, volume e uma execução de enorme precisão. O resultado é um concerto que se sente fisicamente, onde cada riff parece empurrar o público mais alguns centímetros para trás e cada mudança de ritmo provoca uma nova descarga de energia. Depois de três dias de festival, com pescoços já bastante castigados, ainda havia forças para continuar a fazer headbanging e os High On Fire trataram de garantir que ninguém sairía dali descansado.

Como último headliner do SonicBlast 2026, os High On Fire tinham uma responsabilidade enorme: fechar a sucessão dos maiores nomes que passaram pelo Main Stage 1 ao longo dos três dias. E fizeram-no com a autoridade de quem já construiu um lugar próprio na história do metal pesado. O recinto permaneceu cheio e completamente entregue nesta celebração de peso, velocidade e psicadelismo antes de a edição começar a caminhar para o fim. Matt Pike e companhia não precisaram de grandes discursos nem de artifícios para deixar a sua marca: bastaram os riffs. E, naquele momento, perante aquele público, os High On Fire tinham acabado de encerrar da melhor forma possível a sucessão de headliners do SonicBlast, mas a noite ainda estava longe de terminar.

High on Fire, por @pmgama
ADULT. – Main Stage 2

Depois da passagem avassaladora dos High On Fire, o SonicBlast voltou a surpreender com uma proposta que, à primeira vista, poderia parecer completamente deslocada daquele contexto: ADULT.. O duo de Detroit, formado em 1998 por Nicola Kuperus e Adam Lee Miller, trouxe ao Main Stage 2 uma abordagem onde a eletrónica e o punk se encontram com uma estética assumidamente experimental. A música dos americanos combina drum machines, sintetizadores analógicos, elementos electrónicos e punk, criando uma sonoridade muito própria. E se a aposta poderia parecer estranha no papel, bastaram alguns minutos para perceber que fazia todo o sentido. Para muitos, acabou por ser uma das boas surpresas do dia.

Os vocais femininos carregados de distorção e reverb, encaixavam sobre as batidas electrónicas e um baixo que reforçava ainda mais a componente física dos temas. O resultado estava muito longe de ser techno puro: havia uma dimensão pesada, agressiva e até desconfortável que tornava a música particularmente adequada ao ambiente do SonicBlast. Entre o digital, o punk e os sintetizadores analógicos, os ADULT. mostraram mais uma vez que o festival não tem medo de arriscar e que, por vezes, são precisamente as propostas mais inesperadas que acabam por conquistar o público.

EARLY MOODS – Main Stage 1

Os Early Moods chegaram ao Main Stage 1 já numa fase bastante avançada da noite, trazendo consigo uma sonoridade profundamente enraizada no doom e heavy metal. Vindos de Los Angeles, a banda presta homenagem a nomes como Candlemass, Pentagram, Trouble e, inevitavelmente, Black Sabbath, recuperando aquele peso clássico assente em riffs densos, atmosferas sombrias e uma forte ligação às raízes do género. Era uma escolha particularmente adequada para aquela hora, quando o recinto começava naturalmente a perder algum movimento depois de tantas horas de música.

A meio da atuação, a chuva decidiu juntar-se à festa e acabou por afastar alguma parte do público, mas nem isso conseguiu abalar a energia dos Early Moods ou dos mais resistentes, que permaneceram diante do palco a acompanhar a banda até ao fim. Entre chuva, riffs pesados e uma plateia que se recusava a desistir, o concerto acabou por ganhar uma atmosfera ainda mais especial. Afinal, depois de um dia inteiro de festival, aparentemente nem a meteorologia era suficiente para nos mandar embora.

UNGRAVEN – Stage 3

Depois de uma jornada que parecia não querer terminar, coube aos Ungraven a responsabilidade de encerrar o terceiro e último dia do festival no Stage 3. A banda levou consigo uma abordagem que parte do doom/sludge metal para territórios ainda mais lentos, densos e experimentais, aproximando-se progressivamente do drone. Uma escolha perfeitamente adequada para as últimas horas da noite: em vez de procurar uma explosão final de energia, os Ungraven apostaram no peso, na repetição e na criação de uma atmosfera quase hipnótica.

Foi uma forma particularmente coerente de fechar mais uma maratona do SonicBlast. Depois de um dia que atravessou psicadelismo, stoner, death metal, rock progressivo, punk e electrónica, terminar mergulhado numa sonoridade tão densa e arrastada funcionou quase como uma última viagem antes do silêncio. No Stage 3, quando o festival já se aproximava do seu fim, os Ungraven deixaram no ar aquela sensação pesada e contemplativa que só o seu som consegue proporcionar.

Público, por @pmgama

O terceiro e último dia voltou a mostrar porque é que o SonicBlast consegue manter o público agarrado ao recinto durante tantas horas. Entre a surpresa dos Summer of Hate, a viagem psicadélica dos Primitive Ring, a brutalidade dos Necrot, a experiência progressiva dos Elder e a descarga dos High On Fire, houve espaço para praticamente tudo. Até a chuva que apareceu durante a atuação dos Early Moods acabou por ser apenas mais um obstáculo ultrapassado por um público que, depois de três dias, continuava a encontrar forças para estar diante dos palcos. Foi um último dia intenso, diverso e recheado de momentos que ajudaram a fechar uma edição que dificilmente será esquecida.

E assim chegava ao fim o SonicBlast 2026. Três dias oficiais e um warm-up que já tinha servido de aviso, em que a Praia da Duna do Caldeirão se transformou num ponto de encontro para milhares de pessoas vindas de diferentes partes do mundo, unidas por uma paixão que vai muito além de géneros ou etiquetas. Foram dias de música, suor, sol, mar, headbanging, circle pits, descobertas, reencontros e, acima de tudo, memórias. Saímos cansados, com os ouvidos e os pescoços a pedir descanso, mas com aquela sensação difícil de explicar de quem acabou de viver algo verdadeiramente especial.

O SonicBlast 2026 termina aqui, mas a história continua: em 2027, o festival celebra o seu 15.º aniversário, de 12 a 14 de agosto. E depois de tudo o que vivemos este ano, só podemos dizer uma coisa: já estamos à espera. Até 2027, SonicBlast.

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