Como surgiu o projeto Chaosaddiction e o que inspirou a sua criação em 2019?
Chaosaddiction surgiu alguns anos depois de ter dito aos meus amigos e parceiros de banda nos Terror Empire que iria experimentar algo novo, fora da banda. Depois disso, ainda passaram uns bons anos. Mas eu adoro criar, adoro compor, e quis experimentar algo diferente. De tal forma, que comprei uma guitarra de 7 cordas para diferenciar o som. Tinha uma data de riffs pendentes, sem espaço em Terror, e comecei por aí. Programei a bateria para três demos e acabei por gravar dois singles em 2020, nos Golden Jack Studios. Ainda assim, o produtor João Dourado (ex-Terror Empire e um baterista incrível) fez questão de gravar a bateria. Não ia negar ter bateria orgânica no álbum. Depois, meteu-se a pandemia e tudo parou. Ainda assim, mesmo que não tivesse parado, acho que ninguém quis saber dos singles, na verdade. Foi um bom reality check. Isso acabou por congelar o projeto por mais um anos. Sinceramente, pensei que iria ser para sempre.
Qual foi a transição de projeto solo para banda completa no início de 2024 – que desafios e oportunidades apareceram?
A transição surgiu duma forma que não me lembro bem, mas foi algo tipo eu perguntar ao Gaspar (baterista) se curtia experimentar pegar no projeto comigo. Mas nunca chegámos realmente a pegar. Até que, um dia, perguntei-lhe em que bandas ele estava a tocar, e ao fim de as elencar (cerca de meia hora), disse “ah, e Chaosaddiction”. Mordi o isco que eu próprio lancei.
O desafio principal foi montar uma banda com malta porreira. Não basta tocarem bem; tens de ter o mínimo de química – e isto vai além do palco. O palco é o mínimo de tempo que passamos juntos. Tens os ensaios, as gravações… e, quando tudo corre bem, tens momentos fora-banda que queres passar com eles. É ótimo sinal. Tive sorte em encontrar o Gaspar (
@animal.gaspar.drums) , o Mota (
@pedromota66), o Magalhães (
@double_pm_trouble) e as pessoas deles.
Outro desafio terá sido compor em modo “sprint” para dar um concerto, pouco depois de nos termos formado banda (concerto de lançamento do álbum de Destroyers of All, que é muito bom e são, se calhar, a banda mais underrated em Portugal).
Bem, lembrei-me de outra… o maior desafio é que saibam que se escreve “Chaosaddiction” e não “Chaos Addiction”.
Em termos de oportunidades, cada pessoa é um mundo. Eu conheço a minha malta, e cada membro da banda conhece as suas maltas, passe a expressão. Então, acabas por buscar um pouco de atenção dos amigos de cada membro. Sem atenção, não há nada. É o chamado topo do funil.
Mas a maior oportunidade que quase parece batota é ter um baterista como o Gaspar. A química foi imediata e foi sempre a andar. Quando tocas com um baterista deste calibre, o mais difícil parece fácil.
O que representa o conceito de “Kintsugi” para vocês enquanto banda, e de que forma ele se traduz no som e nas emoções exploradas neste álbum?
“Kintsugi” é um conceito que surgiu quando via vídeos de auto-ajuda (super cringe, mas igualmente verdade). Uma jovem estava a falar de kintsugi, wabi sabi, shoganai… e kintsugi ficou. É a arte de reparar cerâmicas partidas com materiais nobres, que acabam por valorizar a peça, depois de arranjada. É uma metáfora para superação pessoal. Quebras, colas-te e voltas à vida – mais forte, em princípio.Todos temos as nossas cicatrizes, fazem parte do nosso percurso. Não é preciso esconder. Achei que era um conceito brutal para um álbum e nem quis ir ver se já havia álbuns com esse nome; não queria desistir dele. Spoiler: existem. Imensos. É lidar.
Esta abordagem conceptual reflete-se nas letras e na música: raiva, calma, aceitação, paz, ódio… ninguém é perfeito e nem todos os nossos momentos são bonitos. Sei lá; acho que já chegava um pouco de bandas com letras genéricas sobre quão viris ou macabros são. Sobrecompensação e falta de criatividade.
“Sinto Muito” é a única faixa em português no álbum? Foi uma decisão artística consciente ou surgiu de forma orgânica? Cantar na nossa língua mudou a forma como escreveram ou sentiram essa música?
Temos outras secções em português (como na “Yet I Live”). Foi improviso; saiu de forma natural. Eu costumo apontar ideias no telemóvel e, provavelmente, foi a letra que melhor coube naquela música – ou vice-versa; já não me lembro bem. Cantar em português é complicado, para não soar foleiro. O Ribas de Censurados, o Paulo de Fonte, o Goblin de 31 são as minhas referências. Eles conseguem dar um edge que torna a vocalização ainda mais poderosa que o inglês que ouvimos em imensas bandas. Nunca senti que fosse um risco; antes, um orgulho do caraças. Sempre quisemos experimentar coisas em Chaosaddiction e isto não foi excepção.
O que inspirou a criação do single “Sinto Muito” e por que foi escolhido como primeiro lançamento do álbum?
Liricamente, “Sinto Muito”, como todas as letras do álbum, tem que ver com relações falhadas. A escolha para single é porque é um pontapé na porta. Em português, numa vibe musical completamente diferente do expectável (é hardcore e não thrash)… não poderíamos ter escolhido melhor, se queremos mostrar uma faceta diferente, enquanto banda portuguesa. Não é sermos melhores ou piores que ninguém, apenas diferentes.
O videoclipe de “Sinto Muito”, dirigido por Joel Martins (@titanforged_prod), retrata o caos do moshpit – como foi trabalhar na criação visual do single e traduzir a energia do concerto para vídeo?
Pensámos de forma prática: sem grande tempo ou orçamento para um videoclip de estúdio, aproveitámos um concerto que sabíamos que estaria à pinha. Demos um concerto no Barracuda, e a única instrução era ter o máximo de planos fechados possível, algo sufocante. Como se estivesses no meio do pit. Acho que passa bem essa vibe! Trabalhar com o Joel (Titanforged) é do melhor. Ele e a Sara são pessoas super acessíveis, práticas e experientes nestas vidas. Recomendo vivamente.
A faixa “She’s a Drug” é uma colaboração com Miguel Inglês (@migingles). Como surgiu esta parceria e como foi trabalhar juntos nessa música?
O Miguel é vocalista de Equaleft, uma das bandas em que o Gaspar toca. Acabamos por dar muitos concertos juntos, e é sempre fixe trazer alguém para cantar connosco. Já o fizemos com o Marco Fresco, com o Gonçalo de DMS, com o Jay de Capela Mortuária, o João de Destroyers of All… é tão fixe. É para momentos assim que eu vivo, sinceramente. Convidar o Inglês para o álbum foi super natural e ainda bem. A voz dele cria uma camada diferente da minha, na música, e acho que acrescentou algo à música.
Houve alguma música em KINTSUGI que tenha sido particularmente difícil de escrever ou gravar, seja pela carga emocional ou pelo desafio técnico?
A “Goodbye” tem um refrão que foi um desafio, em termos vocais. Mas a Someone foi pior. Eu e uma guitarra. Sem metrónomo, sem bateria, sem baixo, sem guitarra de suporte… e a cantar limpo. Podia ter sido uma desgraça… mas acho que acaba por ser a música mais surpreendente do álbum.
Vocês mencionaram influências de bandas como Machine Head, Sepultura e Pantera. Como esses grooves dos anos 90 se misturaram com a identidade própria da banda?
Sinceramente, primeiro escrevemos as músicas e só depois pensámos como é que poderíamos explicar a alguém a que soávamos. Não decidimos “hei, vamos soar a XYZ”. Nós somos Chaosaddiction, temos a nossa identidade própria, mas é óbvio que alguém vai sempre acabar por soar a outra coisa qualquer, nem que seja nos detalhes. Quisemos soar a algo pesado e minimalista, é natural que fôssemos soar a uma das nossas influências, que incluem aqueles dois primeiros álbuns de Machine Head. De qualquer forma, adoramos a vibe do início dos anos 90, tão mais orgânica que a mistela ultraprocessada que nos aparece no Spotify hoje em dia…
Notámos que já foram divulgadas algumas datas – 4 de julho, 18 de julho, 19 de setembro e 24 de outubro – mas ainda não foram revelados os nomes dos eventos. Podemos esperar que estas datas façam parte de uma tour de KINTSUGI?
Nós não temos necessariamenteuma tour – quase ninguém tem, em Portugal.. -; vamos dando concertos por aí. Felizmente, temos tocado bastante e vamos continuar a fazê-lo. Só nos imagino a tocar ao vivo, sempre. Vamos revelando os nomes à medida que os eventos forem sendo revelados. Até lá, colocamos “TBA” para adensar o mistério
No final, Rui deixa ainda uma nota aos leitores da Cultura em Peso:
“Obrigado à Cultura em Peso! Apanhem o nosso álbum a 28 de março nas plataformas de streaming e comprem-nos a rodela (e vejam as nossas datas) em www.chaosaddiction.com. Into chaos!”
Uma coisa sabemos com certeza: o próximo concerto será no Riverstone, dia 21 de março. A Cultura em Peso vai estar lá – e vocês? Estão prontos para sentir muito… ou não vão sentir nada?
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