– Muito obrigado pelo tempo cedido para a equipe da Cultura em Peso. Você pode nos contar como se deu o início do seu projeto TERRA?

Resp: eu que agradeço o espaço. O Terra é um projeto que eu concebi como uma plataforma para minhas composições. O conceito é uma “banda” que me permite materializar a minha identidade musical, sem necessariamente um estilo de música ou nicho específico, apenas agrupando de forma coesa (e com bom gosto) elementos de diferentes fontes (Heavy Metal, Rock n Roll, Bluegrass, Música Caipira, Sertanejo, Samba, Flamenco, etc). Essas músicas trazem mensagens e pensamentos meus, advindos de experiências, gostos e reflexões, e estes elementos musicais de diferentes estilos servem para ambientar e imergir o interlocutor na experiência que eu quero compartilhar. Então é um processo extramemente pessoal, e eu amplifico isso ainda mais ao contextualizar o Terra através de outras paixões minhas, como fotografia (a arte do disco é toda feita de fotografias minhas), viagens, física e engenharia, etc.

– Gostaria de saber como vocês se definem. Eu particularmente achei o trabalho de vocês voltado para o Power Metal com elementos étnicos. Você concorda comigo?

Resp: é uma leitura possível, sim. Não acho que seja Power Metal, por que muitos dos elementos de Power Metal não estão lá, como muitos pedais duplos, músicas rápidas, vocais agudos e temática mitológica. Angra é uma das minhas maiores influências, mas não a única, assim como o Metal não é meu único universo. Muitas das músicas, se não todas, começaram no violão, viola caipira ou piano. Só no processo de pré produção que a “banda” é adicionada para dar profundidade e dinamismo às músicas. Então acho que o elemento Heavy Metal está tão presente quanto o elemento American Bluegrass, Música caipira, ou outros elementos étnicos.

– “Hypercube” é o seu primeiro lançamento. Como se deu o processo de registro deste material?

Resp: Eu compus quase todo o material no tempo em que eu morei nos Estados Unidos, entre 2016 e 2017. A pré produção fiz no meu Home studio, durante quase um ano ali entre metade 2018 e 2019, e aí eu estava pronto pra entrar em estudio para a gravação. Quando eu já estava fechado pra entrar no Fusão, com o Thiago Bianchi como produtor, a pandemia bateu e atrasou um pouco. Mas gerenciamos e conseguimos gravar tudo. Eu gravei todos os instrumentos e vozes, exceto a bateria, que foi gravada pelo enorme Alex Christopher, encima dos arranjos que eu tinha programado. Algumas coisas eu gravei no home estudio mesmo (percussões, corais, piano, arranjos). Daí foi pra Mix e Master de volta no Fusão e saiu o resultado que saiu.

– Gostamos muito da qualidade sonora alcançada por você. Suponho que o trabalho em estúdio tenha sido muito tranquilo. O que você pode nos falar sobre esta etapa, até chegarmos no lançamento propriamente dito?

Resp: fiquei muito feliz com a qualidade do som que conseguimos. Acho que foi o resultado de muita conversa entre eu e o Thiago, e da capacidade dele de entender e reproduzir o que eu estava buscando. Eu tinha muito claro o tipo de som que eu queria para a bateria, para as guitarras e para a sonoridade das músicas em geral, mas o Thiago Bianchi que trouxe a experiência e conhecimento dele pra tirar isso do mundo das ideias e trazer pro real. A gente usou muitas referências de sonoridades, tipo o Garage Inc. e o And Justice for All do Metallica, Temple of Shadows do Angra, Nickelback, Almir Sater, etc.

– Lucas, eu adorei as linhas mais progressivas compostas por você. Como funciona o seu processo de composição, neste sentido?

Resp: de uma certa forma, eu tenho um processo com etapas bem definidas. Começa em duas rotas paralelas. Em uma, eu fico tocando guitarra, violão classico, viola caipira, bandolim, piano, etc., e toda ideia de riff, tema, intervalo que eu acho interessante eu gravo e guardo num “banco de ideias”. Na outra rota, eu desenvolvo a ideia do conceito de uma musica, ou mesmo de um album, e estabeleço qual a mensagem que eu quero passar, qual a ambientação que essa mensagem precisa ter, qual a dinâmica que a música tem que ter pra se adequar a essa mensagem. Com isso, eu desenvolvo as harmonias e ritmos (mais “levadas/grooves” do que ritmos) e busco no “banco de ideias”, os riffs e temas que combinam com essa mensagem. O ponto é que a mensagem seja passada não apenas na letra (em inglês, português, espanhol, etc) mas também, e principalmente, pela música como um todo.

– A arte da capa é bem diferente, fugindo do padrão que estamos acostumados. Qual a mensagem que você quis transmitir com ela?

Resp: essa capa é uma arte encima de uma foto que eu tirei com meu celular. Aquilo é uma chapa de madeira que eu usei um projeto na faculdade de engenharia pra testar uma fresa CNC (programada por computador), e nela a gente usinou um Hipercubo (Cubo 4-d). Na foto, a chapa de madeira ficou parecendo um livro com o Hipercubo na capa. A idéia do Hypercube é que as músicas se apresentassem como capítulos de um diário de viagens. Por isso que quem tem o disco físico pode ver no encarte que cada página é a letra da música escrita a mão como em um diário de viagem junto com uma foto de alguma viagem que fiz pelo mundo que, de uma forma ou de outra, me inspirou a ambientar a mensagem a ser passada naquela música. Hypercube é uma metáfora ao mundo das ideias (cubos de 4 dimensões só existem na nossa imaginação) e o disco é o diário de uma jornada de auto-conhecimento, de auto-transformação e de compreensão de que o mundo real nunca será tão perfeito como o mundo das ideias.

– Imagino que você já deva estar trabalhando em novas músicas. Poderia nos adiantar como elas estão soando?

Resp: Sempre estou trabalhando em novas músicas. Mas já tenho material para um outro disco (que está pronto desde antes do Hypercube, na verdade) e o conceito para um próximo disco. Acho que esse último sai antes. Algumas músicas já tem um esqueleto bem interessante. Elas estão dentro da proposta do Terra que descrevi antes. Talvez nesse eu explore elementos novos que não tiveram tanto espaço no Hypercube, tipo Funk carioca, Chorinho, Fado português, Thrash Metal, além de, talvez uma abordagem diferente para minha voz e para a sonoridade das guitarras. Mas no geral, será uma continuidade do Hypercube, por que como disse, ele foi uma expressão profundamente pessoal da minha identidade, e por mais que eu já tenha mudado bastante desde que fiz o primeiro disco, ainda sou a mesma pessoa.

– Você já está pronto para excursionar por outras regiões do país? Falo isso, pois depois de escutar o seu material, fiquei curioso para vê-lo ao vivo.

Resp: eu tenho muita vontade de sair em tour com esse material, e ofertas já foram feitas para shows muito legais, mas ainda não estavamos prontos, como banda mesmo, para tal. Mas com certeza, em se seguindo em frente, quero muito ter a chance de tocar músicas como Let it burn, Shivers & Snow, Sound of Rain e Montaria pro maior número de pessoas. Vejamos.

– Como você analisa o mercado fonográfico atualmente? Você acredita que o nicho que você faz parte, permite espaço para novos nomes promissores, como é o caso aqui?

Resp: com certeza não existe mais o mesmo espaço que existia antes para tantos artistas muito grandes nesse meio do Rock como já houve. É um cenário que preciso aprender a navegar para levar o Terra para mais pessoas. Mas é inegável que existem muito mais caminhos de levar sua música para o mundo do que há 15 anos atrás. Talvez tantos meios, que tudo meio que se diluiu e onde antes existiam poucas bandas com um público enorme, hoje existe muitas bandas com públicos menores. Por outro lado, automação, social media e IA permitem a bandas menores proporcionarem uma experiência que bandas grandes do passado jamais sonharam em ter. O que nunca mudou é que além de se ter talento musical e um bom material pra apresentar pro publico, o artista de sucesso tem que ser homens/mulheres de negócios, no controle das ações e da direção que sua criação toma. Esse é o Gap que eu preciso desenvolver agora para o Terra, talvez antes mesmo do próximo disco.

– Mais uma vez obrigado pelo tempo cedido ao site Cultura em Peso. Agora o espaço é seu para as considerações finais

Resp: Eu que agradeço o espaço. O Hypercube foi uma experiência artística além das minhas maiores espectativas, tendo tido uma recepção muito mais intensa e positiva do que jamais imaginei. Isso me motiva a continuar, ao mesmo tempo que me “obriga” a ser bastante cuidadoso com o que vem por aí. Enquanto isso, mais material sobre o Hypercube continuará saindo nas redes sociais (já tem o Documentário “Making of Album Hypercube” no canal do youtube @terramusictrip). Farei algumas lives no IG e YT para aprofundar mais nos elementos do Hypercube nos próximos meses. Existem planos para um EP também. E finalmente, o disco está a venda nas redes do Terra (@terramusictrip no Instagram), e vocês podem experimentar o conceito completo do Hypercube com o “diário da jornada” e com as fotografias e todos os elementos que lá estão. É algo que faço com muito amor, e espero que possam se divertir tanto quanto eu ao escutar as músicas.

 

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