Depois de uma sexta-feira chuvosa, o sábado amanheceu firme em Dona Emma (SC). O frio marcou presença, mas não foi suficiente para afastar o público do Bob Rock Festival, que aconteceu mais uma vez na lendária casa do Bob. Algumas pessoas chegaram cedo para acampar, outras vieram só para curtir a noite, e todas foram recebidas com simpatia e atenção pelo Bob e sua equipe. O bar e a cozinha estavam afiados, com chope gelado, gostoso e barato, combinação perfeita para uma noite de música pesada e acolhimento genuíno.
A estrutura do festival, montada no quintal da casa do Bob, cria uma atmosfera única: simples, eficiente e cheia de personalidade. Ali, bandas e público se encontram de perto, sem barreiras ou distâncias. Foi minha primeira vez no festival, e, desde a chegada até o último acorde, senti que estava em um espaço feito por quem ama e vive a música de forma verdadeira.
A primeira banda a subir ao palco foi a Demophobia, de Santo André (SP), pontualmente às 20h30. A entrega foi absurda: o vocalista desceu do palco em todas as músicas, cantando no meio da galera e interagindo o tempo todo. Com letras inspiradas na vivência periférica e na luta dos trabalhadores, a banda defende a arte como ferramenta de combate, algo que transparece não só nas letras, mas também na postura de palco e na intensidade com que se apresentam. O repertório contou com “O Chamado”, “Nunca Se Renda”, “Sem Tempo” e faixas do álbum Perversidade e Violência. A sonoridade uniu hardcore, metal punk e crítica social, com som limpo e potente. Uma abertura forte e consciente, que já deu o tom da noite.
Setlist: Info, Hackearam, Novo Pacto, O Chamado, Bastilha, Perversidade, Nunca Se Renda, Sem Tempo, Paralelo, Refuse/Resist, Ficção.

Em seguida veio a Ereboros, fazendo sua estreia em Dona Emma com uma performance afiada e energética. Desde o primeiro riff, chamaram o público para bater cabeça, e não teve como resistir. Tocaram com execução precisa e anunciaram nova faixa do próximo trabalho em andamento. O vocalista elogiou a cena de Santa Catarina, valorizando o público e o esforço coletivo que mantém o underground vivo, e pediu uma salva de palmas para o Bob, reconhecendo sua importância na construção desse espaço. A banda teve uma entrega técnica e sonora, som bem definido, presença de palco firme e uma apresentação que marcou a noite com personalidade e peso.

A terceira banda da noite foi a Dark Tower, do Rio de Janeiro, que trouxe um clima mais sombrio ao festival. Com raízes no black/death metal, o grupo mergulha em temas como o caos, a ascensão, a influência do fanatismo religioso e a jornada de um indivíduo em busca de redenção, compondo um cenário sonoro denso e atmosférico. Tocaram faixas com riffs cortantes, vocais intensos e ambientação carregada. A banda manteve uma presença de palco segura, reforçando seu lugar de destaque na cena extrema nacional.

Na sequência, quem assumiu o palco foi a Vulture, veterana do death metal nacional, com mais de duas décadas de estrada. A banda veio de Itapetininga (SP) e entregou um show técnico, pesado e consistente. A Vulture mostrou por que permanece relevante: riffs rápidos, bateria precisa, baixo marcante e vocais furiosos dominaram a apresentação. A banda transmitia experiência e foco total na música, mantendo a intensidade da noite em alta.

Fechando o festival, subiu ao palco a Agony Voices, de Blumenau (SC), com uma performance carregada de emoção. Apesar de já ser tarde e com o público presente reduzido, a banda entregou um show profundo, melódico e intenso. Com raízes no doom/death metal, a Agony Voices investe em atmosferas densas e letras introspectivas, e isso ficou evidente em cada acorde. O vocalista teve destaque absoluto com uma performance visceral, equilibrando técnica e expressão com domínio impressionante. A banda encerrou a noite de forma impactante, deixando uma marca forte e com o clima mais introspectivo.
Setlist: Intro, World of Devastation, Nocturnal Minds, Just Lies, We Don’t Know What We Have Become, A New Beginning, Desire for Pain, Mankind’s Glory, Cover (Shout – Tears for Fears), Past from Future, I Can’t Find Myself.

O Bob Rock Festival mostrou mais uma vez por que é um espaço tão especial: bandas de peso, público receptivo, estrutura acolhedora e um ambiente onde tudo gira em torno da música feita com verdade. Foi um festival onde cada banda trouxe sua identidade, e todas contribuíram para uma noite memorável. Frio por fora, mas com calor humano e musical de sobra. (Lu Bruske)
“Obrigada ao Bob, pela organização e pela garra de fazer tudo acontecer!
Às bandas, que tornaram a noite pesada e inesquecível!
E ao público, que mantém o underground vivo!” (Heidi Luiza)


