
A banda ucraniana Stoned Jesus sempre foi sinônimo de expansão sonora. Com o lançamento de Songs to Sun em setembro de 2025, eles mergulham de cabeça no futuro, iniciando uma trilogia planejada que marca uma fase audaciosa do grupo liderado por Igor Sydorenko.
Embora o disco tenha chegado às plataformas, os shows de outubro no Brasil (leia mais aqui) terão uma atmosfera especial, celebrando os 15 anos da banda: o Stoned Jesus fará a última série de apresentações com o set list antigo, reservando a turnê de Songs to Sun apenas para 2026. Isso posiciona o álbum como um vislumbre radical do que o público verá em breve, enquanto os palcos brasileiros celebram a nostalgia da era clássica.
Songs to Sun é a parte mais pesada e agressiva dessa nova trilogia. A banda não apenas resgata o groove hipnótico de seus trabalhos anteriores, como também introduz blast beats e vocais mais agressivos em faixas como “Low”, mostrando que o Stoned Jesus não tem medo de extrapolar seus limites. Com apenas seis faixas longas, o álbum se posiciona mais como uma experiência profunda do que como uma coleção de singles, carregando liricamente o peso da instabilidade e da crise pessoal em meio à inegável necessidade de inovar.
O álbum se desdobra em seis faixas que operam como movimentos de uma sinfonia pesada e altamente progressiva.
O despertar começa com “New Dawn“, uma faixa de quase nove minutos que funciona como um épico de abertura. Ela é o primeiro sinal da mudança da banda para uma linha mais bem trabalhada na bateria, com compassos mais quebrados e bem elaborados que dão o tom totalmente progressivo. O instrumental mantém o peso característico do Stoned Jesus, mas as linhas de baixo estão incríveis, acompanhando a bateria e consolidando o tom progressivo. A letra (“Ten hours to drive… Cutting the night like a knife”) sugere uma longa jornada de descoberta e avaliação.
“Shadowland” traz uma outra mistura instrumental. Os riffs continuam pesados e característicos do stoner, mas algumas viradas mais progressivas e, principalmente, a linha de baixo, trazem uma mistura do new metal/hardcore moderno, com um leve traço de psicodelia que sugere um sentimento de uma perda de controle. O conceito de “terra das sombras” reflete liricamente alguém que está confuso e perdido, tentando se reencontrar.

Então, chega “Lost in the Rain“, a surpresa do álbum: uma balada linda, perfeita e inesperada. Aqui, teclados e as notas da guitarra dão o tom David Gilmour/Pink Floyd, o solo final, em especial, lembra o timbre da Strato de Gilmour e é maravilhoso, acompanhado pelo vocal grave, afinado e perfeito de Sydorenko. O arrepio é inevitável quando o instrumental toma conta 100%. Os olhos, embrutecidos pelo death e thrash metal, amolecem, e ao ouvir uma melodia tão cativante e peculiar, pois mescla leveza e doçura com riffs pesados e sombrios, suam levemente. A letra traz um sentimento de impotência e frustração que, no entanto, carrega a semente da esperança por uma superação: “We’ll learn to forget / To forgive“.
É curioso notar que, ao pegar a letra, a história da banda e fazer uma interpretação, é complexo tentar definir de fato o que se quer transmitir; afinal, eles sabem do sentimento e significado, então definir e limitar é difícil. O que se escreve aqui são apenas suposições, o que torna a música (e a arte em geral) fantástica: a possibilidade de que você (leitor/ouvinte) tenha uma interpretação completamente diferente, que também faça total sentido.
Em um piscar de olhos, a faixa “Low” chega para fazer o ouvinte esquecer o sentimentalismo e voltar à realidade. Firme, enérgica, com uma pegada mais “bruta” e intensa, temos blast beats e gutural, quase que uma pegada black metal! É uma demonstração furiosa de como pode ser raivoso e deprimente fracassar na tentativa de agradar a todos (como demonstra a letra) e o quanto a instabilidade nos afeta.
“See You on the Road” apresenta, talvez,uma mudança de estilo mas ainda é 100% Stoned Jesus: a pegada stoner é mantida, mas com um andar de bateria inspirador. A faixa se conecta tematicamente com a primeira, como se a jornada continuasse, mas agora o trio estivesse se libertando de um fardo pesado. A pegada no baixo, que lembra muito new metal, dá o peso e o sentimento que a música pede.
Por fim, a última faixa, “Quicksand“, começa com um instrumental interessantíssimo. Até a entonação da voz traz o tom: desabafo, esgotamento, cansaço da situação, e o clamor por mudança, culminando na decisão de fazê-lo. A letra final é o desabafo completo: “I’m tired of being the coward, ignoring all the facts“. É um encerramento marcante e exaustivo, que amarra o álbum em um clímax de peso e complexidade.
Songs to Sun é um marco. Stoned Jesus usa a instabilidade lírica e a crise pessoal como motor, para talvez, a mais ousada e criativa fase da carreira. A excelência da produção, a execução técnica impecável e a coragem de fundir blast beats com os refrãos mais “grudentos”, fazem deste álbum uma obra completa e um candidato fortíssimo a álbum do ano.
Stoned Jesus:
Igor Sydorenko: Vocal,guitarra, baixo e teclados.
Andrew Rodin: Baixo e vocal de apoio.
Yurii Ciel: bateria e vocal de apoio.
Tracklist:
1. New Dawn
2. Shadowland
3. Lost in the Rain
4. Low
5. See You on the Road
6. Quicksand
Nota: 10.



