Tomar, mais concretamente Paço da Comenda, inundou-se, mais uma vez, de fãs de música pesada no fim de semana de 21 e 22 de Junho para celebrar dois dias inteiramente dedicados à música progressiva, moderna, djent, metalcore e todas as subvariantes que daí derivam. Foram dois longos dias de calor, em que todos os astros se alinharam para tornar todas estas horas marcantes na mente dos presentes!

Não dá para começar esta reportagem de outra forma, se não a parabenizar todos os envolvidos na organização do evento. Começando pela construção de um cartaz variado, com nomes nacionais e internacionais, mas também pela variedade de géneros dentro do mundo do progressivo, do moderno e metalcore, e indo até às excelentes condições do recinto – palco, som, luz, área de refeição, campismo (…). Tudo fez parecer que este festival já tem profissionalismo que vem de décadas de experiência. Mas, na verdade, é apenas a quinta edição e já está num nível tão elevado.
Começando pelo primeiro dia do evento, às 11h – hora que o campismo abria – já se viam muitas almas a chegar ao campismo para montar a tenda que os iria acompanhar ao longo de dois dias inesquecíveis. Logo ali, um ambiente familiar se fez sentir que se prolongou até à noite de domingo.
O primeiro dia contava com atuações de 7 bandas que arrancavam às 16h: Crimson Bridge, Yokovich, Equaleft, Killus, The Cost, Oceans Ate Alaska e IHSHAN.
CRIMSON BRIDGE
Ficou ao cargo dos nacionais Crimson Bridge abrir o festival na tarde quente do dia 21 de Junho, mas esta tarefa revelou-se fácil para estes senhores de Almada. Com o seu Melodic Death Metal construído com influências que advêm da maior diversidade de géneros e localidades como o metal moderno, heavy metal e thrash, demonstraram que não existem barreiras para a sua criatividade e energia. Numa performance curta e com as suas músicas vibrantes, apresentaram uma atuação cheia de pujança, provando que não haveria melhor banda para abrir o festival.

A dinâmica vocal deste grupo é, sem dúvida, um dos seus pontos fortes, com vozes berradas, gritadas, rosnadas e limpas protagonizadas não só por Renato Guerreiro (vocalista), como também por Bernardo Rebelo (baterista e back vocals). Mas algo que rapidamente capta a atenção do ouvinte, é a capacidade que o grupo tem de inspirar e impulsionar com a sua inovação e confiança em experimentar coisas novas, algo que é visível em cada um dos temas que foram apresentados.
Diria que estes quatro senhores foram capazes de construir e desenvolver uma abordagem moderna a conceitos que já se consideram estabelecidos. Desta forma, e juntando isto à sua mega atitude em palco, uma vez que deixaram o corpo e a alma neste concerto, o futuro avizinha-se promissor para Crimson Bridge.

YOKOVICH
A segunda banda a pisar o palco do Comendatio Music Fest foram os YOKOVICH, e acho que falo por todos quando digo que foi nestes minutos que se presenciou a primeira grande surpresa do festival.

O grupo lisboeta de Metal/Alternativo e Industrial formado em 2021 combina elementos de heavy industrial com paisagens sonoras cheias de melodia e de visão artística, bem como as diversas influências do guitarrista Miguel e ainda a criatividade e a amplitude de execução do baixista Bruno. Os vocais de Jonas fazem toda a diferença com recurso à sua distorção viciante, mas também a sua entrega notável em palco reforça uma atuação que já tinha tudo para ser marcante.
Riffs à Rammstein, vibe de Deftones em alguns dos temas, mas tudo com a originalidade de YOKOVICH. Um Industrial cheio de riffs pesadões pelo meio que tornam impossível não abanar a cabeça, e o público delirou com esta atuação. A sua imagem também contribui para a captação da atenção, com recurso, por exemplo, a uma máscara preta que cobre todo o rosto do baixista.
Se o seu álbum de estreia “UBIQUITOUS” já se apresentava como uma verdadeira e empolgante masterpiece do metal alternativo/industrial, que incorpora diversas influências de vários géneros, este destaque só foi comprovado com esta atuação energética no Comendatio. Um grupo português absolutamente promissor que, para fãs de progressivo e industrial, é obrigatório conhecer!

Setlist: 1- Pure Illusion; 2- Dead Wall; 3- Burn; 4- Uncontrollable; 5- Volcanic.
EQUALEFT
Os Equaleft já dispensam de qualquer apresentação no mundo do metal português. São um dos nomes mais fortes do groove metal nacional e, em relação a isso, não há espaço para discussão. Nesta atuação no Comendatio, fizeram aquilo que já seria de esperar: ARRASARAM.

Com temas cheio de riffs devastadores, melodias intrincadas e vozes poderosas, foram causadores do primeiro de muitos circle pits do dia. Circle pits estes que estiveram presentes durante toda a atuação.
Mais do que fortes instrumentalmente e na sua composição, este grupo destaca-se por abordar temas por todos nós compreendidos, como a complexidade das emoções, a necessidade de viver no presente e a luta contra as forças sociais. E também por isto, têm uma rede de fãs tão grande e solidificada tal como foi comprovado nesta atuação.

Muita brutalidade, muita qualidade técnica, muita agressividade, muito headbanging, muitos punhos no ar, muita interação entre banda e público, muito carisma e as variações entre passagens pesadonas e partes mais rápidas não davam qualquer hipótese para se estar parado. Este grupo dá aos fãs tudo aquilo que eles podem querer.
Já perto do fim do concerto, Inglês (vocalista) faz questão de se unificar ainda mais com o público, descendo do palco e participando no circle pit mais potente do concerto.

“Muitas vezes lutamos anos para lançar algo e vos mostrar a nossa música. Mas quando conseguimos, é muito gratificante e esta tarde está a ser isso mesmo, gratificante. Obrigada!” foram algumas das palavras ditas por Inglês que merecem ser aqui mencionadas, pois nem sempre temos percepção da dificuldade e luta diária que estes músicos têm para fazer o que fazem. E estes senhores, já andam na estrada há mais de 20 anos, algo que num país como Portugal, é de enorme valor. E são grupos como estes que mantêm a chama do metal viva!
E para terminar uma atuação potentíssima, cheia de atitude que desgastou completamente o físico do público, nada como uns húngaros para repor os níveis de energia. E assim, a banda decidiu despedir-se desta atuação memorável distribuindo húngaros pelo público (sim, a bolacha), tornando este encerramento de concerto num momento engraçado.

Setlist: 1- Overcoming; 2- Silent; 3- Wavering; 4-New False Horizons; 5- Fragments; 6- Endure; 7- Invigorate; 8- And It Will Thrive; 9- Heartless Machine; 10- We Defy.
KILLUS
E chegou a hora do primeiro nome internacional do dia pisar o palco do Comendatio Music Fest. Killus, vindos de terras de Nuestros Hermanos, foram protagonistas de um dos pontos mais altos do primeiro dia do festival.

Este grupo de metal industrial rapidamente captou a atenção dos festivaleiros devido à sua imagem marcante, até chocante, mas sem dúvida, fantástica. Com rostos pintados de branco, sombras pretas, cristas e vestimentas negras quase teatrais, estes senhores sabem como chocar o público, sendo isto um ponto muito forte. Para além da imagem, a própria interação quase teatralmente sombria reforçava ainda mais a negritude visual da banda.

A encenação da banda e a sua atitude em palco são os seus pontos fortes, dotados de um som potente e uma imagem impressionante. Juntamos Rammstein, Nine Inch Nails, Marylin Manson, Mushromhead, Disturbed e mais uns ingredientes especiais, e o resultado está aqui visível: Killus! Estivemos perante um metal industrial com ranhura metálica, rock de choque influenciado por bandas lendárias de rock industrial e pelo dark mainstream. Tudo isso mesclado com elementos do mais moderno e contemporâneos do metal eletrônico. Por fim, os seus refrões catchy faziam com que um coro do público se ouvisse durante praticamente todos os temas.

Este quarteto foi absolutamente explosivo nesta atuação e foi capaz de fazer refletir a sua brutal atitude ao longo de todo o concerto. Sempre muito agitados, cheios de energia e potência em palco e isso passa para o público. Notava-se que queriam estar ali e que queriam dar o seu melhor e sem duvida que esses desejos foram até ultrapassados.

E qual a melhor forma de terminar a sua vibrante e forte atuação? Com o seu conhecido cover dos ABBA “Gimme! Gimme! Gimme!“. E se o público já estava louco, então aqui é que se atingiu o pico da loucura. Não haveria melhor forma de terminar esta atuação marcante.

THE COST
O concerto que se seguiu era, provavelmente, uma das mais ansiadas desta edição do Comendatio Music Fest. De entre os vários motivos para tal, destaco dois: esta seria a estreia mundial da banda ao vivo, e estamos a falar de uma super banda com o baterista que é, nada mais nada menos, que EL ESTEPARIO SIBERIANO, o baterista mais influente online com mais de 10 milhões de seguidores nas suas redes sociais.
Para quem ainda não conhecia este projeto, após esta atuação certamente nunca mais o esquecerão. Foi criado em Espanha, em 2023, pelo maníaco absoluto da bateria EL ESTEPARIO SIBERIANO, juntamente com os colegas Peter Connolly e Chris Attwell. Reunindo estes 3 senhores, estamos perante diferentes origens musicais e três culturas. O culminar das três prometeu e entregou um dos maiores sons da música da atualidade.

Estamos a falar de um trio fortíssimo tecnicamente, com temas que se destacam pelos riffs pesados, outros que se destacam pelas melodias de guitarra de fundo viciante, e sempre com vocais roucos e rasgados penetrantes. Algo que se destacou nesta atuação foi também a qualidade da composição e interpretação do baixo que dava uma excelente consistência e melodia às músicas, marcando pela diferença.
Durante este concerto, houve muita interação entre o vocalista e o público, sendo a mais marcante o momento de transmissão de uma mensagem que, infelizmente, é cada vez mais atual : “Fuck the war“. E foi assim introduzido um dos temas mais conhecidos e pesados emocionalmente de The Cost – “Her Eyes“. “Vocês não vão vê-lo, mas vão ouvi-lo“, referiu o vocalista da banda, falando do enorme e lendário Serj Tankian, que colaborou na construção e interpretação desta música dando ainda mais emoção à mesma, sabendo nós da sua origem e ligação com este tema que é a guerra…

Ficou assim marcado um momento de alguma tensão e consciencialização que nos permitiu refletir no quão sortudos somos por estar ali, naquele momento, enquanto no nosso planeta tanta tragédia está a acontecer.
A escolha para o último tema foi o primeiro single de avanço que rapidamente conquistou uma enorme rede de fãs – “Not for Me“. Um tema vidrante, construído quase genialmente em termos instrumentais e líricos, e tão bem interpretado por este trio. Qual a melhor forma de encerrar o primeiro concerto de sempre de The Cost? Com o seu primeiro tema!
O que resta dizer desta atuação que conquistou todas as almas presentes, é que certamente ninguém irá esquece-la. The Cost irão sempre lembrar-se daquele final de tarde em Paço da Comenda, Portugal, como sendo a sua primeira atuação ao vivo de sempre. E o público irá sempre lembrar-se do quão privilegiado foi por ter assistido e participado na primeira de muitas atuações ao vivo desta super banda.
Setlist: 1- Into the Drone; 2- Counting Every Dime 3- Her Eyes; 4- One of a Kind; 5- Ginger; 6- Floods; 7- Bricklayer; 8- Not For Me.
OCEANS ATE ALASKA
Se houve banda que transmitiu intensamente humildade e felicidade em palco neste primeiro dia, foram os Oceans Ate Alaska. Digo isto pois a ligação de amizade e proximidade entre os membros da banda em palco era quase palpável, os momentos de comédia entre os elementos e público eram frequentes, e a alegria da banda por ali estar era claramente perceptível. Tudo isto, ajudou a criar um ambiente quase familiar entre todos.

O grupo de Metalcore Progressivo/ Post Hardcore de Birmingham, Inglaterra, trouxe na bagagem três álbuns de estúdio: Lost Isles (2015), Hikari (2017) e Disparity (2022) e uns quantos singles e EP’s que marcaram os seus 15 anos de carreira.
Nesta estrondosa atuação no palco do Comendatio, fizeram uma escolha criteriosa que viajou ao longo dos seus 15 anos enquanto banda, focando-se mais em Disparity, o último e talvez mais forte álbum dos britanicos.

Neste concerto, mostraram o seu ADN e ainda navegaram por um terreno inteiramente novo para o grupo com os temas mais recentes de Disparity. O trabalho instrumental animado e hiper técnico permaneceu intacto durante a atuação e é isto o que distingue tanto este grupo de Metalcore dos restantes: é muito progressista, e com muitos detalhes técnicos que por vezes até podem ser difíceis de captar pelo ouvinte.
Oceans Ate Alaska apresentaram uma qualidade técnica robusta, melódica e matemática que é visível em álbum, mas reforçada ao vivo. Os samples são cruciais para a criação do ambiente desejado: através a escolha e definição magistral dos mesmos, estamos perante um ambiente de muita brutalidade e ampliação da palette sonora. Sem dúvida, que acrescentam muito aos seus temas.
O que é facto, é que existe muita coisa a acontecer ao mesmo tempo nas suas músicas e isto pode ser difícil de transmitir ao vivo. Mas não foi o caso para estes senhores que faziam tudo com uma perna às costas. Uma verdadeira demonstração de que, por mais complexa que seja a obra, apresenta-la ao vivo com todos os seus detalhes, é possível!

O público estava desejoso por esta atuação. Isto foi visível ao longo do dia pois eram incontáveis as t-shirts da banda que existiam no recinto, mas foi comprovado durante e após a atuação. Já estávamos perto do final do primeiro dia, e ainda existia tanta energia por parte do público, energia essa que foi puxada, sem dúvida, pelos OAA.
IHSAHN
Eram 23h quando o lendário IHSAHN sobe ao palco com os seus companheiros. Foi aqui que o recinto encheu completamente, tal como seria de esperar, para assistir a esta majestosa atuação dos nórdicos.

IHSAHN, líder dos lendários noruegueses Emperor, apresentou no palco do Comendatio o seu projeto a solo marcando para sempre a história do festival, como sendo um dos pontos mais altos do mesmo.
Este senhor abraça sons e influências que vão muito para além do mundo do black metal, e os seus temas desafiam todas e quaisquer regras estilísticas, standards musicais, procedimentos e padrões, abraçando sempre novos horizontes mas sempre mantendo as suas raízes. Aquilo que este senhor faz não é puramente black metal (especialmente obras mais recentes) mas também não é realmente progressivo. Ele agarra elementos de ambos os mundos, juntando ainda uma robusta orquestra, e mistura de forma brilhante elementos de diferentes gêneros de uma maneira que poucos têm capacidade de fazer.

Nesta atuação no Comendatio, fez uma escolha quase genial para o alinhamento musical, cobrindo várias das suas obras, dando mais ênfase ao mais recente álbum “IHSAHN“, mas cobrindo trabalhos marcantes como “Arktis” e “Ámr“. Grandes clássicos como “Lend me The Eyes of Millennia”, “Stridig” e “My Hearth is of The North” fizeram parte deste alinhamento, mas também músicas mais recentes e futuros clássicos como “The Promethean Spark” e “Pilgrimage to Oblivion“.
Houve ainda espaço para “retornar às raízes” com dois temas, talvez um pouco surpreendentes para o público, mas que provam que IHSAHN cresceu nos anos 80, o que define para sempre a sua persona. Como parte deste momento, foram interpretados dois covers: um de Lenny Kravitz (Rock And Roll Is Dead) e outro dos gigantes britânicos Iron Maiden (Wrathchild) mas claro, com um forte toque do norueguês.

O que se ouviu ao longo deste enorme concerto? Múltiplas camadas e texturas que são incrivelmente belas, mas, ao mesmo tempo, violentamente agressivas. O vocal distinto de IHSAHN, juntamente com a elegância das cordas, resultou em algo que deixou o ouvinte inquieto e viciado durante toda a atuação. Um bom exemplo disso foi a interpretação do “Pilgrimage to Oblivion”, ainda no inicio do concerto. O público fica fascinado mas desconfortável ao mesmo tempo, vidrado mas ansioso. É um misto de sentimentos difíceis de compreender e explicar. Mas é o ingrediente mágico que IHSAHN mete sempre nas suas obras e interpretações e que tanto o distingue no mundo musical.

Se as obras já são tão complexas e viciantes, ao vivo estes elementos ainda se intensificam. Mas, no meio de tanta complexidade, tantos elementos musicais, tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, é impressionante como tudo estava tão bem alinhado e perceptível. Nada se perdeu, nenhuma orquestração, nenhuma sample, nenhuma voz, nenhum instrumento. Tudo se ouvia na perfeição e tudo permitiu tornar este momento auditivo mágico.
Assistir a este concerto foi como mergulhar numa experiência auditiva intensa e multifacetada, onde a brutalidade do metal extremo se entrelaça com passagens progressivas e atmosferas quase etéreas. O som é denso e cerebral, com guitarras afiadas que cortam o ar como lâminas, enquanto sintetizadores subtis e estruturas complexas criam um sentimento de constante tensão e libertação. A voz de IHSAHN alterna entre um grito rasgado e um canto melódico carregado de elegância, guiando a audiência por um percurso sonoro introspectivo e desafiante. Foi uma performance que exigiu total — não se ouviu apenas, sentiu-se com o corpo todo, como se cada nota fosse um golpe direto à consciência.

Este concerto que encerrou o primeiro dia do festival foi uma viagem intensa ao âmago da criação artística, onde o metal se torna pensamento e emoção em estado puro. E não há ninguém melhor para expressar isto do que o enorme IHSAHN e seus companheiros.
Setlist: 1- Cervus Venator; 2- Promethean Spark; 3- Pilgrimage to Oblivion; 4- Twice Born; 5- Anima Extranae; 6- My Heart is of the North; 7-Stridig; 8- Nord; 9- RockNRoll is Dead (cover); 10- Wrathchild (cover); 11- Until I Too Dissolve; 12- Telemark; 13- Lend me the Eyes of Milennia; 14- Distance Between Us; 15- A Taste of Ambrosia; 16- Sonata Profana.
E assim terminou o primeiro dia do Comendatio Music Fest. Era hora de regressar a casa, ao hotel ou ao campismo para recarregar energias para um segundo dia que se avizinhava ser tão bom ou até melhor do que este.
Podes consultar todas as fotos do primeiro dia do festival aqui: COMENDATIO MUSIC FEST 2025- Dia 1, por @vasco.inglez


