O primeiro dia do Milagre Metaleiro Open Air 2025, foi o regressar a casa de muitos dos presentes nesta edição. A pacata aldeia de Pindelo dos Milagres encheu-se de metaleiros, o campismo encheu-se de tendas, e as almas dos presentes encheram-se de memórias.

Embora o festival só arrancasse no dia 21 de Agosto, já no dia 20 se viu muito movimento em Pindelo dos Milagres. Muitos campistas chegaram no dia 0 para desfrutarem na maravilhosa localidade onde se realiza este festival, e montarem tudo para aquilo que seriam 4 dias de música, convívio e muita camaradagem.

Houveram algumas alterações de layout do recinto e área envolvente este ano, resultado de imposições ligadas à segurança florestal e rodoviária, por motivos relacionados com o perigo de incêndios, que como todos sabemos, é algo que assombra anualmente as regiões montanhosas como é esta do festival. Tenho a dizer que a organização conseguiu lidar muito bem com esta situação , e tudo fez para dar as melhores condições possíveis aos festivaleiros, dentro das várias limitações existentes. Parabéns à organização por isto!

Uma outra alteração em relação a anos anteriores, foi o horário do início dos concertos. De forma a evitar que o público estivesse a torrar ao sol nas horas de maior calor (penso eu que tenha sido este um dos motivos), os concertos arrancavam mais tarde. Isto teve vários impactos positivos, focando-me especialmente no facto de as primeiras bandas a atuar terem muito mais público do que em edições anteriores.

Agora vamos ao que interessa e ao que nos trouxe aqui: a música! Dia 21 de Agosto, quinta-feira, as portas abrem-se e a responsabilidade de dar as boas vindas aos festivaleiros, era dos portuenses Firemage.

FIREMAGE

O folk festivo dos Firemage abriu as portas para aquilo que seriam 4 dias longos de boa música e foi uma excelente escolha!

Embora estejamos a falar de um grupo recém formado em 2019, experiência não lhes falta, pois estamos a falar de uma banda composta por membros já bem experientes e conhecidos na realidade lusa, nomeadamente o vocalista poderosíssimo e mestre das cordas Tiago Costa (Xeque-Mate e Eoten, vocalista, guitarra e gaita de foles) e Ricardo Pereira (Moonshade, vocalista e guitarra), o animal de palco e vocalista potentíssimo. A banda é ainda composta por Ana Ferreira (baixo e back vocals), Emanuel Moreira (Bateria), Ricardo Santos (Teclados e back vocals) e Vania Ferreira (Flauta).

O que estes 6 elementos fazem e fizeram é um folk extremamente energético e criativo e emocional, enraizado na tradição épica mas com uma produção moderna. Para além da excelente execução técnica por parte de cada um dos elementos, e uma postura super carismática em palco, devo mencionar que a humildade é um dos seus pontos fortes. Embora pareça que este grupo avançou 20 anos no tempo (pois demonstra qualidade e atitude de uma banda que já anda há muitos anos na estrada), cada concerto parece uma vitória para eles e o ultrapassar de mais um objetivo.

Um projeto recente mas extremamente promissor tanto pela criatividade e diversidade na composição instrumental e lírica, como na própria imagem que a banda parece criar com recurso a vestimentas e elementos que tão bem caracterizam a época que procuram retratar e trazer até nós.

Foi a sua estreia num festival Open Air, a primeira vez de muitas, e um excelente arranque do evento que contou com uma casa já bem composta!

Firemage, por @edgar_silva_fotografia

FOLKHEIM

Continuamos na onda do folk metal, mas agora com uma aura mais negra e raízes no black metal, com os chilenos Folkheim. E foi aqui que se testemunhou o primeiro circle pit do festival. O primeiro de muitos!

Este grupo apresentou-nos um black metal extremo, com elementos folclóricos dos povos originários chilenos, demonstrando ser uma das bandas pioneiras deste estilo no Chile, com uma forte identidade étnica e cultural.

O espetáculo foi, no mínimo, visceral, onde a natureza envolvente da região se alinhou na perfeição com a ambiência deste grupo.

Com uma força intensamente expressiva, instrumentação ancestral e riffs agressivos, combinaram brutalidade sonora com espiritualidade folclórica, resultando em vários minutos de uma experiência memorável. A fusão do black metal com sonoridades tradicionais andinas criou uma sonoridade única, onde as melodias contrastaram com os blast beats violentos e os riffs dissonantes de guitarra. A voz gutural do vocalista, carregada de emoção, transmitiu a dor e a força da história dos povos indígenas, enquanto as mudanças rítmicas abruptas e as harmonias modais davam à música uma sensação quase shamânica.

Foi mais do que um concerto: foi uma invocação sonora que arrepiou a pele do início ao fim.

Folkheim, por @madness_by_nuno_reis

ATTIC

Agora, deixamos o folk em stand by um bocadinho, e damos as boas vindas ao Heavy Metal com os alemães Attic.

Este grupo é conhecido pela sua sonoridade retrô, que faz uma homenagem ao metal clássico dos anos 70 e 80, com forte influência de bandas como Mercyful Fate e King Diamond. Com a sua mistura de heavy metal tradicional, com um ligeiro toque de metal progressivo, criam um som atmosférico e rico em teatralidade, recheado por letras sombrias e místicas.

Para além disso, apresentam uma presença de palco imponente e uma imagem dramática. O vocalista entregou-se completamente à performance, aumentando o nivel de envolvência de cada tema e o som foi totalmente preciso, com guitarras a cortar ar de forma nítida e a bateria a dar sustento à intensidade das músicas.

Durante esta atuação, Attic contaminaram o recinto com uma energia imersiva que fez com que o público se perdesse na narrativa musical. As músicas, que são como peças de teatro, apresentaram-se com uma intensidade ainda mais palpável. E o público teve uma receptividade empolgante Foi performance cheia de surpresas e momentos marcantes.

Attic, por @edgar_silva_fotografia

DISAFFECTED

E agora viajamos até ao death metal com uma das bandas mais relevantes da cena extrema em Portugal, os Disaffected. Com um estilo caracterizado por uma fusão de death metal técnico com algumas influências de thrash, estes senhores deram-nos uma boa dose de atmosfera sombria.

Riffs complexos, mudanças de tempo imprevisíveis, uma energia brutal, vocais guturais, ásperos, típicos do death metal, que transmitiram intensidade emocional, e ainda influências do thrash em alguns momentos, testemunhamos um ambiente sombrio e atmosférico, frequentemente com passagens mais lentas e melancólicas, que contrastam com a agressividade do estilo.

O som pesado e técnico da banda foi ainda mais amplificado pela energia da sua apresentação. Eles têm o dom de criar uma ambiencia única, que mistura a brutalidade com momentos mais melódicos e introspectivos, o que fez com que o público vivenciasse uma montanha-russa emocional durante o concerto.

No meio desta montanha-russa de emoções, houve ainda espaço para uma emocionante homenagem ao Ozzy Osbourne e ao espírito do metal. “Nós somos todos um espírito desta canção“, disse o vocalista antes de interpretar o team “dreamer”, do príncipe das trevas.

Foi um excelente concerto de uma das bandas mais importantes do death metal nacional.

Disaffected, por @madness_by_nuno_reis

FABIO LIONE, DAWN OF VICTORY

Já na escuridão da noite, a lenda na cena do power metal, ex-vocalista da mítica banda Rhapsody, Fabio Lione subiu ao palco para nos encantar com um set especial, old school de temas de Rhapsody e proporcionou-nos uma viagem à golden era da banda italiana.

A contribuição de Fabio Lione para o power metal é inegável. Aqui, no palco de Pindelo dos Milagres, com os seus companheiros Dawn Of Victory, escolheu um set de ouro e marcou aqueles minutos como um dos pontos mais altos da XVI edição do festival!

Fabio tem uma voz que continua a marcar a história da música pesada, e o seu carisma em palco é quase palpável. Desde a sua vertente mais aguda até à operática, esta performance fez qualquer um ficar boquiaberto: a sua versatilidade é de fora deste mundo e não há ninguém como ele. Para além da sua qualidade técnica, o sentimento que expressa com o corpo enquanto canta é apaixonante e contagiosa.

Algo que também surpreendeu e deve ser aqui referido, é que o italiano passou o concerto todo a falar português com o público. Embora este pertença à famosa banda Angra, banda esta brasileira, e portanto já tenha alguns anos de ligação com a língua portuguesa, é sempre de louvar o esforço prestado para aumentar a proximidade com o público.

Os temas escolhidos foram, nada mais nada menos do que aqueles que marcaram para sempre a história dos Rhapsody e do Power Metal no geral: arrancando com Dawn Of Victory, tema que deu o nome à banda, continuando com Lamento Eroico, Land of Immortals, Eternal Glory, Holy Thunderforce, Unholy Warcry, e finalizando com um tema que não poderia de todo faltar que permitiu encerrar o concerto em grande, Emerald Sword. Com esta escolha, não só o público foi capaz de acompanhar liricamente Fabio, como também os mestres das cordas e precursão demonstraram uma precisão técnica de louvar. Desde os temas mais lentos aos mais rápidos, dos mais operáticos aos mais pesados, tivemos tudo!

Durante estes minutos fomos arrastados por um vendaval de glória, onde cada nota se ergueu como uma espada empunhada, e cada refrão se revelou uma marcha triunfal com rumo à eternidade. Mais uma vez afirmo: dos pontos mais altos do festival.

Fabio Lione, Dawn Of Victory, por @edgar_silva_fotografia

ENSIFERUM

E chegou a hora dos headliners do dia pisarem o palco e darem uma verdadeira festa viking. Por entre punhos no ar, espadas e cornos, viveram-se minutos de uma verdadeira batalha viking.

Após marcarem presença no Milagre Metaleiro Open Air em 2022, onde encabeçaram o primeiro dia, regressaram agora ao mesmo festival, mas num novo recinto e com um álbum acabadinho de sair.

Os finlandeses combinam elementos de folk metal, melodic death metal, power metal e Viking metal, resultando em algo que os coloca no topo daquilo que se faz no mundo do folk. São mestres a criar contrastes dramáticos entre melodias de puro peso e passagens mais acústicas, criando texturas épicas. Por entre vocais limpos, coros épicos, arranjos orquestrais e uma gigante diversidade sonora, a construção musical é no mínimo grandiosa.

Num alinhamento com temas obrigatórios como In My Sword I Trust, Andromeda, e Rum, Women, Victory, entraram também temas do novo álbum Winter Storm (2024), temas estes que mostram uma nova dinâmica da banda, com o teclista Pekka Montin a destacar-se nas vozes limpas e potentes, dignas do power metal, a contrastar com as viscerais berradas do vocalista principal Petri Lindroos. Deste novo trabalho, Fatherland foi o tema escolhido para abrir o concerto, e Winter Storm Vigilantes também fez parte do alinhamento dando-nos um bocadinho desta presença ainda mais épica da banda.

Mas o que levou o público à loucura foram os hinos mais enraizados da banda que todos nós sabemos quais são. Foi uma jornada épica, onde a energia do público se fundiu com a força indomável da música, criando uma tempestade de riffs poderosos e coros heroicos. Cada nota foi como uma espada fundida na chama da mitologia nórdica, e o palco foi como um campo de batalha.

O recinto tornou-se num espaço sagrado de união e celebração. No meio a gritos e cantos em uníssono, sentimos a emoção das batalhas, a fraternidade dos guerreiros e a intensidade de um destino compartilhado. Foi uma experiência que nos fez acreditar, pelo menos naqueles minutos que somos todos parte de algo muito maior.

Ensiferum, por @madness_by_nuno_reis

REVOLUTION WITHIN

Os Revolution Within já dispensam de qualquer apresentação. Formados em 2005, seguem a linha do thrash metal clássico, mas com um toque moderno, trazendo a energia e agressividade típicas do gênero, enquanto ainda mantêm uma abordagem técnica e refinada nas suas composições.

Com um som mais direto e veloz, e vários momentos de complexidade nas suas estruturas, dão ao estilo uma profundidade que vai além do thrash tradicional.

Ao vivo, a Revolution Within mantêm sempre a intensidade e a agressividade que caracteriza o thrash metal. A sua performance é explosiva, com muita energia, interação com o público e um som que transmite aquela sensação de urgência e raiva, característica do thrash. Os seus temas são maioritariamente rápidos e pesadas, o que leva o público sempre a fazer circle pits ferozes e levantar muita poeira! A energia dos elementos da banda também é contagiante, o que reforça mais uma vez a intensidade do concerto.

Infelizmente, este concerto não correu às mil maravilhas e não fez jus à gigante qualidade destes senhores de Santa Maria da Feira. Problemas técnicos (não sei se na mesa de som, no próprio palco, ou noutro sítio), criaram algumas falhas e levaram a várias paragens durante a atuação e, pela minha percepção, parece que nunca ficaram totalmente resolvidos, embora tenham sido reduzidos consideravelmente após os primeiros temas.

Talvez só quem conhece bem a banda tenha sentido o impacto na atuação, como é o meu caso, mas todos sabemos que estas coisas acontecem e felizmente foi a única vez (pelo menos que tenha percebido) que aconteceu ao longo do festival. Mas nem por isso os membros da banda desistiram ou o público se foi embora. Mesmo com todas as adversidades, Raça (vocalista) e companheiros entregaram corpo e alma naquele palco e o público demonstrou-se fiel mesmo naquela hora já bem avançada.

Revolution Within, por @edgar_silva_fotografia

E chegamos assim ao final do primeiro de quatro dias do festival! Este estrondoso arranque prometeu e entregou emoção e nostalgia, com Ensiferum a abrir as portas de um universo épico e guerreiro, enquanto Fabio Lione trouxe de volta a magia dos clássicos de Rhapsody com os Dawn of Victory, num espetáculo intenso e memorável. Enquanto isso a música nacional ficou muito bem representada com Firemage, Disaffected e Revolution Within, que acompanhados com o folk/black dos Folkheim e o Heavy Metal dos Attic, entregaram tudo aquilo que um metaleiro festivaleiro poderia querer.

Em Pindelo dos Milagres, o metal viveu-se com alma, suor e comunhão neste primeiro dia!

Agora restava descansar, pois ainda havia muitas memórias por construir!

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