Stoned Jesus, carisma, paixão e entrega. Belvedere Bar, Curitiba 2025. Foto: Willian Rodrigues – @uilia.666

Superadas as excelentes aberturas, a atração mais aguardada da noite finalmente subiu ao palco do Belvedere. O show do trio ucraniano Stoned Jesus, em turnê comemorativa de seus 15 anos de carreira e com uma nova formação, foi um marco histórico.

Yurii Ciel, Stoned Jesus. Belvedere Bar, Curitiba 2025. Foto: Willian Rodrigues – @uilia.666

A performance começou com a intensidade de “Bright Like the Morning“. A potência dos vocais de Igor Sydorenko se uniu às notas fortes e graves do baixo de Andrew Rodin (que também adiciona backing vocals impecáveis) e às linhas consistentes e progressivas na bateria com paixão e precisão de Yurii Ciel. Por mais que os músicos sejam “comportados” para o estilo — contrastando com a temática stoner/doom — isso não foi, de forma alguma, impeditivo para criar uma atmosfera psicodélica com belíssimos toques progressivos.

O setlist trouxe uma excelente mescla de músicas do novo álbum com os maiores sucessos da banda, costurando a evolução sonora do trio.

O público foi imediatamente fisgado pela sequência de faixas, que navegou entre as eras da banda. A inclusão de “Porcelain” (do Father Light) e “Shadowland” (do mais recente Songs to Sun, leia review aqui) demonstrou a capacidade do trio de explorar texturas mais melódicas e complexas, sem perder o peso característico.

Andrew Rodin, Stoned Jesus. Belvedere Bar, Curitiba 2025. Foto: Willian Rodrigues – @uilia.666

Após a execução de “Thessalia“, a banda fez uma pequena e respeitosa pausa para abordar um tema que, infelizmente, é impossível de ser ignorado: o conflito entre Rússia e Ucrânia. A guerra, que escalou drasticamente com a invasão russa em fevereiro de 2022, continua a forçar o deslocamento de milhões de ucranianos, com uma grande parte refugiada aqui mesmo no estado do Paraná, que abriga a maior comunidade de descendentes de ucranianos na América Latina. É importante ressaltar que, embora a banda estivesse no palco em segurança, seu país natal está em guerra, afetando familiares, amigos e conhecidos.

Com isso, o Stoned Jesus reforçou a campanha de arrecadação de doações para pessoas atingidas pelo conflito, que pode ser feita através do link stonedjesus.bigcartel.com. As doações de 4 Euros (o valor de um café na Europa, cerca de R$ 30 no Brasil) fazem uma diferença enorme para algo tão sensível. O pedido, feito com humildade e dignidade, ressoou profundamente na plateia, ressaltando o lado humano por trás da música pesada e clima descontraído.

Stoned Jesus. Belvedere Bar, Curitiba 2025. Foto: Willian Rodrigues – @uilia.666

O momento “tenso” deu lugar à resiliência sonora, e o set seguiu com a densidade de “Thoughts and Prayers” e “Silkworm Confessions“. A banda então entregou um dos pontos altos da performance ao unir “Black Woods” e “Here Come the Robots“. A transição entre o peso cru do doom e o groove mais acelerado foi executada com precisão cirúrgica, aquecendo a pista para o que viria a seguir.

Stoned Jesus. Belvedere Bar, Curitiba 2025. Foto: Natalia Larroyed – @nat_larroyed

A sinergia e o carisma da banda com o público de Curitiba foram algo lindo e totalmente natural, gerando uma receptividade acalorada que, para a “frieza” histórica da capital paranaense, foi surpreendente. Houve roda punk, houve coro de “Jesus Chapado” (a tradução do nome da banda) e uma entrega total ao groove.

O ápice da noite veio com o hino “I’m the Mountain“, que transformou o Belvedere em um coro colossal e hipnótico, com os longos riffs e o vocal catártico, sendo o momento de clímax absoluto da apresentação.

É incrível como em pleno 2025, em uma era dominada por edições, efeitos, triggers e grandes produções cênicas no metal (principalmente lado mais extremo e pesado), a união do básico bem feito, três instrumentos (as guitarras e o baixo com suas pedaleiras; o kit da bateria simples com pedal duplo, três pratos, um tom e um surdo), combinados com a paixão visível na performance e a energia entre músicos e público, provam ser a fórmula perfeita para o êxtase e funcionam perfeitamente.

O show, que já era espetacular, foi finalizado com “Low” e “Electric Mistress“. Nestas últimas faixas, a banda demonstrou sua versatilidade ao introduzir mudanças breves, mas notáveis, no andamento, que no palco soaram mais do que perfeitas, adicionando uma camada de complexidade técnica ao groove já estabelecido.

Andrew Rodin, no final do show atendendo o fã mais importante da noite: Capilé, cansado da maratona. Belvedere Bar, Curitiba 2025. Foto: Natalia Larroyed – @nat_larroyed

Ao final, Curitiba não teve apenas uma viagem sonora psicodélica; teve uma experiência única, catártica, com um sentimento de satisfação e êxtase inigualáveis, e que a banda não demore mais 8 anos para voltar ao país.

Setlist Stoned Jesus:
1. Bright Like the Morning
2. Porcelain
3. Shadowland
4. Thessalia
5. Thoughts and Prayers
6. Silkworm Confessions
7. Black Woods
8. Here Come the Robots
9. I’m the Mountain
10. Low
11. Electric Mistress

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