Os britânicos A Forest of Stars regressaram com o seu novo álbum de estúdio Stack Overflow In Corpse Pile Interface, lançado a 8 de maio de 2026 pela Prophecy Productions. O disco afirma-se como uma obra de grande ambição dentro do universo do avant-garde/progressive black metal, expandindo ainda mais a identidade singular da banda. Com uma carreira iniciada em 2007 e marcada por uma sequência de lançamentos consistentes e altamente distintivos, este novo trabalho parece representar o ponto mais elevado de maturidade, complexidade e visão artística alcançado pelo coletivo britânico até à data.

A Forest of Stars regressa oito anos após o seu último lançamento com uma verdadeira masterpiece: Stack Overflow In Corpse Pile Interface. Com 1h13 de duração distribuída por apenas seis faixas, o álbum constrói-se como uma viagem extensa e profundamente imersiva por um universo abstrato, onde a estrutura musical parece simultaneamente meticulosamente arquitetada e deliberadamente caótica. Este novo trabalho reafirma a coerência singular da banda ao longo da sua trajetória, explorando novamente as suas obsessões estéticas e narrativas com uma consistência quase paradoxal.
Ao longo da audição, torna-se evidente que os britânicos continuam a operar segundo uma lógica própria, inconfundível e difícil de replicar, como se cada composição obedecesse a um conjunto interno de regras que apenas eles próprios parecem compreender plenamente.

O álbum arranca com Ascension of the Clowns, uma faixa que logo nos seus primeiros segundos justifica o seu nome, pois a sua introdução melódica, guiada por um violino de tonalidade melancólica, conduz-nos de imediato a uma sensação de suspensão, quase como se estivéssemos a ascender lentamente acima de uma paisagem em colapso emocional. Os vocais introduzem uma dimensão de revolta e desespero inquietante, apoiados por blastbeats intensos e uma velocidade instrumental que contrasta violentamente com essa abertura mais etérea, criando uma tensão constante entre o sublime e o caótico. Para quem não conhece A Forest of Stars, o mais imediato aqui é a sufoco, a dor e a angústia transmitidas pela voz. Mas quando se dá tempo e atenção ao conjunto, torna-se claro que tudo converge para o mesmo ponto – a colisão deliberada entre duas forças que coexistem sem nunca se fundirem por completo: de um lado, a narrativa vocal quase delirante, em constante colapso emocional, do outro, uma instrumentação meticulosamente controlada, que sustenta e amplifica esse caos sem nunca o domesticar totalmente. Ascension of the Clowns conquista-nos de imediato e mantém-nos presos até ao último momento do álbum.
Street Level Vertigo eleva ainda mais o nível de desespero vocal, mesmo quando isso já parecia uma fronteira difícil de ultrapassar. Os vocais surgem inicialmente sustentados por uma batida de cariz tribal, que acompanha um crescendo lento e absolutamente hipnótico. Mais uma vez, evidencia-se a mestria da banda na construção de atmosferas progressivas, que nos mantêm presos quase sem piscar os olhos, numa expectativa constante sobre o ponto de chegada. E quando esse crescendo finalmente se dissolve, surge uma melodia inesperada, precisamente por isso tão eficaz na forma como surpreende. O violino volta a assumir um papel central, funcionando como elemento estrutural essencial, ao mesmo tempo em contraste e em simbiose com a dor expressa nas vozes. A composição recusa qualquer previsibilidade: há espaço para expansão, quedas abruptas, piano, violino e vocais femininos que acrescentam uma camada adicional de fragilidade. E o final do tema surge mais uma reviravolta num percurso já intrinsecamente imprevisível (quando parecia impossível surpreender mais): Mister Curse reaparece de forma absolutamente arrebatadora, com uma prestação vocal em que a dor se torna quase tangível. É acompanhado por uma passagem instrumental de forte inspiração folk, que evoca uma paisagem rural inglesa. A conjugação destes elementos resulta num encerramento verdadeiramente grandioso, que fecha a faixa com uma sensação de amplitude e catarse rara.
Chegamos a Mechanically Separated Logic, que se desenvolve de forma progressiva e quase cósmica, elevando ainda mais a sensação de expansão sonora que o álbum tem vindo a construir. Aqui, os A Forest of Stars atingem um novo patamar de abstração estrutural, onde a composição parece evoluir como um organismo em constante mutação. Mister Curse revela mais uma faceta da sua já vasta paleta vocal, afastando-se do registo mais abrasivo para surgir em spoken word de caráter teatral, quase psicadélico, que é amplificado e distorcido pela própria instrumentação envolvente. Existe uma espécie de vibração bluesy subjacente nesta faixa, onde a dor não desaparece, mas transforma-se, dando lugar a sensações mais ambíguas como o mistério, o desprezo, a raiva contida e até uma ironia subtil que atravessa toda a estrutura. Essa ironia torna-se ainda mais clara quando se confronta o conteúdo lírico, que constrói uma visão profundamente sarcástica e grotesca da condição humana moderna. Um retrato onde a sociedade surge como caótica, desumanizada e saturada de absurdo, num equilíbrio desconfortável entre crítica e repulsa. Não se trata apenas de descrever o mundo, mas de o distorcer até ao ponto em que ele se torna simultaneamente familiar e intolerável, quase como um espelho deformado da própria existência contemporânea. A meio do tema, a música sofre uma inflexão brusca: uma dissonância cavernosa e desconcertante emerge e arrasta o ouvinte para uma espécie de abismo sonoro, como se toda a construção anterior fosse subitamente sugada para um vazio profundo e instável. Nesse momento, o tema reinicia-se num novo plano, ainda mais fragmentado e inquietante, combinando passagens de tonalidade mais folk e acessíveis, com um sentido crescente de colapso iminente. Mais uma vez, a voz regressa como elemento de corte e transição, marcando mudanças de atmosfera com precisão quase ritual, reforçando a sensação de que nada aqui permanece estático: tudo se transforma, se desdobra e se desfaz continuamente dentro da lógica caótica, mas estranhamente coerente da banda.
Roots Circle Usurpers traz-nos de volta à dor e à melancolia, funcionando como um dos momentos mais contemplativos do álbum. A faixa abre com uma introdução de cariz folk, serena e quase terapêutica, que se prolonga durante vários minutos como uma espécie de pausa necessária no meio do caos, ou um instante de respiração que prepara o ouvinte para o que se segue. Essa leveza inicial torna-se ainda mais significativa quando a estrutura começa a fragmentar-se e a narrativa musical ganha novas camadas emocionais e dramáticas. A partir daí, a composição revela novamente a sua natureza imprevisível, alternando entre passagens de aparente simplicidade e momentos de caos absoluto. Os A Forest of Stars constroem o tema através de sucessivas mudanças de atmosfera, onde secções de forte carga folk coexistem com explosões de intensidade descontrolada. A transição é sempre orgânica, como se cada estado emocional desse origem ao seguinte sem nunca romper a coerência do todo. A meio da faixa, Mister Curse assume maior protagonismo, permitindo que voz e instrumentação avancem quase em conjunto num breve período de coesão controlada. O tema cresce até um clímax envolvente e hipnótico, antes de se dissolver numa passagem mais etérea e solene, onde o violino conduz uma espécie de valsa espectral que contrasta profundamente com o caos anterior. E, como seria de esperar, esse equilíbrio não dura: o caos regressa uma última vez, arrastando a faixa para o seu desfecho num colapso progressivo de identidade e forma. “I am not I am not I am not I am not I am not I am not I am not I am not I“, ecoa como uma obsessão em espiral, fechando o tema num estado de dissolução total, onde linguagem, sentido e estrutura parecem finalmente abandonar qualquer tentativa de ordem.
Sway, Draped in Vague surge de forma completamente imersiva, assumindo nos primeiros instantes uma abordagem minimalista e contemplativa. Durante vários minutos, somos convidados a fechar os olhos e a deixar-nos envolver por uma delicadeza instrumental, onde cada nota parece suspensa no tempo. Mais tarde, essa paisagem sonora é atravessada pela entrada de Katheryne, Queen of the Ghosts, cuja presença vocal acrescenta uma camada de resignação e exaustão emocional, como se a música estivesse a observar o seu próprio colapso em câmara lenta. Sendo a faixa mais longa do álbum, com cerca de 17 minutos, poderia facilmente cair na repetição ou na monotonia, mas isso seria ignorar completamente a lógica interna dos A Forest of Stars. Já a meio da obra total, torna-se evidente que os britânicos continuam a expandir o seu universo sonoro com uma liberdade ilimitada, acrescentando novas camadas que não se sobrepõem, mas que se transformam continuamente, criando uma sensação constante de evolução. A meio da faixa, quando a violência e a angústia de Mister Curse regressam, há quase um sentimento paradoxal de conforto, como se essa explosão de caos funcionasse como um regresso ao centro emocional do álbum, algo familiar dentro da instabilidade geral. Pouco depois, o tema volta a reduzir-se ao essencial, mergulhando novamente num minimalismo carregado de mistério, onde elementos mais sombrios começam a emergir de forma subtil. No final de contas, seria praticamente impossível descrever cada transformação que aqui ocorre sem perder partes essenciais do percurso. A faixa está em constante mutação, atravessando estados sucessivos de calma, tensão, beleza e violência. No entanto, o mais impressionante é precisamente essa coerência invisível: apesar da complexidade extrema, tudo parece surgir no momento certo, com a duração certa, como se a obra obedecesse a uma lógica própria que transcende qualquer tentativa de análise linear. Neste ponto, Sway, Draped in Vague afirma-se como o auge da complexidade e da exploração sonora do álbum, levando a experiência dos A Forest of Stars ao seu limite mais expansivo e intrincado.
Parecendo que não, e apesar de já ter passado quase uma hora desde que iniciámos a viagem por Stack Overflow In Corpse Pile Interface, surge Not Drinking Water com a difícil tarefa de encerrar uma obra tão rica em complexidade, imprevisibilidade e intensidade emocional. E deixem-me dizê-lo desde já: estes últimos 15 minutos cumprem esse propósito de forma absolutamente magistral.
A faixa abre com uma melodia de violino simultaneamente simples e profundamente imersiva, envolvendo-nos numa sensação de serenidade melancólica que parece suspender o tempo. Como já se tornou imagem de marca dos A Forest of Stars, tudo cresce lentamente, sem pressas, através de um crescendo subtil e paciente que nunca força a grandiosidade, mas a deixa emergir naturalmente. Quando os restantes instrumentos entram finalmente em cena, mergulhamos pela última vez no universo da banda, um universo onde luz e sombra coexistem permanentemente, alternando entre momentos de calma contemplativa e explosões emocionais devastadoras. Curiosamente, a faixa não procura encerrar o álbum através do excesso ou da acumulação de todos os elementos possíveis. Pelo contrário: comparativamente ao caos mais violento de momentos anteriores, Not Drinking Water apresenta uma abordagem mais contida, quase serena em certos momentos. Mister Curse surge aqui menos explosivo, mais desgastado, como se todo o sofrimento acumulado ao longo do álbum tivesse finalmente consumido a energia restante da sua voz. E é precisamente essa contenção que torna a faixa ainda mais dolorosa. Ao longo dos seus 15 minutos, a composição move-se lentamente entre picos emocionais e vales solenes, mantendo aquela estrutura longa, fluida e orgânica que define grande parte da identidade da banda. Há dor, há melancolia, há luto. Sabendo tratar-se de uma música em memória de Benjamin James Hanson, torna-se impossível não sentir que toda a carga emocional acumulada ao longo do álbum converge finalmente aqui. Como se a ferida mais profunda tivesse sido guardada para o último momento.
E depois chega a parte final. Não quero descrevê-la em excesso, porque parte do impacto está precisamente em experiencia-la sem preparação. Mas posso dizer que, a partir de determinado ponto, a faixa transforma-se em algo absolutamente esmagador. Uma conclusão tão intensa, tão emocionalmente completa e tão representativa da essência de A Forest of Stars que seria difícil imaginar um encerramento mais apropriado para esta obra. É uma daquelas músicas que provoca arrepios instantâneos, seja pelo instrumental, pela carga lírica ou pela forma como ambos se fundem numa catarse final impossível de ignorar. Durante estes últimos minutos, não existe espaço para indiferença: ou nos entregamos completamente ao álbum, ou o álbum acaba por nos absorver totalmente.
No seu todo, Stack Overflow In Corpse Pile Interface afirma-se como uma das obras mais ambiciosas, complexas e emocionalmente absorventes da carreira dos A Forest of Stars. Mais do que um simples álbum de avant-garde/progressive black metal, trata-se de uma experiência profundamente imersiva, construída com uma coerência rara apesar da constante sensação de caos, mutação e imprevisibilidade. Ao longo de mais de uma hora, a banda consegue desafiar continuamente o ouvinte sem nunca perder identidade, equilibrando violência, melancolia, teatralidade, folk e experimentação de uma forma que poucos conseguem alcançar sem cair no excesso gratuito. É um álbum exigente, denso e emocionalmente pesado, mas precisamente por isso recompensador . Uma obra que não se limita a ser ouvida, mas que precisa de ser absorvida, interpretada e sentida.
Em 2026, poucos discos soarão tão únicos, tão completos e tão genuinamente inspirados quanto Stack Overflow In Corpse Pile Interface.
Alinhamento:
1- Ascension of the Clowns;
2- Street Level Vertigo;
3- Mechanically Separated Logic;
4- Roots Circle Usurpers;
5- Sway, Draped in Vague;
6- Not Drinking Water
Banda: A Forest of Stars
Álbum: Stack Overflow In Corpse Pile Interface
Label: Prophecy Productions
Data de Lançamento: 8 Maio 2026