Na passada terça-feira, 17 de fevereiro, os Gnosis, banda de black metal melódico de Setúbal, lançaram finalmente o seu álbum de estreia, WITHIN//WITHOUT.
Fundada em 2015, a banda apresenta uma sonoridade que cruza a crueza e obscuridade do black metal com secções melódicas densas, criando uma identidade própria e emocionalmente carregada. Este álbum representa, sem dúvida, um grande passo na carreira da banda!
RELEASE LISTENING PARTY
Para assinalar o lançamento, a banda promoveu uma Release Listening Party no dia 16 de fevereiro, nos Bons Augúrios, em Setúbal. Mas foi à meia-noite, sob a lua nova, que celebramos verdadeiramente o nascimento deste primeiro projeto.
A festa estava ótima. Amigos reunidos, muitos já trajados com as t-shirts dos Gnosis, todos em confraternização, celebrando um momento especial ao lado da banda, que visivelmente demonstrava orgulho pelo trabalho entregue. E com razão!
Logo de início percebemos que o álbum é diverso. Mantém a identidade que já conhecíamos, mas constrói algo maior. Funciona como uma montanha-russa de emoções: alterna entre momentos mais pesados, passagens reflexivas e pausas densas. É escuro, intenso e extremamente bem executado.
Vale lembrar que todo o processo foi feito no melhor estilo “do it yourself”. E talvez por isso a qualidade seja ainda mais impressionante. Foi uma noite bonita, de partilha, celebração e som de alto nível.
Para tornar tudo ainda mais especial, a banda sorteou os dois prêmios propostos:
1º – uma t-shirt + um CD
2.º prémio: um CD
A banda autografou CDs, agradeceu aos presentes e celebrou junto. Que seja apenas o início de uma nova era!
O ÁLBUM
Há álbuns que falam de escuridão, mas há aqueles que nascem dela. E desde o início, os Gnosis deixam claro que este não é apenas um conjunto de músicas. É uma narrativa. O disco amarra tudo numa história densa, construindo uma linha evolutiva completa.
FAIXA A FAIXA
1. “E se mais mundo houvera…”
É uma introdução sensorial e atmosférica. Densa, quase instrumental, mas pontuada por gritos chorosos e melancólicos, que se misturam ao som da água e do vento. É quase sufocante, onde a água parece realmente te afogar e inundar para dentro do álbum.
2. “Stareater”
A entidade devoradora de estrelas surge. A letra fala de mundos antigos sendo engolidos, de luz drenada e de uma noite eterna que nasce da destruição. Esta se tornou imediatamente a minha favorita na Listening Party. É pesada, moderna, cheia de reviravoltas e riffs muito bem compostos. A voz rasgada domina, mas há um vocal limpo distante nos backing vocals que acrescenta profundidade. É impossível ouvir e não começar a mexer a cabeça.
3. “Noite”
Aqui a noite deixa de ser destruição e vira refúgio. Mas esse refúgio revela uma dependência. Já conhecida como single do ano passado, se a faixa anterior trazia nuances mais modernas, esta traz a essência mais obscura do black metal. Ao final, temos um trecho do poema “Na noite terrível”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, elevando ainda mais a densidade conceptual.
4. “Demiurge”
O conflito é interno, pois o eu lírico reconhece sua autodestruição, e declara ser o próprio inimigo. Para mim, esta é outra grande favorita. Começa calma e evolui para camadas mais pesadas. A letra é intensa, os gritos acompanham essa densidade, mas a música carrega uma energia que eleva, com variações de peso, passagens suaves, e breakdown. É muito boa!
5. “Within”
Queda interior. O sujeito questiona a própria existência, sente-se cair para dentro de si mesmo, e a luz deixa de iluminar e passa a queimar. Ela começa leve, quase conduzindo o ouvinte ao clímax. Vai escalando lentamente até explodir. Não é simplesmente pesada. É intensa, densa e imersiva. Cada grito ecoa como se viesse de dentro.
6. “Without”
É como um espelho da anterior. O mundo exterior agora reflete o colapso interior. É uma faixa um pouco mais curta, começa devagar e explode, e a dualidade do título do álbum ganha total sentido aqui.
7. “Lightbringer”
O portador da luz surge. Mas não há redenção. A faixa constrói uma atmosfera que chega de mansinho… e dá para fechar os olhos e visualizar um ambiente de terror onde a luz surge aos poucos. Quebras inesperadas tornam tudo ainda mais intenso.
8. “Ponte”
Cantiga tradicional portuguesa “Debaixo daquela ponte”, sobre uma mulher enganada. Aqui ela ganha contornos mais macabros. A chuva ao fundo transforma a cantiga em lamento sombrio, e essa simplicidade é justamente o que torna tudo assustador.
“Debaixo daquela ponte
Está uma roseira aberta
Foi onde o José Caixeiro
Enganou a Lauriberta”
9. “Ode To The Void”
Encerramento do álbum, e talvez seja aqui onde está o coração da obra. A música fala de uma alma em conflito, de uma chama ainda acesa na escuridão, tentando sobreviver ao vazio que sufoca. Na sonoridade, ela se inverte da maioria das anteriores: começa rápida e intensa, e mantém a força quase do início ao fim. A bateria é rápida, cortante, sustentando o peso. Uma faixa profundamente enraizada no black metal. Esta então é eleita a minha terceira favorita!
A EXPERIÊNCIA
A experiência sonora é envolvente, não enjoativa, e mergulha o ouvinte na narrativa. No Spotify, cada faixa traz pequenos vídeos em preto e branco, com visuais e temáticas que ampliam ainda mais o entendimento e imersão.
Algo muito interessante ao longo do álbum é que praticamente todas as faixas começam calmas, quase contidas, devagar… e de repente explodem. É uma construção que funciona muito bem. Assim como na Listening Party, o corpo começa a se mexer automaticamente, acompanhando cada nuance, cada virada, cada quebra. Não é só ouvir, é também reagir e sentir.
Os músicos se mostram extremamente competentes. Os instrumentais são potentes e bem estruturados. A voz não fica atrás, pelo contrário, parece crescer a cada faixa, ganhando ainda mais força e segurança ao longo do disco.
É uma experiência que parece começar na água, como um mergulho inicial que damos. Passa pela destruição, pela dependência da escuridão, revela o cárcere interno e termina numa sobrevivência. Há uma jornada clara ali. E é exatamente isso que torna o álbum tão interessante.
O álbum constrói um espelhamento constante entre Within e Without. O que está fora nasce do que está dentro, enquanto o que está dentro é alimentado pelo que está fora. Para mim, aqui temos uma obra densa, emocional e de conceito muito bem alinhado.
O QUE DIZ A BANDA
“Criada inteiramente por nossas próprias mãos, esta peça é o resultado de dois anos de dedicação e perseverança incansáveis.
Foi forjada entre as cidades portuárias de Setúbal e Lisboa, e inspira-se nos sussurros dos antigos rios Sado e Tejo.
A nossa mais profunda gratidão a todos que caminharam ao nosso lado.”
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O álbum cumpre exatamente o que a banda prometeu em entrevista concedida anteriormente para a CEP: não é um simples conjunto de músicas. É uma história com início, meio e fim.
Cada faixa complementa a anterior sem ser continuação direta. São elementos que se encaixam como capítulos de um livro sombrio. Há melancolia, intensidade, peso e pausas estratégicas que renovam a experiência, como no caso de “Ponte”.
Tudo feito por eles, sem gravadora e sem patrocínio. Apenas dedicação!
O álbum é uma estreia impressionantemente madura. E é muito provável que ainda ouviremos falar muito dos Gnosis!
FICHA TÉCNICA
9 músicas – 47min05s
- E se mais mundo houvera… – 1:39
- Stareater – 6:49
- Noite – 7:23
- Demiurge – 7:21
- Within – 4:37
- Without – 3:29
- Lightbringer – 6:57
- Ponte – 0:37
- Ode To The Void – 8:10
Formação:
Dotta – Vocais
Eyeless – Lead Guitars
Shunya – Rhythm Guitars
Druwit – Bass
Archon – Drums
Produção: Shunya, Eyeless, Archon
Mix & Master: Shunya

