Grievance regressam ao centro do caos a 5 de Maio de 2026 com Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras, editado através de uma coligação entre a Haloran Records e a Larvae Records. Sucessor do aclamado Nos Olhos da Coruja (2020), este álbum reafirma a banda como uma força incontornável do Black Metal nacional. É uma obra magnética e visceral, que nos convida a mergulhar profundamente na escuridão mais absoluta e magistralmente composta.

Oriundos das Caldas da Rainha e de Leiria, e movendo-se nas sombras do underground, os Grievance têm vindo a construir uma identidade sólida e intransigente dentro do Black Metal nacional. A sua música distingue-se pela fusão entre a agressividade crua do género e uma forte componente atmosférica e melancólica, criando composições de grande intensidade emocional e profundidade conceptual. Ao longo da sua discografia, a banda tem explorado temas como o ocultismo, filosofia e folclore português, consolidando uma sonoridade própria que encontrou em Nos Olhos da Coruja (2020) um dos seus momentos mais marcantes. Com Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras, os Grievance demonstram que continuam fiéis à sua essência, mas determinados em expandir os limites da sua visão artística.
Enraizado em temáticas abissais, a obra entrelaça o folclore e a experiência empírica com visões oníricas, explorando a ténue fronteira entre o tangível e o subliminar. As suas letras são atravessadas por presságios sombrios e reflexões errantes, mergulhando nos aspetos mais obscuros da existência, tanto no plano material como no espiritual. Projeto liderado por Diogo Trindade (Koraxid), conta com as participações especiais de Nocturnus Horrendus e J. Goat (Corpus Christii) na quinta faixa, bem como com as texturas de sintetizador de Lord Drahkhul (Empalamento) no tema de abertura, elementos que reforçam a densidade atmosférica e a identidade singular desta obra.

O álbum abre com Floresta Crepuscular, e bastam poucos instantes para percebermos que Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras é uma obra que nos envolve por completo. A introdução, simultaneamente atmosférica e inquietante, sustentada por um envolvente tremolo picking, transporta-nos de imediato para o universo sombrio dos Grievance. Quando a voz de Koraxid irrompe, qualquer dúvida desaparece: a sua interpretação continua a ser um dos maiores trunfos da banda. Sufocante, desesperada e carregada de emoção, transmite um sentimento quase palpável de angústia, solidão e desolação. A isso juntam-se por vezes coros etéreos, que oscilam entre o angelical e o espectral, acrescentando uma dimensão fantasmagórica que intensifica a atmosfera da composição. Liricamente, a floresta surge não apenas como um espaço físico, mas como um refúgio de contemplação e comunhão com a própria escuridão, onde o silêncio se transforma numa inesperada forma de sabedoria. Longe de seguir estruturas previsíveis, Floresta Crepuscular afirma-se como uma abertura hipnótica e absorvente, capaz de nos prender desde o primeiro momento e de nos arrastar, sem resistência, para o obscuro e fascinante mundo sonoro dos Grievance.
Castelo de Árvores dá continuidade à viagem e inicia com um riff de enorme criatividade, que capta de imediato a atenção. Nesta fase, torna-se evidente que Grievance não se limita aos cânones mais primitivos do Black Metal, assentes numa sucessão incessante de velocidade e agressividade. Pelo contrário, a banda privilegia a construção de ambientes densos e contemplativos, onde cada passagem é cuidadosamente desenvolvida e integrada na narrativa da composição. Os vocais de Koraxid voltam a assumir um papel central, alternando entre os seus característicos gritos dilacerantes e passagens em spoken word, profundas e imponentes, que acrescentam uma dimensão quase ritualística ao tema. Discretas camadas de sintetizadores surgem de forma cirúrgica, conferindo um contraste subtil entre uma beleza etérea e uma atmosfera claustrofóbica, como se cada nota nos conduzisse às profundezas de uma antiga masmorra. Também a letra acompanha esta dimensão contemplativa, retratando um castelo imaginário erguido pela própria floresta como um espaço limiar entre a realidade e o sonho, onde a comunhão com a natureza devolve ao protagonista a força necessária para prosseguir o seu caminho. Não há qualquer pressa em atingir o clímax: tudo respira ao ritmo da própria música, numa demonstração de maturidade composicional e de uma banda plenamente consciente da sua identidade e da força da sua visão artística.
Promontório dos Espíritos emerge de forma quase tribal, sustentado por uma percussão hipnótica que estabelece, desde os primeiros instantes, uma atmosfera ritualística. A composição cresce de forma paciente e meticulosa, alimentando uma tensão constante que prende o ouvinte numa expectativa permanente. Cada elemento vai surgindo de forma gradual, a bateria, as guitarras e a voz, até culminar numa explosão de intensidade simultaneamente caótica e bela. A letra acompanha essa atmosfera com um forte cunho imagético, transformando o promontório num espaço de fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos, onde os lamentos dos náufragos ecoam como memórias aprisionadas entre o mar e a eternidade. E instrumentalmente, quando tudo indica que o clímax foi alcançado, a banda recua, volta a construir a tensão e surpreende com uma nova escalada de agressividade e emoção. É precisamente esta dinâmica imprevisível que torna o tema tão marcante, recusando estruturas lineares e mantendo o ouvinte constantemente envolvido. A secção rítmica revela aqui uma versatilidade notável, alternando entre momentos de contenção e explosões de fúria com uma naturalidade impressionante, enquanto vocalmente, Koraxid volta a oferecer uma interpretação vocal absolutamente arrebatadora. Nos instantes finais, a intensidade dissipa-se apenas o suficiente para recuperarmos o fôlego, antes de uma breve passagem de spoken word, murmurada de forma fantasmagórica, nos conduzir inexoravelmente para as profundezas do abismo.
Em Besta me Transformo, já na segunda metade do álbum, inicia-se de forma inquietante, com uma introdução carregada de sons perturbadores que evocam, de forma quase cinematográfica, o processo de uma metamorfose monstruosa. Quando as guitarras entram em cena, revelam uma das melodias mais marcantes e memoráveis de todo o álbum, demonstrando uma das maiores qualidades de Grievance: a capacidade de integrar linhas melódicas profundamente envolventes sem nunca comprometer a agressividade e a identidade negra da sua sonoridade. Longe de recorrer a uma narrativa de horror convencional, a faixa utiliza a figura da besta como metáfora para a libertação dos impulsos mais sombrios reprimidos pela mente humana. Essa transformação é traduzida musicalmente através de uma abordagem intensa, física e visceral, onde cada elemento parece contribuir para a escalada dessa explosão emocional. É, sem dúvida, uma das composições mais impressionantes do disco. A sua estrutura, complexa e imprevisível, flui com uma naturalidade admirável, enquanto a interpretação vocal acompanha essa metamorfose de forma absolutamente convincente, alternando entre dor, desespero e fúria com uma expressividade rara. As melodias de guitarra atingem aqui alguns dos momentos mais inspirados do álbum e a prestação da secção rítmica é simplesmente irrepreensível, exibindo um nível técnico notável sem nunca cair no virtuosismo gratuito. O resultado é uma faixa de enorme impacto emocional, impossível de ouvir de forma indiferente e capaz de provocar arrepios do primeiro ao último instante. O desafio fica lançado.
Torturas parece dar continuidade à espiral de escuridão iniciada em Em Besta me Transformo, como se a metamorfose ali sugerida tivesse finalmente atingido a sua forma mais consumada. A fúria mantém-se presente, mas assume agora um caráter menos impulsivo e mais sufocante. A letra estabelece um paralelo entre os suplícios físicos, evocados através de referências como o Berço de Judas, a Cadeira do Inquisidor ou a Donzela de Ferro, e formas de violência contemporâneas como a manipulação, a intimidação, a humilhação e a culpabilização. Os Grievance recordam-nos, assim, que a tortura não pertence apenas aos livros de História: mudou de rosto, mas continua a manifestar-se de forma persistente, capaz de destruir tanto o corpo como o espírito. Essa dimensão intemporal é reforçada de forma particularmente expressiva no desfecho da faixa, quando a voz enuncia “Implacável, indelével, intemporal“, sublinhando a ideia de que o sofrimento ultrapassa épocas, métodos e contextos. Musicalmente, essa dualidade traduz-se numa composição opressiva e implacável, onde a agressividade nunca perde de vista a atmosfera, reforçando a sensação de um sofrimento que se prolonga para lá do tempo e da própria carne.
Clausura regressa à fórmula do crescendo, construindo uma tensão quase insuportável que nos mantém cativos. A sensação de confinamento é transmitida de forma exímia pela própria evolução da composição, que parece apertar o cerco ao ouvinte até ao momento da inevitável libertação. É impossível não nos deixarmos absorver por essa escalada de intensidade, tão opressiva quanto hipnótica. Quando a tensão finalmente cede, Grievance recompensam-nos com mais um conjunto de melodias absolutamente marcantes. E, uma vez mais, recusam a repetição fácil: as linhas melódicas evoluem constantemente, sucedendo-se de forma orgânica e mantendo a composição viva, sem nunca resvalar para a monotonia. Liricamente, a faixa acompanha esta sensação de aprisionamento, retratando um protagonista enclausurado no próprio corpo e assombrado pelas suas memórias, mas que encontra na solidão e na comunhão com os espíritos uma inesperada forma de libertação. O desfecho, marcado por umas tensas spoken words que enunciam “Enclausurado no corpo, liberto na alma”, encerra a composição de forma magistral, condensando numa única frase toda a essência da faixa: a verdadeira liberdade não reside no corpo, mas no espírito.
A viagem termina com No Fundo do Desfiladeiro, tema que se inicia com uma passagem de sintetizadores que toca em universos dungeon synth, antes de a composição irromper com toda a sua força. As guitarras desenham um ambiente simultaneamente belo e tenebroso, sustentado por uma melodia hipnótica que rapidamente se entranha na memória. Encerrar um álbum desta dimensão é uma tarefa ingrata, sobretudo depois de quarenta minutos de uma experiência tão intensa, mas Grievance conseguem fazê-lo com uma naturalidade impressionante. Musicalmente, a faixa reúne muitos dos elementos que foram sendo apresentados ao longo da obra, funcionando como uma verdadeira síntese da identidade do álbum. Também a letra assume um papel determinante nesse desfecho: o desfiladeiro surge como o derradeiro destino desta viagem pelas profundezas da existência, um lugar onde a humanidade deixa de ter lugar e apenas subsistem a morte, o desconhecido e o silêncio. É um final inevitável, coerente com o percurso sombrio que a banda construiu desde os primeiros instantes do disco. Nos últimos segundos, a composição abranda de forma quase psicadélica, como se nos concedesse um último momento de contemplação antes do vazio absoluto. E quando Koraxid profere “Onde apenas corpos desfeitos habitam a paisagem”, percebemos que a viagem chegou ao fim… mas a sensação de inquietação permanece muito para lá da última audição.
Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras não é um álbum que procure respostas ou conforto. É uma descida lenta e consciente às profundezas da mente, da natureza e do espírito, onde cada composição representa um novo capítulo de uma viagem marcada pela contemplação, pela dor, pela transformação e, por fim, pela aceitação do inevitável. Grievance demonstram uma maturidade composicional notável, recusando fórmulas fáceis e privilegiando uma escrita rica em atmosfera, dinâmica e emoção, sem nunca sacrificar a ferocidade que define a sua identidade. O resultado é uma obra profundamente imersiva, que exige tempo, atenção e sucessivas audições para revelar todas as suas camadas.
Num panorama onde tantas bandas procuram apenas ser mais rápidas ou mais extremas, Grievance escolhem um caminho bem mais difícil: criar uma experiência e contar uma história. E conseguem-no de forma absolutamente magistral, entregando um dos mais marcantes e completos registos alguma vez produzidos pelo Black Metal português.
Alinhamento:
1 – Floresta Crepuscular
2 – Castelo de Árvores
3 – Promontório dos Espíritos
4 – Em Besta me Transformo
5 – Torturas
6 – Clausura
7 – No Fundo do Desfiladeiro
Banda: Grievance
Álbum: Lúgubres Devaneios De Abismos E Sombras
Data de Lançamento: 5 Maio 2026
Label: Haloran Records & Larvae Records

