A máquina perfeita: Dream Theater em Córdoba, Argentina.
O retorno do Dream Theater à Plaza de la Música trouxe algo incomum para uma banda desse porte: proximidade. Pouco mais de mil pessoas foram suficientes para transformar a noite em uma experiência quase íntima, uma daquelas raras ocasiões em que um grupo acostumado a palcos gigantes fica ao alcance de todos os olhares.
Fazia frio na capital Córdoba. Aquele frio seco que se insinua entre uma música e outra, mas que não conseguiu esfriar a expectativa que se respirava desde cedo.

O início foi pontual e muito sólido. “Metropolis Pt. 1: The Miracle and The Sleeper” marcou o ritmo desde o início, seguida pela sequência de “Scenes from a Memory” — “Overture 1928” e “Strange Deja Vu” — que sempre recebe uma resposta imediata. A banda foi construindo um repertório que equilibrou diferentes fases de sua carreira, com “Panic Attack”, “The Enemy Inside” e “As I Am” mantendo a intensidade.
Um dos momentos mais aclamados aconteceu com “Peruvian Skies”, quando eles se permitiram brincar com trechos de “Wish You Were Here”, do Pink Floyd, e “Wherever I May Roam”, do Metallica — uma homenagem a grandes bandas sem perder o controle do show.
Do ponto de vista cênico, já dava para perceber o funcionamento interno: tudo calculado, tudo no lugar certo. Há pouca margem para a improvisação, mas também não é necessário.

O intervalo — sim, intervalo — dividiu o espetáculo em duas partes. Um recurso pouco comum que acabou reforçando a ideia de estarmos diante de uma obra dividida em capítulos.
Ato II: o lado mais denso
O retorno, no entanto, demorou mais do que o previsto. Um problema de tensão no palco obrigou a prolongar a pausa por mais 15 minutos.
A segunda parte mergulhou de cabeça no material mais recente. Um bloco mais sombrio, mais intimista, com cenografia totalmente renovada e dando prioridade ao conceito e à atmosfera de seu último álbum, “Parasomnia”.

Sempre, a apresentação ao vivo do material novo resulta nos momentos mais exigentes para o público, levando em conta que a última vez que o Dream Theater esteve na cidade foi há 14 anos. A única música que não foi tocada foi “Dead Asleep”. Eles encerraram o set deixando uma das imagens mais inquietantes da noite: um boneco gigante de “The Shadow Man Incident” ocupando o palco, o que reforçou aquele clima denso e conceitual que permeou toda a segunda parte do show.
O último número tinha um nome próprio e, nas telas, apareceu um trecho de “Dead Poets Society”, o filme que inspirou sua composição: “A Change of Seasons”. Uma peça monumental que raramente é apresentada na íntegra ao vivo e que, em Córdoba, foi a verdadeira joia do show. É, por si só, a sua obra-prima, na qual a banda demonstra todo o seu potencial, com mudanças de clima, passagens introspectivas e explosões que constroem a narrativa do metal progressivo.
O encore nos trouxe de volta à realidade após aquela viagem. “The Spirit Carries On” proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite, com a Plaza de La Música totalmente envolvida, sabendo que o fim se aproximava, enquanto “Pull Me Under” surgiu como o gesto final, o clássico que dispensa explicações e que coloca tudo em seu devido lugar.

Mike Portnoy foi o termômetro emocional do show. Animador, cúmplice, sempre buscando o contato com o público, conduzindo o clima dos bastidores, mas com presença constante.
James LaBrie desempenhou seu papel com maestria. Sem exageros, focado em cumprir o que a música exige. O mesmo vale para John Myung, que, com sua discrição, contribuiu com uma solidez absoluta.
E depois há os momentos individuais: John Petrucci e Jordan Rudess exibindo habilidades infinitas com uma naturalidade que desarma qualquer tentativa de análise superficial.

Tudo apresenta um nível de detalhe e perfeição que desafia qualquer tentativa de análise. Desde a qualidade individual até o funcionamento como um todo. O cenário, o som e as luzes se harmonizaram perfeitamente, tornando esse show um momento memorável para todos nós que tivemos o privilégio de estar presentes.

Um agradecimento especial à equipe de produção, que nos proporcionou todo o conforto necessário para desfrutar do espetáculo.

