– Muito obrigado pelo tempo cedido para a equipe da Cultura em Peso. Você pode nos contar como se deu o início do seu projeto ORGANOCLORADOS?

Opa! Tudo bem, nós é que agradecemos a vocês pelo espaço. Bem, vamos lá… A bem da verdade, no início mesmo não havia um “projeto”, a coisa foi avançando conforme uma sucessão de acontecimentos fortuitos e pelo incentivo de pessoas que nos rodeavam na época. A banda nasceu em 1985, num ambiente universitário de Engenharia Agronômica, no interior da Bahia, quando dois jovens estudantes começaram juntos a fazer músicas juntos e tocar para os amigos. Eu era um deles a gente usava as músicas (até hoje isso persiste) para transmitir crítica social e existencial, rebeldia contra o autoritarismo, defesa do meio ambiente e experiências românticas. Começamos a compor em julho e somente em setembro, depois de umas seis ou sete músicas feitas é que cogitamos a ideia de uma banda porque apareceu um colega querendo tocar baixo. Os anos seguintes foram de tanta rotatividade de integrantes que a banda quase acabou, até que em 1990 a formação atual se firmou com André G no baixo, Artur W nas guitarras, violões e voz, Joir Rocha na bateria e percussão e Roger Silva nos teclados e backing-vocals. Daí em diante, tudo ficou mais consistente.

– Gostaria de saber como vocês se definem. Eu particularmente achei o trabalho de vocês voltado para o Classic Rock com elementos brasileiros. Você concorda comigo?

Apesar de ter dificuldade e cuidado em elaborar uma auto definição e uma análise vinda de dentro às vezes seja complicada, vou tentar traduzir aqui um sentimento geral da banda. Se considerarmos a linha do tempo em que nossa história se insere, algo que começou após o ápice do punk rock, e também o entendimento geral de que a música pós-punk muitas vezes incorpora elementos de outros estilos, como gótico, new wave e até mesmo música eletrônica, somos inclinados a pensar a Organoclorados basicamente como uma banda pós-punk. Essa seria uma definição simplificada. Entretanto, considerando a evolução cultural, musical e tecnológica das últimas décadas, o ambiente único que nos cerca e nossas personalidades individuais, vejo que o som que elaboramos vai além do que uma simples mistura ou diversificação. Evitamos ao máximo fórmulas pré-concebidas e do “mais do mesmo”. Como as várias características interagem com diferentes bagagens musicais dos ouvintes, nosso som tende a provocar uma diversidade de reações e compreensões. Por exemplo, já houve comentários e resenhas sobre nós que apontaram laços com o hard rock, o rock psicodélico e o rock progressivo, ou que destacassem os elementos mais experimentais. E até já escreveram que nós repaginamos o pós-punk. É muito enriquecedor conhecer essas diversas impressões sobre o nosso som porque nos ajudam a refletir sobre nosso processo criativo. Gostamos demais quando isso acontece. Penso que o hard rock, o blues rock e o rock psicodélico são partes fundamentais do Classic Rock, algo que logo nos leva principalmente ao rock produzido entre as décadas de 1960 e 1970. Com maior ou menor intensidade, a força da influência desse estilo sempre contribuiu de maneira positiva na elaboração de nossas composições e arranjos, e eu diria que até mesmo em nossas apresentações ao vivo. E sim, os elementos brasileiros aparecem, principalmente aqueles da música regional nordestina. Acho que a “culpa” é de Raul Seixas e Zé Ramalho (risos). Isso acontece muitas vezes de forma instintiva e natural e há casos que só notamos depois que ensaiamos e ouvimos a música várias vezes. Não posso de maneira alguma discordar da sua percepção do Classic Rock e dos elementos da música brasileira e acho super coerente com o que eu comentei acima. Na realidade, fico bastante entusiasmado e agradecido quando recebemos esse tipo de retorno de quem ouve nosso trabalho.

– “Dreams and Falls” é o seu novo lançamento. Como se deu o processo de registro deste material?

Já faz algum tempo que todos os músicos e a banda são registrados numa das maiores entidades do Brasil. Todas as nossas músicas estão também registradas e possuem seus respectivos códigos digitais e de publicação para o devido recolhimento de direitos. Na distribuidora digital em que temos cadastro para os lançamentos, também fazemos todos os trâmites para o registro adequado das canções e álbuns. Por fim, quando do pré-lançamento, também realizamos os registros de informações complementares nas plataformas de streaming, conforme o que cada uma oferece ou solicita, além de certas ferramentas de promoção que procuramos aproveitar. Para o álbum Dreams and Falls, o processo de registro aconteceu de acordo com o que já fazemos normalmente.

– Gostamos muito da qualidade sonora alcançada por você. Suponho que o trabalho em estúdio tenha sido muito tranquilo. O que você pode nos falar sobre esta etapa, até chegarmos no lançamento propriamente dito?

Obrigado! Ficamos felizes em saber, ainda mais sendo opinião qualificada. No processo de produção do álbum anterior, “Saudade da Razão” (2022), com o aprendizado acumulado nos ensaios de pré-produção e gravações preliminares, uma antiga ideia de álbum em inglês ressurgiu, mas o projeto ficou na espera. Em 2023, iniciamos as gravações de músicas inéditas para um álbum em português no Estúdio Jimbo (Alagoinhas-BA) e resolvemos aproveitar a oportunidade para ampliar o trabalho para um número maior de músicas e eventuais versões em inglês. Quase todas as músicas estavam prontas e com arranjos básicos definidos há anos, com exceção de Just for Today, criada entre 2023 e Insecurity, última a ser finalizada pouco antes do início das gravações. Por causa disso, o que a princípio seriam singles para testar a receptividade, depois evoluiu para um EP e enfim chegamos ao álbum. Foram dezenas de horas em estúdio, desde a gravação de guias básicas para definir andamentos e estruturas, depois bateria, baixo e guitarra, arranjos de licks, arpejos, solos e definição de timbres de guitarras e violões, arranjos e timbres de teclados e piano, gravações de vozes e backing-vocals, e inserção de efeitos. Algumas técnicas e estratégias utilizadas nesse processo não posso revelar, e onde faltavam recursos caros e sofisticados, tenha certeza que sobraram compromisso com a qualidade e criatividade. Na reta final, acompanhamos de perto as sessões de mixagem e edição, atentos aos detalhes, selecionando as melhores opções do material gravado e o tempo todo abertos a experimentar, sobretudo nos timbres e efeitos. Uma coisa que foi bem marcante para o resultado final é que decidimos junto com o estúdio por uma masterização específica, diferente da que foi ou seria aplicada às faixas em português, tanto do álbum anterior quanto do que está por vir. Nosso empenho e energia, assim como nos álbuns anteriores, teve como objetivo entregar ao público o melhor que podíamos fazer dentro de um conceito pré-elaborado. Em Dreams and Falls, o conceito busca sintetizar ciclos de alternância entre peso e melodia, sonho e colapso, no limite da mesclagem de melancolia com energia dançante, lançando mão simultaneamente de sonoridades vintage e texturas contemporâneas. Além disso, o intuito sempre foi o de manter um elo de ligação com os trabalhos produzidos e lançados anteriormente, o que reforça nossa identidade musical.

– Artur, eu adorei as linhas mais harmônicas compostas por você. Como funciona o seu processo de composição, neste sentido?

Gratificante saber disso, fico muito feliz. Às vezes também me pergunto como funciona (risos). Na verdade, não tenho um processo de composição pré-definido. Comigo nunca funcionou como algo premeditado, planejado, programado, sabe? Para te responder, o que eu posso fazer é olhar pelo retrovisor, lembrar como foi que aconteceu em diversas canções e tentar identificar alguns padrões. Em primeiro lugar, quando escrevo também as letras, não obedeço a uma ordenação fixa de letra-música ou música-letra. Tem casos até em que as duas são construídas em paralelo. O mesmo ocorre com melodia e harmonia. O ritmo é que na maioria das vezes vem logo de cara, mas mesmo assim não é uma regra imutável. Vou usar a canção Unreal Searches (versão de Buscas Irreais) como um exemplo de como a dinâmica pode parecer aleatória. Por uma mera inspiração que veio em minha mente, eu criei uma harmonia básica em cima de uma sequência repetitiva de acordes e que ficou guardada (ao contrário de muitas, essa eu não esqueci), como se fosse na espera. Lembrei de uma poesia do meu caderno pessoal que parecia se encaixar e depois de várias tentativas (algumas delas apenas mentalmente, sem um instrumento), a melodia básica surgiu e se fixou na minha cabeça (o que para mim indica potencial). Mas ainda faltava alguma coisa porque uma parte da letra pedia uma melodia diferente para dar um desfecho ao sentido do que estava sendo dito. Então, elaborei de forma mais técnica uma outra parte da harmonia para corresponder ao sentimento da letra, o que viria a ser o refrão. À medida que os arranjos instrumentais se desenvolviam e a estruturação se definia, a letra continuou a ser lapidada até ser considerada pronta para fazer parte do repertório. Agora imagine que essas variáveis do processo podem mudar de posição na ordem cronológica, podem acontecer mais rápido ou mais devagar, ou até pode vir tudo de uma vez simultaneamente. Tenho harmonias e melodias que há anos aguardam uma letra e tenho meu caderno pessoal com anotações e poesias que um dia podem virar letras. O que quero demonstrar com isso é que não há uma “receita de bolo” ou uma “formulação química” para o processo. A inspiração inicial pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento, seja pela música (com ou sem um instrumento em mãos), seja pela letra, seja até pelas duas ao mesmo tempo. Frequentemente releio meu caderno ou escrevo coisas novas sem pretensão, e quando necessário tento aplicar o modesto conhecimento teórico que tenho em termos harmonia e composição. No mais, deixo fluir naturalmente, atento para captar as inspirações.

– A arte da capa é bem diferente, fugindo do padrão que estamos acostumados. Qual a mensagem que você quis transmitir com ela?

Desde o início da concepção do álbum, queríamos que a arte da capa representasse o conceito da obra completa, devidamente alinhada ao conteúdo e ao estilo da banda. Não precisava ser de ser algo fora de série, muito extraordinário, mas deveria prezar pelo bom gosto estético, um importante critério. O curioso é que durante quase um ano o álbum teve um título provisório e uma capa definida bem diferentes, praticamente tudo aprovado internamente pela banda. Mas algo ainda não estava 100%, havia a sensação de que não era o ideal. Quando todas as faixas ficaram prontas e o lançamento se aproximava, resolvi visitar mais uma vez arquivos de imagens que tenho guardados no computador e encontrei essa fotografia do Panteón, um monumento localizado no Cemitério de Montjuïc, Barcelona, de autoria de August Urrutia i Roldán. Na imagem original, a escultura de um anjo abatido se destaca, creditada a Josep Campeny i Santamaria. Todos da banda concordaram que a imagem tem ligação direta com o conceito sonho versus colapso e após ouvir sugestões, uma ligeira edição foi suficiente para a formatação. Como não pesquisamos a intenção do autor da escultura, suas motivações ou se havia uma mensagem ele quisesse transmitir, simplesmente deixamos que o efeito daquela obra inspirasse nossa interpretação até resultar na arte final da capa do álbum. Se olhar atentamente, a mensagem é relativamente clara e direta, com uma pequena dose de mistério. A edição acentua um momento de queda e abatimento, que pode ser físico, emocional ou os dois ao mesmo tempo, que também parece ser de reflexão. As asas do anjo estão íntegras e isso indica que ele pode se reerguer e voar novamente, transmitindo resiliência. O que é fascinante é que a subjetividade das interpretações faz o público lembrar de seus próprios sonhos e colapsos, além de sua capacidade de resistir e se recuperar (levantar voo). Gostaria de acrescentar uma parte bem legal que tem a ver com essa elaboração. A arte da capa se tornou uma forma tão clara, até mesmo para nós que produzimos o conteúdo da obra, de transmitir seu significado e seu sentido, que nos obrigou a mudar o título do álbum. Diferente dos álbuns anteriores, foi um processo inverso em que a imagem inspirou a escolha do título.

– Imagino que você já deva estar trabalhando em novas músicas. Poderia nos adiantar como elas estão soando?

Além de um certo número de músicas compostas, várias delas prontas e guardadas para o futuro, temos material gravado para mais duas produções inéditas: 01 álbum em português e 01 EP em espanhol. São músicas que foram selecionadas depois de um conceito estabelecido e o processo de gravação trouxe novidades bem interessantes. No momento, estão na fase final de masterização, as duas produções ainda não possuem cronogramas nem datas de lançamento definidos. O processo de gravação aconteceu de maneira semelhante aos dois álbuns anteriores, mas incorporou novos aprendizados e técnicas. Em termos de sonoridade, a intenção é manter nossa identidade musical, mesmo com algumas novidades e experimentações. Como de praxe, facetas continuarão a se revelar, algumas talvez inusitadas, mas isso também vem a ser uma marca da banda.

– Vocês já estão prontos para excursionar por outras regiões do país? Falo isso, pois depois de escutar o seu material, fiquei curioso para vê-los ao vivo.

Muito bom saber que despertamos essa curiosidade. Tentamos nos manter em forma e estamos atentos às oportunidades que surgem, como por exemplo os shows que já realizamos em Recife e São Paulo. A vontade de tocar no maior número possível de lugares para divulgar e promover nossas músicas é constante, independente de lançar material novo. É lógico que quando se lança um álbum existe toda uma preparação especial, o que temos feito nos shows de 2025 aqui na Bahia, em que o repertório vêm incorporando as músicas do Dreams and Falls. Reconheço que por sermos uma banda do segmento independente, correndo atrás das oportunidades e praticamente fazendo tudo por conta própria, não temos recursos para realizar uma grande turnê de lançamento. Sabemos que nesse segmento as coisas não se viabilizam facilmente e a luta por espaços é constante.

– Como você analisa o mercado fonográfico atualmente? Você acredita que o nicho que você faz parte, permite espaço para novos nomes promissores, como é o caso aqui?

Bem, não sou expert em mercado fonográfico, mas vamos lá. Segundo uma rápida pesquisa que fiz, o mercado fonográfico segue crescendo. Na última década, o avanço do streaming tem sido fenomenal. No Brasil, essas plataformas hoje representam mais de 85% das receitas do setor e, por mais que se haja críticas, essa realidade se impõe no cotidiano do artista. Quando começamos nossa trajetória, a força e a relevância de gravadoras e rádios era enorme, quase total nesse mercado. Mesmo com as mudanças nos formatos tecnológicos, a exemplo do compact disc (CD) e do digital vídeo disc (DVD), as gravadoras e as rádios souberam se adaptar e continuaram muito relevantes no mercado. O primeiro abalo que sofreram foi com o surgimento de certos concorrentes como Napster, MySpace, Dreamule, dentre outros, que levantaram várias discussões sobre direitos e liberação de músicas. Mas foi somente com as

plataformas de streaming que o mercado sofreu uma revolução. A música, enquanto bem de consumo, passou a ter um serviço digital de armazenamento e entrega instantâneos e facilmente acessíveis e nessa área que a mais visível o controle sobre o mercado fonográfico mudou de mãos. Entretanto, não acho que essencialmente mudou muita coisa para os artistas no que se refere aos diversos segmentos como mainstream, show business e independentes, proporcionalmente às diferentes realidades de cada cultura regional ou nacional. O rock autoral independente, alternativo está fora do radar do mainstream, não conta com exposição na grande mídia, e pouquíssimas vezes tem uma chance de ser ouvido e compreendido. Claro, existem bandas e artistas que de vez em quando furam a bolha e a muito custo (inclusive monetário) atravessam a fronteira e gozam de uma promoção passageira. Mas são raras exceções. Limitando nosso olhar dentro dos limites do nicho do qual fazemos parte, vejo que sim, há espaço para nomes promissores, mas ainda assim há uma carência de articulação, coordenação e apoio mútuo. Essa enorme facilidade para se lançar uma música ou até mesmo um EP ou álbum nas plataformas digitais, se por um lado permite um surgimento ininterrupto de novidades, por outro lado também causa uma inundação que dificulta o destaque, a notabilidade. Creio que esse seja um dos grandes paradoxos e um desafio para o artista que ainda se sente pressionado a também atuar como divulgador, promotor, criador de conteúdo visual, marqueteiro, ator, apresentador, videomaker, redator, fotógrafo…

– Mais uma vez obrigado pelo tempo cedido ao site Cultura em Peso. Agora o espaço é seu para as considerações finais

Foi uma honra. Aqui, Artur W, em nome da Organoclorados, quero agradecer a chance de estar aqui conversando com vocês sobre o nosso trabalho. Esse espaço é um meio importante de nos aproximar do público. Apresentei respostas que passaram por sugestões e inserções dos integrantes da banda e assim correspondessem ao que todos pensam em consenso. Você que está lendo, saiba que a Organoclorados faz música sempre com muita paixão, sinceridade e o compromisso de entregar o melhor que podemos criar. Siga-nos e escute nossas músicas nas plataformas digitais de streaming. Inscreva-se em nosso canal no YouYube. Estamos nas mídias sociais: Instagram, Facebook, Tik Tok e Threads.

Força sempre.

André G – baixo; Artur W – guitarras, violões e voz; Joir Rocha – bateria e percussão; Roger Silva – teclados e backing-vocais.

@organoclorados

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