Há noites em que o rock deixa de ser um espetáculo e volta a ser uma comunhão. A apresentação do GUNS N’ ROSES no Estádio Huracán foi exatamente isso: uma reafirmação de relevância, dedicação e memória. Quatro décadas após sua estreia, os nativos de Los Angeles provaram que ainda conseguem agitar um estádio com pura atitude.
A banda abriu com “Welcome to the Jungle”, e o rugido da plateia foi imediato, quase animalesco. A energia do clássico — aquele riff que define uma era inteira — provocou uma ovação de pé que não diminuiu durante toda a noite. Desde o início, o vento soprou forte, balançando o setup e complicando a mixagem, mas o grupo soube se adaptar com profissionalismo. O show foi uma lição de artesanato: quando se tem músicas assim, nada se perde.
Axl Rose (vocal) era o centro das atenções. É verdade que a idade não chega facilmente, mas sua dedicação era total: ele corria, discursava e cantava com determinação. Ele não tentava reproduzir as notas agudas impossíveis dos anos 90; ele as reinterpretava com força e dramaticidade. Em “Rocket Queen”, “November Rain” e “Nightrain”, sua voz encontrou o equilíbrio perfeito entre força e emoção. Raramente um artista consegue transformar a maturidade em um recurso expressivo: Axl conseguiu.
Slash (guitarra), inabalável em seu papel de herói de palco, foi outro eixo vital do recital. Seu volume era alto, às vezes excessivo, mas sua dedicação também: solos de energia feroz, uma mistura de melodia e distorção, especialmente em “Civil War”, “Estranged” e “Sweet Child O’ Mine”. Em diversas ocasiões, o vento chicoteava seus cabelos enquanto ele continuava tocando sem errar uma nota: uma imagem verdadeiramente icônica.
Duff McKagan (baixo), Richard Fortus (guitarra), Isaac Carpenter (bateria), Dizzy Reed e Melissa Reese (teclados) completavam um som sólido e profissional que crescia em sintonia a cada música. No início, houve algumas inconsistências devido ao clima, mas, à medida que o show avançava, a mixagem ganhou força e clareza, com a bateria desempenhando um papel especial, mantendo a batida com precisão cirúrgica.
O repertório era tão extenso quanto equilibrado. Além dos clássicos essenciais, o GUNS N’ ROSES incluiu regravações recentes como “Hard Skool” e “Absurd”, duas músicas que, embora originárias da era da democracia chinesa, ganharam impacto quando retrabalhadas pela formação atual. Também houve espaço para covers que historicamente fizeram parte de sua identidade: “Live and Let Die” (um clássico dos Wings), “Knockin’ on Heaven’s Door” (um hino de Bob Dylan) e “Slither” (uma contemporânea do Velvet Revolver), todas recebidas com absoluto entusiasmo.
O momento mais emocionante veio com “November Rain”. Sob um céu que se movia ao ritmo do vento, o piano de Axl e o solo prolongado de Slash criaram uma cena cinematográfica. A plateia, milhares de vozes em uníssono, transformou a balada em um hino.
A resposta do público foi simplesmente extraordinária. Eles cantaram junto cada verso, até pularam durante as novas músicas e mantiveram um respeito reverente durante os trechos mais íntimos. A conexão entre a banda e o público foi total: cada pausa, cada gesto, cada sorriso foi amplificado pela multidão.
A apresentação de encerramento com “Paradise City” foi épica: sem fogos de artifício, apenas pura eletricidade. O vento ainda soprava, mas a banda o incluiu no show. Axl, exausto, mas sorrindo, acenou para as arquibancadas com gratidão.
Porque sim: o tempo passa, mas há bandas que não envelhecem, apenas se transformam. E o GUNS N’ ROSES, nesta noite portenha, nos lembrou com uma certeza brutal: a selva continua viva.
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