
“Música é a linguagem do espírito. Ela revela o segredo da vida, trazendo paz e acabando com as disputas.” – Kahlil Gibran.
Se pudermos traduzir essa frase em um show, a turnê “Heal Me” da banda austríaca Harakiri for the Sky é a representação perfeita. A passagem pelo Brasil no último final de semana deixou um sentimento que transcendeu o simples “come to Brazil” e se instalou quase como uma catarse coletiva e necessária. A jornada de Post-Black Metal começou em Belo Horizonte, seguiu para São Paulo e teve seu desfecho em Curitiba.
Nesta resenha, a missão será descrever (tentar!) os shows ocorridos nas capitais mineira (Caverna Rock Pub) e paranaense (Basement Cultural). A experiência, embora marcada por alguns desafios técnicos, foi altamente profunda e inesquecível.

Ambos os shows foram espetaculares em termos de performance, peso, público e setlist, mas não vieram sem obstáculos. O principal problema (perceptível) residiu no vocal de J.J., com o microfone falhando em alguns momentos, exigindo um esforço ainda maior.
Em Belo Horizonte, o baixo estava difícil de ouvir em certos pontos, embora o peso das guitarras e da bateria pulsasse nas veias. Já em Curitiba, o baixo estava audível, mas os backing vocals passaram quase despercebidos.
Entretanto, a banda superou cada ruído e dificuldade — detalhes que fazem a diferença! A performance do vocal foi algo inexplicável: uma entrega de corpo e alma que traduzia toda a dor e agonia, mesclada e altamente sincronizada com a melodia e harmonia instrumental que parecia uma sinfonia.
O setlist (quase idêntico nas duas cidades, com uma faixa extra em Belo Horizonte) foi uma viagem profunda pela discografia da banda, privilegiando o peso e as nuances melancólicas que definem o HFTS.

Em ambas as cidades, a performance abriu com “Heal Me“. A faixa-título da turnê serviu como um soco no estômago para iniciar a noite; sua explosão imediata estabeleceu o tom: o show seria uma jornada de “cura” através do caos.
Na sequência, “Fire, Walk With Me” trouxe a primeira grande onda de catarse, com seu groove melancólico. O público já estava entregue, gritando junto em meio aos blast beats e ao peso das guitarras, que felizmente estavam sempre em destaque.
O ritmo seguiu com “With Autumn I’ll Surrender“. Uma das favoritas mais antigas, esta música é um exercício de dinâmica onde as partes mais lentas e reflexivas acentuaram a fragilidade do vocal, antes que os momentos de explosão total empolgassem a plateia.
Na execução de “Funeral Dreams“, o peso se tornou concreto e quase palpável. Em Curitiba, a densidade dos arranjos e o trabalho rítmico da bateria demonstraram a precisão da banda, mesmo com o som ligeiramente abafado.
Logo após, “You Are the Scars” se destacou como um hino que uniu melodia e agressividade, gerando o primeiro grande coro espontâneo. O sentimento da letra foi transmitido perfeitamente pela entrega de J.J., e o público, tanto em Belo Horizonte quanto em Curitiba, abraçou essa emoção.

Quando se pensava que a performance não poderia ser superada, ela foi intensificada em “Without You I’m Just a Sad Song“. Em ambas as cidades, J.J. entregou cada palavra com uma atuação cênica que transformou o palco em um verdadeiro confessionário — e se alguém tinha algum “sentimento para confessar”, esse foi O momento.

O set seguiu com “Sing for the Damage We’ve Done“, que mostrou a evolução e sintonia da banda como um todo. A complexidade das guitarras se encaixou na perfeição, criando uma parede sonora que em Belo Horizonte fez a estrutura do Caverna tremer.
A agressividade retornou com força total em “Homecoming: Denied!“, uma das músicas mais diretas e agressivas do set, servindo como um pico de energia.
Como poderoso prelúdio para o final, foi tocada “Keep Me Longing“. Em Curitiba, a intensidade foi tão maravilhosa que a banda parecia extrair o máximo de cada riff e nota, consolidando um desfecho memorável.
Para o público mineiro, o show contou com uma música extra: “Lungs Filled With Water“. Por ter sido a última, comportou-se como um desfecho monumental. Sua estrutura, que se estende com uma lentidão atmosférica antes de explodir, permitiu uma despedida intensa e carregada de emoção. A melancolia épica característica do Harakiri for the Sky foi sentida em cada nota, dando ao público um presente final de beleza e agonia.
O que realmente uniu e elevou as duas apresentações foi a performance do vocalista. Em Curitiba, ele adicionou um momento à parte ao cantar no meio do público, quebrando a barreira entre artista e fã e transformando a frustração da dificuldade técnica em um momento de união genuína. A banda como um todo, em sua entrega e energia, e essa interação intensa com o público garantiram que a plateia saísse com a certeza de ter assistido a um triunfo.
A Tour “Heal Me” no Brasil foi mais do que três shows (embora apenas dois tenham sido acompanhados por este editorial); foi a prova de que a emoção crua do Post-Black Metal do Harakiri for the Sky pode superar amplificadores e microfones, entregando uma experiência de dor e beleza uníssonas e inigualáveis.
Setlist em Belo Horizonte e Curitiba: descritos na resenha na ordem em que foram tocadas.



