Motorama entrega cerimônia atmosférica no recém-inaugurado Proyecto Kinder
Bogotá viveu uma dessas noites em que não precisa haver fumaça nem discursos para construir um clima inesquecível. No dia 8 de novembro, o recém-inaugurado Proyecto Kinder recebeu o Motorama, e o resultado foi uma cerimônia emocional que deixou o público suspenso entre a nostalgia, a calma e um leve vértigo existencial.
Começando por volta das 22:15, logo que as luzes caíram, ficou claro que a banda russa não veio para improvisar nem buscar protagonismo cênico. Motorama faz o que sabe: aparece, conecta os instrumentos e transforma o espaço em um lugar onde cada eco e cada batida de baixo parecem mais reais do que as próprias luzes do local. Post-punk, minimalismo e intimidade foram as palavras que melhor definiram a entrada da banda.

O recinto, de capacidade média, estava cheio de um público surpreendentemente jovem: fãs do post-punk contemporâneo, seguidores de culto que acompanharam a banda desde “Alps” e “Calendar”, e curiosos que precisaram de apenas alguns minutos para se deixar levar pela cadência hipnótica do grupo. Em um gênero onde as emoções são lidas mais pelo olhar do que pela voz, o ambiente dentro do local era uma mistura precisa de ansiedade suave, expectativa e devoção.
A banda apresentou um repertório que transitou sem atrito entre os clássicos que marcaram sua trajetória e os temas do novo álbum, Sleep, and I Will Sing. Cada canção foi recebida com intensidade diferente: alguns cantavam, outros simplesmente fechavam os olhos e se deixavam levar pelo pulso constante do baixo e pela voz grave de Vladislav, cuja presença não precisa se elevar para causar impacto. Motorama não fala muito no palco, mas comunica profundamente — essa distância calculada não esfriou a sala; ao contrário, tornou-a mais íntima.
Ao longo do concerto, a execução foi limpa, quase cirúrgica. Fieis à estética minimalista, os integrantes se concentraram no ofício de tocar. Nada mais. Nada menos. A interação verbal foi praticamente inexistente, mas nunca soou vazia. Em seu lugar surgiu um tipo diferente de comunicação: um intercâmbio silencioso entre banda e público, onde a música era a única língua permitida.

A plateia respondeu a esse pacto com uma energia constante. Houve coros nos momentos certos, movimentos suaves na penumbra e uma entrega emocional que cresceu a cada faixa. Mesmo quem não dominava todo o repertório sentiu a conexão — os fãs mais dedicados sustentaram o clima, enquanto os recém-chegados vivenciaram uma descoberta quase iniciática.
No fim, ficou a sensação de ter assistido a algo além de um concerto: uma experiência atmosférica, cuidadosamente construída em tons de cinza, azul e ecos repetidos. Motorama não vem apenas para preencher um espaço — vem para criá-lo. E consegue isso sem discursos, sem exageros e sem ornamentos que distraiam do essencial: a emoção crua.
- Artista: Motorama
- Data: 8 de novembro
- Local: Proyecto Kinder — Bogotá, Colômbia
- Fotos: Janis_photography_col
- Promo / Info: Instagram do Proyecto Kinder
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