
Nesta semana, o anúncio de duas datas da banda As I Lay Dying no Brasil (São Paulo e Curitiba), previstas para maio, trouxe à tona uma discussão que o cenário do Heavy Metal prefere, muitas vezes, varrer para baixo do tapete: a responsabilidade moral de quem consome, produz e divulga artistas com históricos criminosos e comportamentos abusivos.
Falar sobre Tim Lambesis, vocalista e líder da banda, não é mais sobre debater um erro isolado do passado. É sobre analisar um padrão de violência que desafia a nossa capacidade de empatia e segurança pública.
Não é segredo para ninguém que Lambesis foi condenado e preso em 2014 por tentar contratar um assassino de aluguel para matar sua então esposa. O que para muitos parecia um caso de “pagou sua dívida com a justiça”, revelou-se, nos últimos tempos, como apenas um capítulo de uma conduta reincidente.
Relatos recentes de sua agora ex-esposa descrevem um ambiente de abusos narcisistas, seguidos por vídeos vazados que mostram o vocalista agredindo violentamente o cão da família. A gravidade desses atos é tamanha que causou uma debandada geral: todos os integrantes do As I Lay Dying deixaram o grupo recentemente, alegando que não poderiam mais compactuar com as atitudes de Lambesis. No entanto, em uma manobra puramente comercial, novos músicos foram contratados para garantir que a “marca” continuasse gerando lucro.
Por que precisamos falar sobre isso agora?
No Brasil, os números de feminicídio e violência doméstica são alarmantes e crescem a cada estatística oficial. Da mesma forma, a conscientização sobre o bem-estar animal tornou-se uma pauta central da nossa sociedade. Ao ignorar o histórico de um artista que personifica esses tipos de violência, o mercado da música envia uma mensagem perigosa: a de que o talento (ou o lucro que ele gera) justifica qualquer atrocidade.
Trazer Lambesis ao país neste momento é ignorar a voz das vítimas e minimizar o impacto de suas ações. O Metal sempre foi um estilo que pregou a união, o questionamento e a força contra a opressão. Como podemos, então, bater cabeça diante de alguém que utiliza de sua força para oprimir os mais vulneráveis?A realização de shows de artistas com este perfil coloca uma lupa sobre as produtoras e os patrocinadores. É necessário questionar: qual é o limite do entretenimento? Será que a conveniência de um “lineup” de peso vale o risco de validar alguém com condutas tão desviantes?
A liberdade de expressão e a arte são pilares fundamentais, mas a segurança física e psicológica de mulheres e animais é inegociável. Separar a obra do artista torna-se uma tarefa impossível quando a própria obra serve de plataforma para que o agressor continue em evidência, impune socialmente.
Acreditamos que o Metal é mais do que apenas música; é uma comunidade. E em uma comunidade saudável, o agressor não deveria ter palco. É preciso que público, produtores e mídia especializada reflitam se o preço do ingresso vale o silêncio diante de crimes tão graves. Em um país que luta diariamente para proteger suas mulheres e seus animais, aplaudir Tim Lambesis soa como um passo atrás na nossa própria evolução como sociedade.
IMPORTANTE: EM CASOS DE VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES E ANIMAIS, DENUNCIE IMEDIATAMENTE.


