
O ano é 2026, mas olhar para trás e analisar 2025 revela um cenário que foi quase impossível de acompanhar em tempo real. Entre lançamentos monumentais e shows inesquecíveis, uma das surpresas incríveis veio de Maringá/PR: o terceiro álbum da Ember Brick. Lançado em junho de 2025 com o selo de qualidade da Forest Lab Studio, o trabalho homônimo é uma aula de como fundir o Stoner/Doom à psicodelia clássica das décadas de 60 e 70.
O trio paranaense entrega um álbum de construção orgânica, onde a cadência e a intensidade ditam as regras. Para os ouvidos mais “conservadores”, a densidade das faixas remete imediatamente à fase áurea do Black Sabbath setentista. Um dos grandes diferenciais, no entanto, é o timbre de Guilherme Marin (Marinauta). O vocalista e baixista consegue o feito de destoar dos graves profundos de seu instrumento e dos riffs densos da guitarra, criando uma camada que se encaixa com precisão praticamente cirúrgica na proposta sonora da banda.
A abertura com “Medusa“ já estabelece o tom: densa, pesada e com aquele sotaque sabbathico que todo fã do estilo respeita. Em seguida, “The Witch Is on the Loose” flerta com o progressivo em seu início, mas logo explode em peso com um vocal mais agudo e estreito, lembrando o Ozzy em início de carreira — uma harmonia que domina o ouvinte por completo.
Em “The Cave”, o trio resgata a essência do estilo. É fascinante notar como uma gravação de 2025 consegue soar tão atemporal, honrando influências clássicas sem perder a identidade própria. Já em “The Wizard Is Never Late”, notamos uma certa reverência ao universo de Tolkien. A música faz jus ao título: as linhas de baixo aqui são hipnotizantes, conduzindo o ritmo como se o próprio Gandalf estivesse ditando o passo da jornada (remetendo, inclusive, à estética das animações de fantasia dos anos 70), e que um mago, nunca se atrasa.
A metade do disco nos traz “No One Knows”, uma espécie de “balada obscura” com vocais mais graves, seguida pela surpreendente “Mount Olympus”. Esta última é uma instrumental acústica rapidíssima que revela a versatilidade técnica do trio, que não teme arriscar caminhos fora da distorção pesada.
Após a vibrante “Stone of Freedom”, chegamos a “Cyborg”. Aqui, a bateria apresenta uma levada mais “quebrada”. Embora a execução seja impecável, nota-se um refrão que parece propositalmente “desencaixado” — algo que, para quem acompanhou a banda abrindo para o Stoned Jesus em Curitiba (outubro/2025, leia review aqui), sabe que funciona organicamente no palco, onde a crueza do som se sobressai.

O bloco final com “Alive” e “Cronos” mergulha de vez no Doom Metal. A estrutura de composição da Ember Brick brilha aqui: um início arrastado que culmina em explosões de riffs densos. Após o baixo em “Pandora’s Box”, a faixa-título “Ember Brick” traz uma pegada mais ríspida, lembrando em certos momentos a crueza do álbum Bleach do Nirvana, mas sem abandonar o dna do Stoner.
O desfecho fica por conta de “Icarus“, possivelmente a melhor faixa do disco. Ela atua como um resumo de tudo o que foi apresentado: psicodelia moderna, efeitos de distorção vocal interessantes e uma atmosfera de encerramento perfeito.
O álbum da Ember Brick é um manifesto de resistência do rock pesado paranaense. É um álbum que não tenta inventar a roda, mas a faz girar com uma força e um brilho que poucas bandas atuais conseguem atingir. Se o objetivo era criar um clássico instantâneo do underground nacional, o trio de Maringá cumpriu a missão com êxito!
Ember Brick:
Gustavo Costenaro: bateria (gravação do álbum)
Marinauta: vocal/baixo
Andre Borela: guitarra
1.Medusa
2.The Witch Is on the Loose
3.The Cave
4.The Wizard Is Never Late
5.No One Knows
6.Mount Olympus
7.Stone of Freedom
8.Cyborg
9.Alive
10.Cronos
11.Pandora’s Box
12.Ember Brick
13.Icarus

