Começamos o mês de fevereiro da melhor forma possível. No domingo, 01 de fevereiro, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi tomado por uma noite incrível, intensa e memorável, dedicada ao melhor do metal sinfónico e das suas vertentes mais modernas. Pelas mãos da Prime Artists, Epica, Amaranthe e Charlotte Wessels dividiram o palco na passagem da Arcane Dimensions Tour.

Com o público em grande peso desde cedo, a banda neerlandesa liderada por Simone Simons regressou a Lisboa em grande estilo, entregando um concerto absolutamente arrebatador, sustentado por metal sinfónico de alto nível, uma produção visual impressionante e uma execução técnica irrepreensível. Um daqueles concertos que reforçam, sem qualquer esforço, o motivo pelo qual os Epica são tão aclamados e profundamente queridos pelo público português.

A acompanhá-los, tivemos os suecos Amaranthe, em estreia absoluta em Lisboa, trazendo o seu autointitulado “Massive Modern Metal”, num concerto explosivo e extremamente físico. E a abrir a noite, com uma elegância emocional arrebatadora, a presença encantadora de Charlotte Wessels, ex-vocalista dos Delain, que preparou o terreno com uma atuação simplesmente belíssima.

CHARLOTTE WESSELS

CHARLOTTE WESSELS @ Coliseu dos Recreios - Lisboa | Ph: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso
CHARLOTTE WESSELS @ Coliseu dos Recreios – Lisboa | Ph: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso

Às 19:05, Charlotte Wessels e a sua banda deram início à noite, já com uma sala muito composta, praticamente cheia. O setlist abriu com o meu tema favorito, “Chasing Sunsets”, seguido sem pausa por “Dopamine”. Logo após, Charlotte mostrou-se feliz por estar ali, elogiando Lisboa e o público, criando de imediato uma ligação com a plateia.

Para muitos dos fãs presentes, os Delain continuam a ser uma referência forte, e a presença da sua antiga vocalista ativou esse lado sentimental desde o primeiro minuto. E sejamos honestos: Charlotte é magia pura. A sua presença é cativante, hipnótica até, conduzindo o público com naturalidade absoluta. Entre sorrisos, simpatia e uma carga emocional intensa, ela carrega na voz e nos gestos um peso expressivo enorme.

O cenário era lindíssimo. Simples, mas longe de ser básico. O pedestal adornado com girassóis dava um ar quase místico, reforçando essa aura que a envolve em palco. A banda que a acompanha, composta também por ex-membros dos Delain, é um complemento perfeito, com clara sintonia entre todos. Destaque especial para a tecladista Nina van Beelen, cuja voz angelical se misturava em vários momentos de forma absolutamente sublime com a de Charlotte.

O set continuou com temas como “The Crying Room”, “Tempest” e “After Us, The Flood”, culminando num encerramento poderoso com “The Exorcism”. Antes de a tocar, Charlotte avisou que aquele seria o último tema e que teria de se despedir, arrancando uma reação coletiva de tristeza do público, o que só reforça o quanto a atuação estava a ser apreciada. Mas longe de baixar a energia, o público continuou a absorver cada segundo. Nesta última malha, Charlotte entrega também guturais e uma performance intensa, chegando mesmo a se atirar ao chão.

Foram pouco mais de 30 minutos de concerto, despedindo-se com carinho, contemplando o público lentamente, num momento muito emotivo. Saíram fortemente aplaudidos e ovacionados, deixando claro que isto vai muito além do rótulo de “ex-Delain”. Há identidade própria, maturidade artística e muito ainda para oferecer. Uma abertura belíssima!

AMARANTHE

AMARANTHE @ Coliseu dos Recreios - Lisboa | Ph: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso
AMARANTHE @ Coliseu dos Recreios – Lisboa | Ph: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso

Às 20:10, chegou o momento da estreia em Lisboa dos suecos Amaranthe, trazendo a sua proposta ousada e multifacetada de Massive Modern Metal. Num palco extremamente iluminado, os três vocalistas Elize Ryd, Nils Molin e Mikael Sehlin, destacavam-se desde o primeiro instante, alternando e complementando estilos vocais distintos, numa fórmula ambiciosa que, no caso deles, funciona de forma impressionante.

Após a intro, “Fearless” abriu o setlist de forma explosiva, com o público já completamente entregue. Sem pausas, seguiram-se “Viral”, “Digital World”, “Damnation Flame” e “Maximize”, cada uma elevando ainda mais o nível de animação na sala.

É um concerto extremamente interessante de se observar. Três vocalistas em constante interação, com timbres e abordagens diferentes, garantem um ritmo sempre dinâmico. A voz delicada e versátil de Elize, a potência técnica de Nils e os guturais agressivos de Mikael criam uma alternância constante que mantém o público sempre atento. A interação com a plateia fica sobretudo a cargo dos vocalistas masculinos, que mantêm diálogo frequente e bem-humorado.

O set continuou com “Strong”, “PvP” e “Crystalline”, esta última num dueto lindíssimo entre Nils e Elize, onde ela começa mostrando uma voz angelical, quase lembrando aquelas vozes clássicas de princesas Disney, enquanto o público responde levantando as lanternas dos telemóveis. Seguiram-se “BOOM!1”, agora com mais presença e peso, depois “The Catalyst”, “Re-Vision”, “Chaos Theory”, “Amaranthine”, “The Nexus” e “Call Out My Name”, fechando o primeiro bloco antes do encore.

Todo o alinhamento funcionou muito bem como uma verdadeira montanha-russa de emoções, alternando entre faixas mais pesadas, melódicas e até mais introspectivas. Em nenhum momento o público perdeu o entusiasmo, esteve entregue do início ao fim.

Após uma breve saída, regressaram para o encore com “Archangel”, “That Song” e “Drop Dead Cynical”. Nils e Elize aproveitaram para falar sobre esta ser a primeira vez em Lisboa, afirmando que a experiência estava a superar todas as expectativas. Pediram então que todos olhassem diretamente para a câmara do filmmaker no palco, para que aquele momento ficasse registado e guardado para sempre.

A despedida, por volta das 21:30, foi calorosa e completamente ovacionada, enquanto tocava “Separate Ways (Worlds Apart)” dos Journey tocava no som mecânico. Um concerto que prova que arriscar, misturar estilos e exagerar sem medo pode resultar muito bem!

EPICA

EPICA @ Coliseu dos Recreios - Lisboa | Ph: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso
EPICA @ Coliseu dos Recreios – Lisboa | Ph: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso

Agora, com a ansiedade em níveis máximos e o Coliseu lotado, era a vez dos Epica estrelarem a noite. Logo no início, surge a contagem no ecrã e um personagem mascarado abre o concerto, desejando boa noite e fazendo um pedido simples, mas poderoso: presença total! Um convite claro para deixarmos os telemóveis, porque aquela noite era de todos nós.

Sem demora, explode “Apparition”, tema do álbum mais recente, Aspiral (2025), num cenário futurista, extremamente iluminado e repleto de elementos visuais e estímulos. Simone Simons surge no centro, elevada, envolta em véus e com pouca iluminação, teatral, como uma entidade. E nem foi preciso qualquer apelo: o público já estava em completo delírio. Finalmente, o momento aguardado tinha chegado!

Sem pausas para respirar, o set segue com “Cross the Divide”, também do álbum recente, agora com Simone à frente do palco, de óculos, mantendo essa estética futurista tão bem construída. Ela, claro, continua a ser o centro absoluto das atenções, não apenas pela presença e beleza, mas por uma voz que dispensa apresentações e que só arranca elogios.

O concerto então faz uma viagem ao passado com “Martyr of the Free Word”, do Design Your Universe (2009), para logo regressar ao presente com “Eye of the Storm”, mergulhando-nos numa tempestade criada pelas projeções no ecrã. Seguiram-se “Unleashed” e “Never Enough”, esta última retirada do The Divine Conspiracy (2007), reforçando essa ponte constante entre diferentes fases da banda.

Tudo ali era bonito, impactante e muito bem pensado, sustentado por uma estrutura moderna que acompanhava cada faixa e nos colocava dentro dessa atmosfera proposta pela banda. O público estava imparável: cantos em coro, punhos erguidos, cabeças a rodar sem parar, totalmente absorvidos por aquele espetáculo.

Um dos meus momentos favoritos da noite veio com o regresso de Charlotte Wessels ao palco para o dueto em “Sirens – Of Blood and Water, diretamente do álbum The Alchemy Project (2022). A sala mergulhou num nevoeiro denso, e no centro do palco víamos Simone e Charlotte, envoltas pela escuridão, a complementarem-se em perfeita sintonia. Um momento hipnótico e profundamente bonito.

Num registo mais introspectivo, entra “Tides of Time”, agora com piano em palco, e novamente os telemóveis surgem com as lanternas apontadas para o alto. Mas não demorou para sermos arrancados desse transe com “The Grand Saga of Existence”, uma explosão de elementos visuais que voltou a energizar a sala.

Chegava então o momento de regressar bem ao início da história da banda, com “Cry for the Moon”, do álbum de estreia The Phantom Agony (2003). A reação foi imediata e avassaladora. Este foi, sem dúvida, um dos grandes pontos altos da noite. O teclista Coen Janssen desceu ao pit, tocando junto à grade, enquanto o guitarrista Isaac Delahaye também aproveitou para descer e pendurar-se. Para completar, todos os membros interagiam constantemente com as câmaras de palco. Não houve muitas pausas para conversa, mas também não eram necessárias. Cada olhar, cada gesto, cada sorriso comunicava tudo. Aquilo foi criado para ser vivido, segundo a segundo, numa experiência visual e sonora.

Sem descanso, segue-se “Fight to Survive”, numa espécie de quase despedida. Simone então para para falar um pouco, dizendo que, se tivéssemos gostado, ainda havia mais. O público respondeu à altura, gritando sem hesitar. E assim vieram “The Last Crusade”, seguida de “Beyond the Matrix”, com banda e público a saltarem em sincronia.

Às 23:20, ao som instrumental de “Aspiral”, os Epica encerram o concerto sem prolongar despedidas. No ecrã, apenas um “MUITO OBRIGADO”. O público, por um instante, pareceu confuso com o fim abrupto, mas rapidamente percebeu que sim, tinha acabado. E respondeu como devia: aplausos longos e ovações fervorosas.

É daquelas experiências que dispensam rodeios. Sustenta-se na entrega, na energia e na força do espetáculo. Um concerto belíssimo de se ver, intenso do início ao fim e, sem dúvida, a forma perfeita de dar o pontapé inicial no mês de fevereiro!

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