Na passada sexta, 28 de fevereiro, os suecos Avatar regressaram a Lisboa, desta vez ao LAV – Lisboa Ao Vivo, como parte da sua tour europeia In the Airwaves. A banda trouxe uma sala cheia de fãs para o seu já conhecido “freakshow” divertido e insano, numa noite organizada pela Prime Artists.

A última passagem da banda por Lisboa tinha acontecido no ano anterior, quando abriram para os Iron Maiden, e a expectativa para este regresso em nome próprio era grande. E não era para menos: já tinham passado três anos desde a última vez que vieram à capital portuguesa como cabeça de cartaz.

Para completar o cartaz, tivemos dois convidados muito especiais. Os Alien Weaponry, diretamente da Nova Zelândia, trouxeram o seu thrash/groove metal carregado de referências à cultura Māori. Já as Witch Club Satan, vindas da Noruega, apresentaram o seu feroz e ritualístico feminist black metal.

WITCH CLUB SATAN

Witch Club Satan @ LAV - Lisboa Ao Vivo | Photo: @pmgama & @culturaempeso
Witch Club Satan @ LAV – Lisboa Ao Vivo | Photo: @pmgama & @culturaempeso

Pontualmente à hora marcada, às 19:30, foi dada a largada para o culto do trio feminino de feminist black metal diretamente da Noruega, Witch Club Satan, que fez a sua estreia em Lisboa e ficou responsável por aquecer a noite.

O trio identifica-se como bruxas e aposta num visual marcante. Com corpse paint, figurinos característicos e chifres, o concerto mergulha numa atmosfera escura, criando a sensação de um ritual macabro. Ao mesmo tempo, traz aquela ferocidade e crueza do black metal misturada com pitadas de punk nos gritos e na atitude. As músicas funcionam como feitiços, transformando o ambiente num espaço denso e carregado.

O setlist teve como base o álbum de estreia homónimo, lançado em 2024, passando por faixas como “Fresh Blood, Fresh Pussy”, “Mother Sea”, “Black Metal Is Krig”, fechando com “Solace Sisters”.

Ao meio do concerto, após uma breve pausa, o trio regressou ao palco praticamente nu, chocando ainda mais a audiência. A performance claramente provocou reações fortes. Muitos espectadores ficaram atentos e curiosos, observando cada movimento. Ainda assim, à medida que o set avançava, a plateia foi sendo conquistada, ainda que de forma mais contemplativa do que agitada.

A proposta teatral pode ser desconfortável para alguns, mas também é exatamente esse o ponto. É provocação, é protesto, é afirmação. É muito bom ver mulheres fortes ocupando o palco para se expressarem da forma como se sentem livres. É para chocar, é para provocar reflexão, e acima de tudo, é impossível ignorar!

ALIEN WEAPONRY

Alien Weaponry @ LAV - Lisboa Ao Vivo | Photo: @pmgama & @culturaempeso
Alien Weaponry @ LAV – Lisboa Ao Vivo | Photo: @pmgama & @culturaempeso

Às 20:15 foi a vez dos incríveis Alien Weaponry tomarem o palco, trazendo o seu pesado thrash/groove metal diretamente da Nova Zelândia. Todos os membros têm ascendência Māori e utilizam frequentemente o idioma nativo da Nova Zelândia, te reo Māori, em várias canções, perpetuando histórias, mitos e elementos da sua cultura ancestral através do metal.

Reconhecidos como um dos nomes mais interessantes e inovadores do metal na última década, os Alien Weaponry possuem uma energia absolutamente explosiva ao vivo. Diferente da proposta mais sombria da banda anterior, a sua entrada desencadeou moshs e circle pits, evoluindo rapidamente para uma sequência incansável de crowd surfings desde os primeiros momentos da sua aparição no palco. Era definitivamente o momento de se jogar no caos!

Ao subirem no palco, executaram um haka com grande convicção e atitude, dando início ao curto setlist, mas muito bem estruturado, passando por temas dos álbuns Te Rā (o mais recente, lançado em 2025) e (álbum de estreia de 2018), passando pelas faixas “Rū Ana Te Whenua”, “Te Riri o Tāwhirimātea”, “Mau Moko”, “Taniwha” (originalmente com a colaboração de Randy Blythe dos Lamb of God) e “Kai Tangata”.

O concerto foi de intensidade máxima do início ao fim. A conexão entre banda e público foi imediata. O trio mostrou-se extremamente coeso, pesado e carregado daquela crueza tribal que se tornou marca da banda. Cada integrante demonstra enorme talento e presença de palco.

Existe ali uma força que é simultaneamente cultural e musical. Mesmo com toda a agressividade sonora, conseguem equilibrar tudo com refrões mais melódicos, criando uma dinâmica que mantém o público envolvido sem cansar.

A banda já tinha ali reunido muitos fãs que claramente os conheciam, mas é certo que também conquistaram vários novos naquela noite, inclusive eu. Fiquei realmente impressionada e já esperando uma nova oportunidade para revê-los… torcendo para que seja em breve!

AVATAR

Avatar @ LAV - Lisboa Ao Vivo | Photo: @pmgama & @culturaempeso
Avatar @ LAV – Lisboa Ao Vivo | Photo: @pmgama & @culturaempeso

Por volta das 21h, o público já ansiava pelas estrelas da noite, com a sala cheia e fãs em peso. Menos de um ano depois de abrirem o concerto dos Iron Maiden, às 21:05 em ponto vimos começar este grande freakshow, mas agora em nome próprio.

Nesta tour europeia In the Airwaves, os suecos vieram apresentar o novo álbum Don’t Go To The Forest, lançado em outubro de 2025, e naturalmente o setlist deu grande destaque a este trabalho.

Após entrarem lentamente, integrante por integrante, abriram a noite com “Captain Goat”, num ambiente mais obscuro, com fumaça no palco. O frontman Johannes Eckerström surge então no centro, encapuzado, segurando uma lâmpada, permanecendo assim até ao final da faixa. Logo ali já se sente a atmosfera teatral que marca a identidade da banda. Um universo visual que mistura horror, submundo e espetáculo. Nem é preciso dizer que o público já estava completamente em transe, cantando e reagindo desde o primeiro momento.

Mas o concerto não se limitou ao novo álbum. A banda fez questão de revisitar diferentes momentos da sua carreira, agradando especialmente aos fãs mais antigos. A sequência seguiu com “Silence in the Age of Apes”, do álbum Hunter Gatherer (2020), e ali já não havia espaço para introspecção: os primeiros crowd surfers começaram a passar por cima das nossas cabeças.

Sem grandes pausas, mergulhamos ainda mais no passado com “The Eagle Has Landed”, do álbum Feathers & Flesh (2017), com o público cantando em coro e a energia da sala a subir cada vez mais.

Após esta, Johannes fez a primeira pausa para conversar com a plateia, distribuindo elogios à malta: “You’re very special. It’s good to see you, my friends. I’m very excited.” Ele termina dizendo “Avatar lives in the air…”, dando o mote para “In The Airwaves”, recebida com enorme entusiasmo. Moshs e crowd surfings tornavam-se cada vez mais intensos.

Todos os integrantes são um espetáculo à parte. Muito performáticos, técnicos e extremamente sólidos nos seus instrumentos, mas é impossível negar que Johannes é o grande centro gravitacional do palco com seu jeitinho freaky. Carismático, excêntrico, simpático e absolutamente teatral, ele conduz o público com naturalidade.

Em outra pausa, Johannes regressa caracterizado com seu chapéu, casaco vermelho e bengala, preparando o terreno para “Bloody Angel”, clássico do álbum Hail the Apocalypse (2014). Aqui a sala inteira canta em coro enquanto cabeças rolam em perfeita sincronia, tanto no palco como na plateia.

A seguir vieram “Death and Glitz” e, indo mais ao passado, para o álbum Black Waltz (2012) com “Blod”. Em mais um momento de interação, Johannes provoca o público: “Lisbon… you make me feel dirty…”. E claro, todos sabiam o que vinha a seguir: “The Dirt I’m Buried In”, única passagem pelo álbum Dance Devil Dance (2023).

“Colossus” chega muito celebrada, com a banda montando uma bateria reduzida à frente do palco para que todos os integrantes fiquem alinhados de frente para o público. “Torn Apart” aparece como aquela velha amiga que os fãs de longa data adoram reencontrar.

Depois, o espetáculo entra numa fase mais introspectiva. Um piano é colocado à frente do palco e Johannes toca um breve trecho de “Over the Rainbow”, clássico de Harold Arlen e Yip Harburg. Aqui acontece também a maior pausa para conversa da noite.

Vestindo a sua autodenominada “piano jacket”, Johannes mostra toda a sua elegância e carisma, agradecendo ao público. Ele recorda que, quando a banda veio em nome próprio anos atrás, infelizmente não havia tanto público. Desta vez, porém, a história foi diferente. A sala cheia parecia uma vitória feliz e partilhada. Mantendo-se ao piano, segue “Howling at the Waves”, criando um momento mais contemplativo e hipnótico.

O palco escurece e ouvimos “Glory to Our King” no som mecânico enquanto um trono é colocado no centro. Era a deixa para regressarmos a Avatar Country (2018) com “Legend of the King”, com o guitarrista Jonas “Kungen” Jarlsby no centro das atenções, sentado no trono.

O concerto já ultrapassava 1h30, mas é daqueles espetáculos que nunca deixam a energia cair. A mistura de teatralidade, humor, horror e música cria uma experiência que mantém o público constantemente entretido. “Let It Burn” e “Tonight We Must Be Warriors” encerraram o primeiro ato antes do encore. Mas os fãs sedentos gritavam para mais.

Logo depois, a banda regressa com “Don’t Go in the Forest”. Johannes aproveita para mais uma pausa longa e divertida, avisando que talvez restassem uma… ou duas músicas. O público reage entre tristeza e entusiasmo. Num momento hilariante, ele é vaiado em tom de brincadeira e responde simplesmente “Ok, bye”, vira-se e finge sair em tom de deboche. A plateia ri e chama por ele. E ele chega confirmando que seriam duas músicas.

Antes disso, ainda cheira teatralmente as axilas e comenta “smells like…”, e assim prepara o terreno para “Smells Like a Freakshow”, que transforma a sala numa autêntica festa caótica.

Para fechar com chave de diamante, veio “Hail the Apocalypse”, acompanhada por explosões de papéis lançados para a plateia. Foi o último momento de cabeças rolando em sincronia, com todos absorvendo cada segundo.

Após duas horas de espetáculo, o concerto termina em grande. A banda permanece bastante tempo à frente do palco, contemplando o público com gratidão enquanto toca “We’ll Meet Again”, de Vera Lynn, no som mecânico.

Só posso dizer uma coisa: BRAVO!

E aqui vai um pequeno fun fact: eu não era exatamente uma grande fã da banda, principalmente por ser um estilo um tanto fora da minha zona mais voltada ao metal clássico e extremo. Mas nesta noite… eles ganharam uma nova fã. E agora estou obsessiva. Realmente, é impossível resistir a este espetáculo!

Um agradecimento especial à Prime Artists por mais um grande concerto impecável. Até o próximo!

MAIS FOTOS AQUI:

SETLIST AVATAR:

  1. Captain Goat
  2. Silence in the Age of Apes
  3. The Eagle Has Landed
  4. In The Airwaves
  5. Bloody Angel
  6. Death and Glitz
  7. Blod
  8. The Dirt I’m Buried In
  9. Colossus
  10. Torn Apart
  11. Howling at the Waves
  12. Glory to Our King (SOM MECÂNICO)
  13. Legend of the King
  14. Let It Burn
  15. Tonight We Must Be Warriors
    ENCORE
  16. Don’t Go in the Forest
  17. Smells Like a Freakshow
  18. Hail the Apocalypse
Facebook - Comente, participe. Lembre-se você é responsável pelo que diz.