No passado sábado, dia 11 de julho de 2026, Sortelha vestiu-se de preto e viveu um dia que dificilmente será esquecido. A histórica aldeia recebeu a primeira edição do Cerco de Sortelha, um festival que reuniu alguns dos mais sonantes nomes do metal nacional, como Toxikull, Okkultist, Sigilo, e muito mais. Se as expectativas eram elevadas, a realidade conseguiu superá-las pois viveu-se uma autêntica celebração da música pesada: um dia intenso, marcado por grandes atuações, um ambiente de enorme camaradagem e uma organização que permitiu que tudo decorresse de forma irrepreensível.

Há festivais que nascem com potencial e há festivais que já nascem como uma certeza. A primeira edição do Cerco de Sortelha, realizada no passado sábado, 11 de julho, mostrou precisamente isso. Num cenário absolutamente único, a magnífica Aldeia Histórica de Sortelha serviu de palco a um evento dedicado ao metal underground nacional que superou largamente as expectativas. A adesão do público foi impressionante para uma estreia, enchendo o recinto com fãs vindos de vários pontos do país e criando um ambiente de enorme entusiasmo ao longo de todo o dia.
Com entrada gratuita, zona de campismo disponível e uma organização que aparentou funcionar de forma exemplar, o festival proporcionou todas as condições para que o público apenas tivesse de fazer uma coisa: desfrutar da música.
O cartaz foi, sem dúvida, um dos grandes trunfos desta primeira edição. Reunindo alguns dos nomes mais relevantes do panorama underground português, o Cerco de Sortelha apresentou uma programação diversificada que percorreu diferentes vertentes da música pesada, do black metal ao death metal, passando pelo heavy metal, doom, sinfónico, punk e outras sonoridades extremas. Essa diversidade, aliada à qualidade das bandas convidadas, garantiu um dia repleto de atuações memoráveis, capazes de satisfazer tanto os fãs mais dedicados a um género específico como aqueles que simplesmente procuravam celebrar o melhor que o metal nacional tem para oferecer.
EDEN’S APPLE
A responsabilidade de abrir um festival nunca é tarefa fácil, mas os Eden’s Apple fizeram muito mais do que isso. Coube à banda de Leiria inaugurar não só a primeira edição do Cerco de Sortelha, como também escrever as primeiras páginas da história do metal ao vivo na aldeia histórica. Com o sol ainda impiedoso a fazer-se sentir, o recinto já contava com uma moldura humana muito expressiva, sendo evidente que muitos dos presentes tinham feito questão de chegar cedo precisamente para assistir à atuação da banda.
Liderados pela carismática Marina Silva, os Eden’s Apple entraram em palco e apresentaram o seu Melodic Death/Symphonic Metal com uma confiança contagiante e rapidamente conquistaram o público. A vocalista destacou-se pela versatilidade entre os poderosos registos operáticos e os vocais mais agressivos, enquanto o restante coletivo demonstrou um nível técnico irrepreensível. As guitarras desfilaram riffs pesados e melodias envolventes com uma naturalidade impressionante, o baixo manteve uma base sólida e a bateria foi o verdadeiro motor da atuação, conduzindo cada tema com precisão e intensidade.
Musicalmente, a banda apresentou uma proposta rica e muito bem equilibrada, onde o peso do melodic death metal se funde com a grandiosidade do metal sinfónico. As melodias épicas e os arranjos atmosféricos encaixaram na perfeição com riffs pujantes e uma secção rítmica sempre sólida, criando uma dinâmica que tanto convidava ao headbanging como à contemplação. A alternância entre passagens mais rápidas e explosivas e momentos mais melódicos conferiu profundidade às composições, enquanto os contrastes entre os vocais líricos e os registos mais extremos deram uma identidade muito própria à atuação. O resultado foi um concerto envolvente do primeiro ao último tema, capaz de prender tanto quem já conhecia a banda como quem a descobriu pela primeira vez em Sortelha.
Por fim, os Eden’s Apple deixaram a fasquia bem alta logo desde o início do festival e provaram que a sua presença no cartaz estava longe de ser apenas simbólica.

LORD OF CONFUSION
Do metal sinfónico dos Eden’s Apple navegámos para as atmosferas densas e sufocantes do doom metal dos Lord of Confusion. Novamente, vindos de Leiria, coube à banda transportar o público para um universo completamente distinto, onde o peso dos riffs e a construção lenta das músicas substituíram a velocidade e a grandiosidade da atuação anterior. Foi apenas pena que o concerto ainda decorresse sob a luz do dia, já que a identidade da banda parece pedir um ambiente mais sombrio. Ainda assim, isso em nada afetou a prestação do quarteto, que subiu ao palco com a intensidade de quem encarava aquele concerto como se fosse o último.
Ao longo da atuação, os Lord of Confusion mostraram porque são hoje uma das maiores referências do doom nacional. Os temas desenharam uma viagem envolvente por paisagens sonoras pesadas e melancólicas, onde riffs monumentais se cruzaram com sintetizadores de inspiração vintage, criando ambientes quase cinematográficos. Cada tema parecia um capítulo de um mesmo ritual, mantendo uma coerência impressionante do primeiro ao último minuto.
No centro de tudo esteve, naturalmente, Carlota. A vocalista voltou a demonstrar porque possui uma das vozes mais distintas da cena nacional, alternando momentos etéreos com interpretações carregadas de emoção e intensidade. A complementar esse registo surgiram as segundas vozes agressivas de João, criando um contraste perfeito entre o lado mais melódico e a vertente mais visceral da banda. Instrumentalmente, os Lord of Confusion apresentaram-se irrepreensíveis: guitarras que ergueram uma autêntica muralha de som, um baixo sólido e expressivo, teclados que deixaram de ser mero elemento decorativo para assumirem um papel fundamental na criação da atmosfera, e uma bateria tecnicamente irrepreensível que manteve toda a máquina a funcionar com precisão.
Mais do que um simples concerto, os Lord of Confusion proporcionaram uma experiência imersiva. Mesmo sem a escuridão que tão bem complementa a sua estética, conseguiram envolver completamente o público e confirmar que atravessam um dos momentos mais inspirados da sua carreira. Uma atuação de enorme maturidade, que voltou a provar porque ocupam atualmente um lugar de destaque no panorama do metal português.

DALLIAN
Depois da imponência do doom, chegou a vez dos Dallian mostrarem uma das propostas mais singulares de todo o cartaz. Também oriundos de Leiria, o trio apresenta uma fusão pouco comum entre progressive, symphonic e death metal, enriquecida por elementos de fado, numa identidade verdadeiramente distinta dentro da cena nacional. É uma combinação que, à partida, parece improvável, mas que acaba por fazer todo o sentido quando ganha vida em palco, revelando uma personalidade artística muito própria.
Essa riqueza musical é, simultaneamente, a maior força e o maior desafio dos Dallian. As suas composições estão repletas de camadas, mudanças de dinâmica e pequenos detalhes que exigem atenção do ouvinte. Num festival ao ar livre, em plena luz do dia e num ambiente naturalmente mais descontraído, parte dessa subtileza acaba por se perder. É fácil imaginar que a proposta da banda ganharia ainda mais impacto numa sala fechada, onde a componente atmosférica e teatral pudesse envolver completamente o público.
Ainda assim, os Dallian deixaram uma atuação tecnicamente irrepreensível e artisticamente muito sólida. A naturalidade com que executam composições de elevada complexidade demonstra não só uma enorme qualidade individual, mas também uma cumplicidade coletiva que lhes permite navegar entre mudanças de ritmo, ambientes sinfónicos e momentos de maior agressividade sem nunca perder a identidade. Tudo é interpretado com uma segurança que faz parecer simples aquilo que, na realidade, está longe de o ser.
Musicalmente, os Dallian desafiam o público a sair da sua zona de conforto. A elevada complexidade das composições e a riqueza dos seus arranjos exigem uma audição atenta, mas quem aceita esse convite é recompensado com uma experiência verdadeiramente singular. A fusão entre metal progressivo, death metal e fado dá origem a uma identidade sonora praticamente sem paralelo no panorama nacional, onde cada tema surpreende pelas mudanças de dinâmica, pela profundidade emocional e pela ousadia criativa. Não é uma proposta imediata nem procura sê-lo. É precisamente essa vontade de romper convenções e explorar novos caminhos que torna os Dallian uma das bandas mais interessantes e originais da atualidade.
A sua passagem pelo Cerco de Sortelha ficará certamente na memória como um dos momentos mais diferenciadores de todo o festival. Pela autenticidade da proposta, pela coragem de explorar territórios onde poucos se aventuram e pela evidente ambição artística que transpõem para palco, os Dallian revelaram uma atuação valiosa, enriquecendo um festival que fez da diversidade um dos seus maiores pontos fortes.

CONGRUITY
Com os Congruity, o Cerco de Sortelha mergulhou definitivamente nos territórios mais extremos do cartaz. Oriundo de Abrantes e com mais de duas décadas de percurso no underground português, o trio trouxe ao festival uma abordagem sólida ao death/black metal, construída ao longo de anos de experiência e consolidada por lançamentos como Inferno, o mais recente EP da banda.
Desde os primeiros acordes, ficou evidente que os Congruity sabem exatamente quem são. A sua música assenta em riffs cortantes, mudanças de andamento bem calculadas e uma secção rítmica poderosa, onde o peso nunca sacrifica a precisão. A alternância entre momentos mais velozes e passagens de maior densidade cria uma dinâmica constante, enquanto os vocais agressivos conferem a intensidade necessária para manter o público atento do princípio ao fim. É uma proposta que não procura reinventar o género, mas antes executá-lo com convicção, competência e uma identidade bem vincada.
Em palco, essa experiência fez-se sentir de forma natural. Não houve necessidade de grandes artifícios ou teatralidade. Foram a confiança, a coesão e a entrega da banda que falaram mais alto. Os Congruity mostraram-se confortáveis perante o público de Sortelha, oferecendo uma atuação intensa e consistente, sustentada por uma execução segura e por uma energia que nunca desapareceu. E isso era claramente refletido através do público que recebeu esta atuação e retribuiu toda a energia que vinha do palco.
Num festival que apostou fortemente na diversidade do metal nacional, os Congruity cumpriram na perfeição o papel de representar uma das vertentes mais extremas do cartaz. A sua passagem pelo Cerco de Sortelha confirmou que continuam a ser uma presença sólida no panorama do death/black metal português, acrescentando mais um momento de qualidade a uma tarde que parecia não conhecer pontos baixos.

SIGILO
Com a chegada da noite, chegou também o momento em que o ambiente do Cerco de Sortelha parecia alinhar-se na perfeição com a música que se seguia. Os Sigilo foram a primeira banda a atuar já sob a escuridão, e dificilmente poderia haver melhor banda para inaugurar essa nova atmosfera. Como se isso não bastasse, o concerto coincidiu com o lançamento de Gloria Ad Inferi, o novo álbum da banda, editado precisamente nesse dia pela Alma Mater Records, transformando a atuação numa verdadeira dupla celebração.
Perante um recinto muito bem composto, os Sigilo demonstraram toda a experiência acumulada desde 2019 (data em a banda foi formada) e ainda vinda de outros projetos anteriores. O trio entrou em palco com uma presença fria e imponente, deixando que fosse a música a falar por si. As melodias sombrias, os incessantes riffs em tremolo picking, os vocais cavernosos e uma secção rítmica sempre incisiva construíram uma atmosfera sufocante que envolveu completamente o público. O visual cuidadosamente trabalhado reforçou ainda mais essa identidade, tornando a atuação não apenas um concerto, mas uma experiência assombrosa.
Um dos aspetos que distingue Sigilo de muitas outras bandas de black metal e que nesta atuação foi claro, é a forma como recusam ficar presos à agressividade constante do género. Em vez de uma sucessão ininterrupta de blast beats e velocidade, a banda constrói cuidadosamente cada tema através de contrastes. Entre explosões de fúria surgem passagens melódicas, ambientes ritualísticos e momentos quase contemplativos que permitem à música respirar sem nunca perder a tensão. Essa capacidade de equilibrar violência e atmosfera, aliada a uma escrita pouco previsível e a um forte sentido de narrativa, faz com que cada composição tenha uma identidade própria e transforme o concerto numa experiência verdadeiramente imersiva, em vez de um simples desfile de peso e agressividade.
Naturalmente, Gloria Ad Inferi assumiu um lugar de destaque no alinhamento, com vários dos novos temas a serem apresentados ao vivo. A receção foi bastante positiva e deixou a sensação de que este novo capítulo da banda tem tudo para marcar a sua discografia. Entre o peso, a agressividade e a carga atmosférica que caracteriza o seu black metal, os Sigilo assinaram uma das atuações mais marcantes da noite e confirmaram porque são hoje um dos nomes incontornáveis da cena extrema portuguesa.

OKKULTIST
Com o recinto ainda repleto e a noite já bem instalada, os Okkultist assumiram o palco para aquele que era um dos concertos mais aguardados do festival. Apesar de se apresentarem com um alinhamento diferente do habitual, essa alteração em nada beliscou a qualidade da atuação. A banda demonstrou uma coesão notável e voltou a provar porque é uma das maiores referências do death metal português da atualidade.
No centro de toda a intensidade esteve Beatriz Mariano. Carismática, segura e absolutamente dominante em palco, a vocalista confirmou uma vez mais porque é uma das figuras mais reconhecidas e representativas do metal nacional. A sua presença impõe respeito desde o primeiro instante, alternando entre uma postura feroz e uma interação genuína com o público que ajudou a manter a energia sempre no máximo. À sua volta, a banda construiu uma autêntica avalanche sonora, onde riffs demolidores, uma secção rítmica implacável e uma execução irrepreensível transformaram cada tema num verdadeiro ataque aos sentidos.
Já na reta final da atuação, houve ainda tempo para um momento de sincera gratidão. A banda fez questão de agradecer à organização e ao público presente, recordando que são precisamente festivais como o Cerco de Sortelha que mantêm viva a chama da música pesada em Portugal. Seguiu-se uma poderosa interpretação de Sixpounder, dos Children of Bodom, recebida com enorme entusiasmo pelos presentes, antes da apresentação de um novo tema.
Quando tudo fazia prever o fim do concerto, foi o próprio público que ditou o contrário. Os insistentes pedidos por mais um tema foram imediatamente correspondidos, e os Okkultist regressaram para um último assalto carregado de velocidade, agressividade e adrenalina. O resultado foi um encerramento memorável, acompanhado por um dos circle pits mais intensos de todo o festival e por uma comunhão absoluta entre banda e público. Uma atuação que superou as expectativas e mais uma demonstração de que os Okkultist continuam a ocupar um lugar de destaque na elite do metal extremo português.

TOXIKULL
Os grandes cabeças de cartaz da primeira edição do Cerco de Sortelha foram os Toxikull, e dificilmente poderia ter sido escolhida uma banda mais indicada para ocupar esse lugar. Mestres do heavy metal, subiram ao palco perante o maior número de espectadores de todo o festival e um ambiente de enorme expectativa. A resposta da banda esteve à altura da ocasião, oferecendo uma verdadeira lição de como se faz um espetáculo de heavy metal: intenso, contagiante e absolutamente memorável.
O alinhamento percorreu diferentes fases da carreira da banda, demonstrando de forma clara a evolução sonora que os Toxikull têm vindo a construir ao longo dos últimos anos. Os temas mais recentes surgiram perfeitamente integrados entre os clássicos, revelando uma maturidade composicional que não compromete a identidade da banda. Independentemente da época a que pertencia cada música, a reação do público foi sempre explosiva, provando que o repertório dos Toxikull já conquistou um estatuto invejável dentro do metal nacional.
No centro de toda esta tempestade esteve, naturalmente, Lex Thunder. Mais uma vez, o vocalista demonstrou porque é dono de uma das vozes mais impressionantes do metal português e porque merece ser mencionado ao lado de muitos dos grandes nomes internacionais do género. A sua presença em palco é magnética, comandando o público com uma naturalidade rara, enquanto alterna entre uma interpretação vocal irrepreensível e um trabalho de guitarra igualmente sólido. Mas os Toxikull são muito mais do que um grande frontman: Michael Blade, Infernando e Tommy 666 voltaram a formar uma máquina perfeitamente oleada, onde cada elemento contribui para um som poderoso, coeso e repleto de energia.
Essa energia refletiu-se também diante do palco. Nos temas mais rápidos, os mosh pits e os circle pits sucederam-se sem descanso, levantando nuvens de poeira que pareciam fazer parte do espetáculo. O público respondeu a cada riff e a cada refrão com uma entrega impressionante, transformando aquele concerto numa autêntica celebração do heavy metal. O encerramento com Midnight Fire, um dos grandes destaques do mais recente álbum, foi a escolha perfeita para fechar uma atuação que ficará certamente entre os momentos mais marcantes desta primeira edição.
Quando a banda abandonou o palco, foi recebida por um autêntico mar de aplausos. Não era para menos: tinham acabado de protagonizar um dos concertos mais fortes de todo o festival e de justificar plenamente o estatuto de cabeças de cartaz. Curiosamente, horas antes, os Toxikull tinham disputado um intenso jogo de futebol com alguns jovens da aldeia, junto ao recinto. Pelo empenho demonstrado, qualquer pessoa diria que estavam a jogar a final da Liga dos Campeões. Felizmente, sobreviveram ao desafio sem lesões e ainda guardaram energia suficiente para incendiar Sortelha com uma atuação absolutamente demolidora. Afinal, parece que o verdadeiro aquecimento para um concerto de heavy metal é um bom jogo de futebol.

CRAB MONSTERS
Já passava da uma da manhã quando chegou a vez dos Crab Monsters encerrarem a primeira edição do Cerco de Sortelha. A essa hora, o recinto dava sinais naturais de cansaço e o público encontrava-se bastante disperso, dando até a sensação de que a noite caminhava tranquilamente para o fim. Mas bastaram os primeiros segundos da atuação para essa ideia desaparecer por completo. Assim que a banda descarregou os primeiros acordes, um autêntico mar de pessoas voltou a correr em direção ao palco e, quase instantaneamente, os primeiros mosh pits começaram a formar-se.
Foi uma demonstração perfeita daquilo que o hardcore punk faz de melhor: rapidez, irreverência, intensidade e uma energia contagiante que não dá qualquer hipótese ao descanso. Numa altura em que muitos festivais já entram em piloto automático, os Crab Monsters fizeram precisamente o contrário, injetando uma dose absurda de adrenalina no público e conseguindo que, às tantas da madrugada, a energia fosse praticamente a mesma das primeiras horas da tarde.
Grande parte desse impacto deveu-se ao vocalista Granada, uma autêntica força da natureza. Com uma entrega animalesca, completamente possuído pelo espírito punk, comandou o concerto do primeiro ao último minuto, tornando impossível desviar o olhar do palco. A sua energia era refletida imediatamente pelo público, que respondeu com uma sucessão quase ininterrupta de circle pits e mosh pits, transformando os últimos minutos do festival numa celebração caótica da melhor espécie. Granada fez ainda questão de eliminar qualquer barreira entre o palco e o público, mergulhando inúmeras vezes no meio da plateia e tornando-se parte da confusão que ajudava a criar. Essa proximidade constante reforçou ainda mais o espírito de união e entrega que definiu toda a atuação.
Se havia dúvidas sobre qual seria a banda ideal para fechar um dia tão intenso, os Crab Monsters trataram de as dissipar. Conseguir manter um festival inteiro em ebulição depois da uma da manhã não é para qualquer um, mas eles fizeram-no com uma naturalidade impressionante. O Cerco de Sortelha terminou exatamente como começou: com o público completamente entregue à música. E, para um festival de metal underground, dificilmente poderia haver um final mais apropriado.

A primeira edição do Cerco de Sortelha foi a prova de que, com paixão, dedicação e uma visão bem definida, é possível criar um festival de metal de enorme qualidade fora dos grandes centros urbanos. A escolha da Aldeia Histórica de Sortelha revelou-se simplesmente perfeita: um cenário único que deu uma identidade muito própria ao evento e que dificilmente poderia ser replicado noutro local. A isso juntaram-se uma organização irrepreensível, entrada gratuita, zona de campismo, preços acessíveis e todas as condições necessárias para que o público apenas tivesse de se preocupar em desfrutar da música e do convívio.
A forte adesão foi outro dos grandes vencedores do dia. Desde as primeiras atuações até aos últimos concertos da noite, foram centenas de pessoas a dar vida ao recinto, demonstrando que existe um enorme público para iniciativas deste género e que o metal underground português continua mais vivo do que nunca. O ambiente foi de constante camaradagem, respeito e celebração, exatamente aquilo que se espera de um festival construído por e para quem vive esta cultura.
Se esta primeira edição servia para testar o conceito, então a missão foi cumprida com distinção. O Cerco de Sortelha deixou de ser apenas uma ideia promissora para se afirmar como um dos acontecimentos mais marcantes do verão no metal nacional. Resta agora uma única questão: haverá uma segunda edição? Porque, depois do que se viveu em Sortelha, será difícil imaginar que esta história termine por aqui.

