A noite de sábado, 22 de Novembro de 2025, ficará eternamente gravada na história do M.Ou.Co., da Amplificasom e, sobretudo, na história da música extrema na Invicta. Tudo indica que foi, muito provavelmente, a última oportunidade de testemunhar, tão de perto e num ambiente tão visceralmente íntimo, os gigantes absolutos do post-black metal americano: Deafheaven.

A Amplificasom realizou um dos desejos mais fervorosos da comunidade ao anunciar duas datas em solo português com Deafheaven. A confirmação do entusiasmo? Ambas as noites – 22 de Novembro no Porto e 23 de Novembro em Lisboa – esgotaram muito tempo antes de a banda pisar o palco. E digo sem qualquer hesitação: quem deixou passar a oportunidade, quem adormeceu na corrida aos bilhetes, não faz ideia do que perdeu. E, com toda a probabilidade, jamais terá uma experiência semelhante àquela que se viveu nestas duas noites…
Mas Deafheaven não vieram sozinhos, trouxeram uma comitiva de peso: os brutalíssimos Portrayal of Guilt e os emergentes Zeruel, que naquela noite conquistaram uma legião de novos fiéis.
Não era apenas mais uma noite de concertos: era um alinhamento raro, inesperado, quase improvável, onde três visões distintas da música pesada iriam colidir no mesmo espaço, na mesma respiração, perante um público faminto. A expectativa ganhou corpo, cresceu, e ninguém duvidava de que algo especial estava prestes a acontecer.
ZERUEL
Os primeiros a subir ao palco foram os Zeruel, que agarraram a sala desde os primeiros acordes. Começaram com uma postura cautelosa, mas a receção calorosa do público rapidamente os fez instalar-se como se estivessem em casa. Muitos entraram sem saber ao certo o que esperar e, quando deram por isso, já estavam rendidos, engolidos pelo som colossal do trio e por uma entrega que merece todos os holofotes. Um início pesado, envolvente e certeiro, sem espaço para aquecimentos.

Os Zeruel, em poucos segundos deixaram claro porque ali estavam. Jovens, concentrados, e ainda a viver cada segundo com a surpresa de quem foi catapultado para uma oportunidade inesquecível, o trio agarrou a sala com Awake e Blight, dois temas curtos, diretos e envoltos num peso que oscilava entre o shoegaze e aquela melancolia densa à Deftones ou Bleed. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o que esperar daquela noite, desapareceram ali.
A voz do vocalista, suave, tímida, angelical, acrescentava uma camada emocional rara, uma fragilidade que humanizava o peso instrumental e transformava cada tema numa pequena ferida aberta. Em Vessels of Light e Oztroja, o shoegaze assumiu-se sem pudor, com guitarras etéreas, delay (eco repetido e espaçado) a expandir paredes e alguns momentos de tremolo picking que fariam Alcest sorrir. Ninguém na sala parecia indiferente. Muitos entraram sem conhecer o nome Zeruel, mas já sabiam que nunca mais o iam esquecer.
O ponto de viragem emocional da atuação chegou no antepenúltimo tema, Return by Dawn. O baterista, até aqui já impressionante, disparou ritmos totalmente fora do habitual, técnicos, imprevisíveis, quase desconcertantes, arrancando expressões de espanto pela sala. E como se isso não bastasse, o vocalista lançou pela primeira vez um rasgo visceral, inesperado e catártico, que elevou o tema a um novo patamar.
Com agradecimentos tímidos, avançaram para os últimos dois temas Avalon e A Feather. E foi neste encerramento que a intensidade emocional atingiu o auge. Os teclados voltaram a surgir discretos, acrescentando harmonia e profundidade, acompanhando uma construção lenta, crescente e arrebatadora.
Trinta minutos, zero artifícios, só honestidade, entrega e talento. Zeruel não foram apenas a banda de abertura. Foram o primeiro grande motivo pelo qual esta noite ficará para sempre na memória de quem lá esteve. E depois disto, ninguém lhes volta a chamar “promessa”. São realidade. E das grandes.

Setlist: 1- Awake; 2- Blight; 3- Vessels of Light; 4- Oztroja; 5- Millicent; 6– Limbo, 7- Return by Dawn; 8- Avalon, 9- A Feather.
PORTRAYAL OF GUILT
Logo depois, Portrayal of Guilt elevaram a tensão para um plano mais sombrio, visceral e abrasivo. A sala mergulhou num negrume emocional feito de caos controlado, explosões súbitas, silêncios que cortavam o ar e uma violência catártica que parecia arrastar tudo consigo. Foi uma atuação curta, feroz e absolutamente inesquecível. O tipo de concerto que deixa o público a respirar mais fundo, a tentar recompor-se, sem saber muito bem o que acabou de acontecer.

Portrayal of Guilt chegaram para rasgar todos os nervos expostos. Não houve aviso, nem preparação possível. Possession atirou imediatamente o M.Ou.Co. para um território de caos controlado, dor emocional e violência sonora. A partir dali, ninguém respirou da mesma forma.
O vocalista assumiu o palco como uma entidade em ruína, com uma voz desesperada, rasgada, sufocante, carregada de pânico, ódio e exaustão espiritual. A postura era puro veneno: ombros tensos, corpo projetado para a frente, um animal enjaulado prestes a explodir. Não estava ali para entreter, estava para exorcizar.
E as luzes… As luzes foram cúmplices. Intermitentes, estroboscópicas, cortantes, forneceram um cenário de claustrofobia emocional. Cada flash branco parecia um grito, cada sombra projetada criava a sensação de estarmos presos num espaço sem saída, afogados num desespero coletivo. O público não estava só a assistir, estava a sobreviver.
No entanto, o elemento mais desconcertante, no melhor sentido, era o baterista. Uma verdadeira máquina, uma força antinatural, a tocar de olhos fechados o que muitos não conseguiriam executar com ambos bem abertos. Blast beats, quebras imprevisíveis, acelerações impossíveis, travagens bruscas, ritmos estranhos, tudo com precisão quase sobrenatural.
Musicalmente, Portrayal of Guilt soaram a uma ferida aberta. Havia um perigo constante, como se cada tema estivesse prestes a desmoronar, mas nunca caía. Em vez disso, mordia, arranhava, autoflagelava-se. O fio condutor não foi melodia, foi agonia, e foi esse desconforto que tornou a experiência tão viciante.
Quando as luzes finalmente estabilizaram, houve um silêncio estranho, confuso. O público precisava de processar o que acabara de testemunhar. Não foi bonito, nem reconfortante, foi verdadeiro, violento, humano, inesquecível! Portrayal of Guilt abriram um portal, e por largos minutos, todos nós caímos dentro dele.

Setlist: 1- Possession; 2- The Sixth Circle; 3- Heaven’s Gate; 4- One Last Taste of Heaven; 5- Burning Hand; 6- Ostraca Split; 7- Where Angels Come to Die; 8- Devil Music; 9- Sadist; 10- Sacrificial Rite; 11- …where the suffering never ends; 12- Fall From Grace; 13- The Crucifixion.
DEAFHEAVEN
Já antes de Zeruel subirem ao palco, havia uma consciência coletiva a pairar no M.Ou.Co.: esta poderia ser a última vez que veríamos Deafheaven tão perto, tão expostos, tão humanos. A partir daqui, palcos gigantes os esperam e, inevitavelmente, mais distanciamento do público. E quando as luzes baixaram para dar início à atuação, essa sensação transformou-se em adrenalina pura. Porque não importa quantas vezes se descreva a banda, nada prepara verdadeiramente alguém para estar diante deles.

A abertura com Incidental I, seguida de Doberman e Magnolia, respeitando a ordem do seu novo trabalho “Lonely People With Power”, demonstrou a confiança de uma banda que já não precisa de provar nada a ninguém. O público foi imediatamente engolido por camadas etéreas de guitarra, texturas expansivas e batidas pulsantes, um som simultaneamente brutal e belo, agressivo e melancólico. Impossível descrever por palavras, apenas sentir.
A energia em palco era avassaladora. Todos os membros estavam em permanente combustão, mas o vocalista assumiu o epicentro emocional do furacão. Um demónio possuído pela música, sempre em movimento, mãos em gestos quase teatrais, corpo em convulsão rítmica, e olhares que perfuravam o público. Um verdadeiro exorcismo sonoro e visual.
Após uma viagem inicial ao novo álbum que, para muitos, colocou Deafheaven na melhor fase da sua carreira, chegou o momento de comunhão com o passado com Brought to the Water, do monumental New Bermuda (2015). E a sala explodiu! Logo depois, Sunbather pintou o ar de rosa e desespero, recordando porque 2013 mudou tudo para tanta gente.
Após esta viagem às origens, estávamos de regresso a temas recentes com The Garden Route, Body Behavior, Amethyst, Incidental II e Revelator que mostraram uma banda madura, emocional, cinematográfica e confortável em ser várias coisas ao mesmo tempo: pesada, frágil, luminosa, humana. A setlist fluía como um só corpo, como um só pulso. Pelo meio, George Clarke prometeu apenas uma coisa: “Nós iremos voltar aqui” e o público respondeu com gritos e palmas fogosos.
Para encerramento, Deafheaven levaram-nos novamente para horizontes cor-de-rosa com Dream House. Neste momento já toda a plateia estava coberta de suor de tanto headbanging, de tanto moshe, de tanto crowdsurfing. Já ninguém estava simplesmente a assistir, estávamos todos a viver dentro do concerto numa catarse coletiva onde mãos erguidas, suor e gargantas gastas eram o denominador comum.
Quando os primeiros acordes de Winona surgiram, um misto de emoções instalou-se no ar. Sabíamos que era o fim do concerto, sabíamos que aquela experiência estava prestes a terminar, mas ainda havia tempo! Ainda havia energia e voz para acompanhar os 5 elementos da banda naquela aventura sonora.
Deafheaven confirmaram, com autoridade absoluta, porque são um dos maiores nomes e mais influentes do post-black metal contemporâneo. Nada soou forçado, tudo fluiu com a naturalidade de quem tem a música e a intensidade tatuadas no sangue. Cada tema carregava uma dor palpável, quase física, mas a banda possui a rara capacidade de transformar essa dor em algo sublime, devastadoramente belo e irrepetível. Foi grandiosidade em estado puro, humana, brutal e transcendental.
No final, o silêncio não foi de fim, foi de consciência de que tínhamos presenciado algo irrepetível. Deafheaven não deram um concerto intimista, ofereceram um capítulo, uma despedida potencial, um momento que ficará gravado para sempre na história do M.Ou.Co., da Amplificasom e de todos os que encheram aquela sala.
Se foi realmente a última vez que os vimos assim tão próximos? Talvez. Mas, se foi, não podia ter sido mais perfeito.

Setlist: 1- Incidental 1; 2- Doberman; 3- Magnolia; 4- Brought To The Water; 5- Sunbather; 6- The Garden Route; 7- Body Behavior; 8- Amethyst; 9- Incidental II; 10- Revelator; 11- Dream House; 12- Winona.
No fim, ficou claro que cada banda carregou um papel essencial na construção desta noite inesquecível. Zeruel abriram com humildade e intensidade, surpreendendo e conquistando uma sala inteira em poucos minutos. Portrayal of Guilt transformaram o espaço numa câmara de respiração curta, onde caos, dor e catarse coexistiam. E finalmente Deafheaven, com uma atuação emocionalmente esmagadora, expansiva, vibrante. Uma daquelas que nos recorda porque a música continua a ser a melhor forma de transcendência coletiva. Ficará para sempre gravada na pele.
Resta agradecer à Amplificasom, que mais uma vez fez o impossível parecer fácil, e ao M.Ou.Co., cuja acústica e ambiente elevaram a experiência a outro nível. Não foi apenas um concerto, foi um presente para a cidade, para a música e para todos os que tiveram a sorte de estar lá. Que venham muitos mais!


