Depois de um dia voltado ao metal tradicional, o segundo dia do Evil Live Festival 2025 mergulhou com força total no peso e na modernidade, trazendo uma sonoridade mais contemporânea e com fortes influências dos anos 90.
Os portões se abriram novamente às 15h, mas desta vez, com uma fila ainda mais extensa, um sol escaldante e, claramente, o dobro de pessoas em relação ao dia anterior. Era nítido: o sábado prometia ser histórico!

Encabeçando o cartaz, estavam os lendários KORN, pioneiros do Nu Metal e ícones do rock alternativo. Junto a eles, tivemos grandes nomes como TILL LINDEMANN, vocalista dos Rammstein, que se apresentou com seu projeto solo em sua primeira visita a Lisboa; os suecos do OPETH, referência absoluta no metal progressivo; os irreverentes EAGLES OF DEATH METAL; além do projeto ousado SEVEN HOURS AFTER VIOLET, liderado por Shavo Odadjian dos System Of A Down; e os portugueses BIZARRA LOCOMOTIVA, levando com honra a bandeira do metal industrial nacional.
Continue lendo para saber todos os detalhes desse dia épico no Estádio do Restelo.
BIZARRA LOCOMOTIVA

Pontualmente às 15h50, sobem ao palco os Bizarra Locomotiva, sob um calor insano, mas incapaz de deter os fãs que já tomava a frente do palco com força e ansiedade.
Com apenas 30 minutos de atuação, fizeram um concerto direto, quase sem pausas, mas absolutamente poderoso. Mostraram por que são uma referência sólida do metal industrial português, detonando clássicos que puseram o público a mexer desde o primeiro segundo. A abertura ficou a cargo da destruidora “Volúpia”, e dali em diante, nada mais segurava a locomotiva.
Seguiram com a intensa “Mortuário”, enquanto os fãs encaravam o sol com resistência admirável, cantando e se entregando ao som. Dois grandes momentos do show vieram com “Druídas” — onde o vocalista Rui Sidónio distribuiu garrafas de água ao público como gesto de cuidado em meio ao calor infernal — e com “Ergástulo”, em que ele desceu até à malta e caminhou entre nós, causando muita euforia.
Na sequência, a poderosa “O Anjo Exilado” arrancou os primeiros crowdsurfings do dia, mesmo com o sol a castigar. Finalizaram com “O Escaravelho”, fechando com excelência uma atuação memorável.
A conexão entre banda e público era visível. Rui e companhia demonstraram carisma, entrega e técnica, e foram devidamente correspondidos. Os Bizarra Locomotiva mostraram que abrir o dia não significa aquecer o palco, mas sim incendiá-lo com autoridade!
SEVEN HOURS AFTER VIOLET

Pontualmente, às 16h40, subiu ao palco o novo projeto de Shavo Odadjian, lendário baixista do System of a Down: os SEVEN HOURS AFTER VIOLET. O público se aglomerava com grande curiosidade, não só para ver a presença icônica de Shavo, mas também para testemunhar a força da sua nova empreitada, formada em 2024, mergulhando no universo moderno do metalcore.
O setlist teve como base o álbum de estreia homônimo, lançado em outubro do último ano, e logo de cara a banda mostrou a que veio. Abrindo com “Paradise”, o vocalista Taylor Barber já soltou o comando de um circle pit, e não deu outra, a multidão obedeceu sem hesitar, mergulhando no caos.
A voz de Barber é simplesmente absurda, com um poder brutal nos guturais, que ao vivo não perde em nada para a gravação. Alejandro Aranda, guitarrista e responsável pela voz limpa e melódica, contrasta com perfeição os momentos de fúria vocal de Barber, trazendo um clima mais introspectivo. Além disso, a qualidade técnica do grupo é inegável, com todos os membros entregando performance afiadíssima. A combinação dos dois resulta em um som moderno, envolvente e que te faz sair do chão!
Vieram na sequência faixas que já são consideradas hits, como “Alive”, “Float” e “Cry”, mantendo o público completamente entregue ao espetáculo. A intensidade só aumentava, com moshs e circle pits, crowdsurfings… um show com tudo que há direito. Mas foi em “Abandon” que veio o clímax: Barber pediu um wall of death, e o público prontamente abriu um espaço gigante, que ao início da música explodiu em uma verdadeira guerra no Estádio do Restelo.
A apresentação foi finalizada com “Sunrise”, onde as duas vozes entraram em perfeita harmonia, deixando uma impressão forte e inesquecível. Mesmo com o som do baixo um pouco abafado em algumas faixas, isso não comprometeu em nada o impacto da performance. A energia, a entrega e o som poderoso garantiram um espetáculo. Foi uma estreia triunfante em solo português!
EAGLES OF DEATH METAL

Às 17h35, chegou o momento dos norte-americanos EAGLES OF DEATH METAL subirem ao palco do Evil Live. Em meio a um cartaz dominado por sonoridades mais pesadas, a presença da banda trouxe um contraste notável. Com seu rock and roll garageiro e irreverente, serviu como uma pausa leve e inesperadamente cativante no meio do caos. À primeira vista pode até parecer deslocado, mas o clima festivo que trouxeram revelou-se mais do que bem vindo. E já vais entender por quê…
Antes mesmo da banda entrar, o som mecânico tocava “We Are Family” das Sister Sledge, e já se via gente dançando no meio da pista. Abriram com “I Only Want You”, e o ambiente foi se transformando numa celebração. Com uma pausa para observar o público, conversar e esbanjar simpatia, seguiram com “Don’t Speak (I Came to Make a Bang!)”.
Não demorou muito para que Jesse Hughes e Jenne Vee tomassem a frente do palco com carisma absoluto, sempre sorridentes, mandando corações e beijos, e interagindo como poucos. Hughes, especialmente, soube criar um laço íntimo com a plateia com seu jeito leve e divertido. Disse estar genuinamente feliz por estar ali, e perguntava várias vezes se o público estava a curtir tanto quanto ele. A vibe era descontraída, divertida e logo conquistou até os mais céticos.
Durante “Complexity”, Hughes desceu até a grade, cantou com algumas pessoas e correu de um lado ao outro do pit, um momento divertido e espontâneo. Em uma das brincadeiras, Hughes fez uma competição entre quem gritava mais alto: os rapazes ou as garotas. E ao final da disputa, soltaram “Cherry Cola” e “I Want You So Hard (Boy’s Bad News)” como uma dedicatória às mulheres que agitaram mais!
Seguindo com “Moonage Daydream” do David Bowie, Hughes dedicou aos Korn – o mesmo estava a usar uma t-shirt dos gigantes do nu metal – e a todos os presentes, declarando sua admiração. O gesto arrancou aplausos calorosos e gritos efusivos.
E o concerto foi nesse espírito: envolvente, alto astral, difícil de ignorar. Mesmo numa atmosfera predominantemente voltada ao metal, a banda provou que personalidade e entrega fazem toda a diferença. Muitos que não os conheciam certamente saíram de lá com uma nova perspectiva, e se tornaram fãs!
OPETH

Agora era a vez de um dos nomes mais aguardados do dia e um verdadeiro gigante do metal progressivo: os mestres suecos do estilo, OPETH! Mesmo com o sol ainda forte e castigando, a malta se concentrava cada vez mais perto do palco, com evidente empolgação e ansiedade para testemunhar um espetáculo único.
O setlist abriu com “§1”, faixa do aclamado novo álbum The Last Will and Testament, lançado em outubro do último ano. A reação do público foi imediata: explosão de aplausos e celebração, com muitos mergulhados naquela sonoridade tão característica da banda — inconfundível, intensa e elegante! Se nas apresentações anteriores o público se deixava levar por crowdsurfings e circle pits, aqui o sentimento era de imersão absoluta, atenção total a cada nota, a cada transição melódica, a cada nuance vocal.
Seguiram com a já icônica “Heir Apparent”, mantendo o clima denso e envolvente, logo avançando para a também recente “§7”. Neste momento, a banda comentou com bom humor que se tratava de uma faixa extremamente complexa, “difícil até para eles mesmos”, arrancando risos e deixando evidente a simpatia de Mikael Åkerfeldt que, além da genialidade, sabe conduzir o público com certa leveza. A propósito, a presença imponente e a genialidade de Mikael são impressionantes, ainda mais ao vivo.
Antes de seguirem, Mikael comentou sobre o calor intenso daquele dia lisboeta, dizendo que “não é fácil para uma banda sueca lidar com este clima”, e esperava parecer mais enérgico do que realmente estava. Mas a verdade é que, mesmo sob o calor, sua performance era firme, emocionante e tecnicamente impecável.
Veio então “In My Time of Need”, num momento mais emotivo e melancólico, resgatando o tom introspectivo da discografia da banda. Mas o ponto de maior comunhão talvez tenha sido “Ghost of Perdition”, onde o público não se conteve: cantou alto, fez headbanging com vigor e celebrou a música como um verdadeiro hino.
O concerto seguiu sem firulas e fechou com a poderosa “Master’s Apprentices”, deixando claro que os Opeth não precisavam de artifícios demais para impactar. Era peso, técnica, emoção e precisão, tudo em longas composições que fluíam como peças de arte vivas.
Foi um show para ouvir com o coração, mas também com a mente. E não há como não se render a essa maestria. Não decepcionaram em absolutamente nada. Foi EMOCIONANTE, PROFUNDO, PESADO. Foi OPETH em sua melhor forma!
TILL LINDEMANN

Agora era a vez de outro grande nome da cena industrial: TILL LINDEMANN, vocalista dos Rammstein, com seu projeto solo. E o que posso dizer sobre esse concerto? Me prendo entre chocante, bizarro, grotesco… ou simplesmente fora da caixa? Para quem não está acostumado — e me incluo nisso — é algo que vai além do que se espera. E justamente essa é a intenção de Till, que não poupa esforços para ser excêntrico e provocar reações intensas, tudo envolto numa estética BDSM e shock rock, das mais extremas.
Abrindo com “Zunge”, seguida de “Schweiss”, quase sem pausas, a plateia foi imediatamente impactada pelo peso denso do metal industrial, combinado com o visual extremo e imersivo. Till e seus companheiros estavam todos vestidos com roupas de couro vermelho, e o telão exibia imagens surreais, bizarras, viscerais e muitas vezes sexuais, como em “Fat” e “Golden Shower”.
Mas o fato é: Till é um showman absoluto, teatral, provocador, intenso — e a banda que o acompanha está à altura. Cada integrante não apenas executa sua função musical com excelência, mas compõe o espetáculo visual e performático, incluindo as mulheres instrumentistas, que brilharam tanto pela técnica quanto pela presença cênica. O baterista foi um caso à parte: com uma mordaça durante toda a apresentação, expressões intensas e bizarras, assumia o papel de figura grotesca central, impossível de ignorar.
Entre os momentos mais chocantes, está “Allesfresser”, em que a banda atirou tortas na cara da plateia, cobrindo de chantilly muitos dos fãs na grade. Em “Fish On”, foi ainda mais longe: Till disparou peixes em direção ao público com um lançador (!) e, em seguida, colocou um peixe eorme na boca, claramente “passando mal” logo em seguida, arrancando risadas, choque e até um certo desconforto. E era esse mesmo o efeito desejado!
Perto do final do show, Till desceu ao meio da plateia acompanhado da teclista, com uma câmara que transmitia tudo para o telão, em mais uma forma de se aproximar e intensificar a experiência. Depois, o baterista simulava tirar “objetos” das “partes íntimas” com exagero proposital, grotesco, cênico… como num teatro de horrores, podemos dizer.
O recado foi claro: Till Lindemann não está interessado em ser palatável. Ele quer provocar, chocar, encantar ou incomodar – ou tudo ao mesmo tempo. E isso, quer gostes ou não, ficará gravado na memória de todos por MUITO tempo!
KORN

Pontualmente às 22:15, chegava o ápice do segundo dia do Evil Live Festival 2025: OS GIGANTES KORN! Agora com a noite já caída, o Estádio do Restelo estava tomado. Era difícil até encontrar espaço mais próximo ao palco — todos ansiosos para testemunhar esse momento histórico. Korn é daquelas bandas que marcaram uma geração inteira, moldaram identidade e atitude de milhares, e agora traziam todo esse legado ao vivo, com potência máxima. A energia era surreal!
Bastou soar o riff inicial de “Blind” para tudo vir abaixo. A multidão explodiu quando Jonathan Davis gritou o icônico “Are you ready?!”, com copos de cerveja e garrafas d’água voando pelos ares. Era o prenúncio de uma apresentação arrasadora, e o público respondeu à altura com mosh pits, crowdsurfings e gritos ensurdecedores a plenos pulmões.
O setlist foi simplesmente impecável, uma jornada de clássicos e sucessos, executados com energia insana e quase nenhuma pausa. “Here to Stay” levantou um coro poderoso da malta, “Got the Life” fez todos saltarem num entusiasmo nostálgico, e “Clown” trouxe aquele groove pesado, com o slap bass marcante que é assinatura do som da banda. Era impossível ficar parado.
“Did My Time” — a minha favorita — é daquelas músicas que invadem os sentidos. Foi um dos pontos altos, mas, na verdade, todo o concerto foi um clímax constante. Com instrumentação afiada, presença de palco monstruosa e entrega total, os Korn mostraram porque são uma das maiores bandas. Mesmo para quem não tem o nu metal como estilo favorito, assim como eu, é impossível resistir a essa força ao vivo. Eles são exatamente aquilo que conhecemos lá atrás.
Um dos momentos mais marcantes foi “Shoots and Ladders”, quando Davis trouxe sua rtradicional gaita de fole. A canção ainda fundiu-se a um trecho de “One”, dos Metallica, num hino de arrepiar.
A sequência continuou com “Cold”, dando um salto para as faixas mais recentes, seguida da clássica “Ball Tongue”, com um verdadeiro mar de pessoas sendo levadas pelos crowdsurfings até o pit, enquanto abaixo rolava um circle pit insano. “Twisted Transistor” manteve a vibração em alta, e “A.D.I.D.A.S.” levantou o estádio num momento de pura devoção. Era a nostalgia viva!
Vieram ainda “Dirty” e “Somebody Someone”, antes de uma breve pausa. Davis então perguntou se estava tudo bem, agradeceu à malta e deixou claro o carinho imenso pelos fãs portugueses, que entregaram tudo desde o início. Encerrando o set principal, a destruidora “Y’All Want a Single” levou tudo abaixo, numa explosão de caos e alegria.
O encore veio como uma cereja no topo da noite: “4 U”, “Falling Away From Me”, “Divine” e, claro, a imbatível “Freak on a Leash”, finalizando o espetáculo com explosão de fitas lançadas sobre o público, encerrando um verdadeiro ritual de energia, emoção e libertação.
E mesmo eu, que não sou fã convicta do estilo, me vi genuinamente emocionada. É poderoso ver como essas bandas da nossa geração agora são consideradas clássicos vivos, inspirando as novas ondas do metal moderno.
É uma energia única, quase indescritível. E estar ali, vivendo isso, é pura gratidão. Obrigada, Prime Artists. QUE DIA!


