No passado dia 8 de novembro, numa fria noite de outono, a Casa do Artista Amador, em Famalicão, recebeu um concerto muito especial: a apresentação ao vivo de Omniscience, o novo álbum de Godark. O alinhamento da noite reuniu três bandas: The Small Hours, Rising Curse e, a encerrar os próprios Godark.

Godark, por @wow.l0vely

Lançado no dia 5 de novembro, Omniscience já tinha conquistado a atenção do público e da crítica, acumulando elogios pela sua produção poderosa, atmosfera intensa e pela evolução sonora da banda. Era, por isso, palpável a expectativa que pairava na sala desde cedo.

Mas Godark não vieram sozinhos. Para celebrar o lançamento de Omniscience, a banda reuniu duas formações que ajudaram a tornar a noite ainda mais intensa e diversificada: The Small Hours e Rising Curse. Com um cartaz cuidadosamente escolhido para preparar o público antes da atuação principal, o evento transformou a Casa do Artista Amador, em Famalicão, num ponto de encontro obrigatório para os fãs de música pesada.

À medida que as portas se abriram, o público foi chegando de forma constante. Primeiro timidamente, ocupando os lugares mais resguardados da sala, mas rapidamente a energia começou a crescer. E quando chegou a vez dos Godark subirem ao palco, já não havia espaço para dúvidas, nem tão pouco para mais gente: a sala estava completamente lotada, pronta para receber o novo trabalho da banda em todo o seu peso e intensidade.

THE SMALL HOURS

A noite começou com uma descida direta à escuridão, guiada pelos The Small Hours. Logo nas primeiras notas tornou-se evidente que a banda não se limita a seguir fórmulas: explora-as, desconstrói-as e volta a moldá-las à sua imagem. Há identidade, há risco, e acima de tudo há uma visão sonora muito própria.

The Small Hours, por @wow.l0vely

A música dos The Small Hours oscilou por entre passagens melódicas com recurso a guitarras atmosféricas, quase etéreas, e momentos densos e esmagadores com inspiração no black metal. Desta mistura nasce uma amálgama sonora única, difícil de comparar a qualquer outra banda. As melodias, penetrantes e por vezes hipnóticas, mantiveram o público suspenso, sempre com a sensação de que algo inesperado estava prestes a acontecer.

No centro desta intensidade está a versatilidade vocal de António Costa. Com uma naturalidade desarmante, alterna entre um timbre quase operático, vozes berradas e guturais profundos. Esta amplitude não serve apenas para impressionar, é uma ferramenta narrativa que acrescenta camadas emocionais às composições. Em palco, a sua postura é quase teatral, com gestos calculados, expressão intensa, e uma presença magnética, como se cada palavra fosse retirada de um ritual íntimo. A performance visual eleva a musicalidade, transformando cada tema numa experiência imersiva.

Mas o concerto foi também marcado pela ousadia do alinhamento. As três primeiras músicas foram temas novos, inéditos e nunca antes tocados ao vivo, resultando num risco assumido que só veio reforçar a confiança criativa da banda. Depois desse início surpreendente, os The Small Hours mergulharam na execução integral do seu mais recente EP, Quimera. Durante 27 minutos, a sala foi atravessada por uma viagem emocional intensa, que mostrou de forma exemplar a identidade da banda e a sua capacidade de equilibrar peso emocional, técnica e intensidade, sem nunca perder coerência.

Os temas são longos, mas nunca cansativos. Há algo quase cinematográfico na forma como constroem as músicas: elas transformam-se, evoluem e rasgam horizontes sem aviso. Em determinados momentos surgem nuances melancólicas que remetem para o Swallow the Sun antigo, noutros, irrompe uma aura de TODOMAL, sufocante, que agarra o público e não o larga. Ainda assim, tudo flui de forma orgânica, mantendo todos completamente imersos.

Foram 45 minutos de uma verdadeira viagem, em que cada música funcionou como um capítulo de uma história envolta em sombras. O último tema, mais leve e melódico, trouxe um regresso suave à superfície após um mergulho profundo em lugares densos e introspectivos. Quando terminaram, ficou no ar aquela sensação agridoce de quem desperta de um transe.

Os The Small Hours não abriram apenas a noite, abriram um portal para algo inesquecível.

The Small Hours, por @wow.l0vely
Setlist: 1- Silent Demise; 2- Valley of Sorrows; 3- Memories of Broken Days ; 4- Quimera Acto I – Deus Quis; 5- Quimera Acto II – Veneno; 6- Quimera Acto III – Destino.

RISING CURSE

Se os The Small Hours tinham conduzido o público por atmosferas densas e introspectivas, os Rising Curse entraram em palco com a intenção clara de virar o espaço do avesso. Desde o primeiro riff, a banda mostrou uma energia crua e direta, alimentada por uma agressividade instrumental e vocal que não deixou ninguém indiferente.

O som das guitarras, carregado de riffs rápidos e incisivos, aliado à secção rítmica demolidora, disparou imediatamente o termómetro da sala para níveis mais extremos.

Rising Curse, por @wow.l0vely

Foi também com os Rising Curse que surgiu o primeiro de muitos moshes da noite. Bastaram poucos segundos do tema inicial para o público se chegar à frente e deixar que a intensidade da música tomasse conta do corpo. A postura da banda em palco é visceral, sem filtros. É deathcore / death metal tocado com urgência e entrega total. As linhas vocais, gritadas com força e convicção, funcionam como uma extensão da violência sonora que vem do instrumental, e não há espaço para contemplação, apenas para sentir e reagir.

O concerto foi crescendo de tema para tema, e a banda conseguiu manter a energia sempre no máximo. A atitude genuína do vocalista, Ruben, contribuiu bastante para a ligação com o público. Entre músicas, agradeceu repetidamente à plateia e aos próprios Godark pelo convite, reforçando a importância de se apoiar o underground: “Apoiem as bandas e apoiem estes eventos para que continuem a acontecer.” O público respondeu com entusiasmo e, a cada música, a intensidade do mosh continuava a subir.

Para encerrar o concerto, os Rising Curse guardaram o golpe final: um último tema Karma Chaos que começou com um wall of death anunciado e que explodiu numa descarga de energia coletiva. Foi o culminar perfeito de uma atuação onde o objetivo nunca foi apenas tocar música, mas criar um impacto físico e emocional. Quando saíram de palco, deixaram a sala ao rubro e o público perfeitamente aquecido, pronto para receber os Godark.

Rising Curse, por @wow.l0vely
Setlist: 1- Malus Liber; 2- Uri Scripturas; 3- Divine Bloodshed; 4- The End Of Everything; 5- Qui Scripsit Librium; 6- Parabellum; 7- Monitus; 8- Servus; 9- Karma Chaos.

GODARK

Depois do caos energético deixado pelos Rising Curse, era finalmente a vez dos Godark subirem ao palco para apresentar, pela primeira vez, o novo álbum Omniscience.

O ambiente na sala era de pura expectativa. Naqueles segundos antes do primeiro acorde, notava-se algum nervosismo na banda, compreensível, considerando que iriam tocar um álbum completo e novo diante de uma sala cheia. Mas esse nervosismo desapareceu assim que arrancaram com o primeiro tema da noite, This Is The End. Bastaram alguns compassos para que tudo se encaixasse: a técnica, a energia e, sobretudo, a paixão pelo que fazem.

Godark, por @wow.l0vely

Sem pausas longas, seguiram para Looking for a New Meaning, Into the Hollow e Frozen in Time, mantendo a sala em permanente movimento entre headbanging e mosh. A performance estava completamente coesa, poderosa e incrivelmente emotiva. Era impressionante ver a forma como o público acompanhava cada parte: apesar de Omniscience ter sido lançado apenas três dias antes, já havia pessoas a cantar melodias e refrões inteiros com o Vítor (vocalista).

Quando anunciaram os primeiros acordes de Leaving Out, o quinto tema da setlist e do álbum, a reação foi instantânea: a sala explodiu! Sendo o tema conhecido há mais tempo, e talvez um dos pontos mais altos de Omniscience, bastaram segundos para que o público reconhecesse o que aí vinha e para que gritos, braços no ar e coros abafassem o recinto. Foi aquele momento em que se sentiu a energia coletiva a intensificar-se ainda mais, o verdadeiro clímax do concerto, onde público e banda se encontram na mesma frequência.

Godark, por @wow.l0vely

A seguir, Nightmare Walk, Blind in Limbo e Mind’s Trigger mostraram a diversidade do álbum: riffs melódicos entrelaçados com secções agressivas, mudanças dinâmicas e refrões que facilmente ficam na memória. A banda não estava apenas a tocar músicas, estava a contar uma história de forma contínua, intensa e honesta.

O encerramento ficou entregue a Land of Insane, um final perfeito que condensou toda a essência do álbum numa explosão final de energia, emoção e peso.

Tecnicamente, os Godark brilharam! A precisão das guitarras, o baixo sempre ancorado na mistura, e uma bateria explosiva e dinâmica, acompanhada pela versatilidade vocal do Vítor, capaz de oscilar entre agressividade e melodia, transformaram o concerto numa demonstração de nível mais do que profissional. Mesmo quando surgiram alguns imprevistos técnicos, como curtos momentos em que a voz deixou de se ouvir ou quando o Fábio (baterista) perdeu o pedal, a banda manteve-se firme. A forma como lidaram com essas falhas foi exemplar: profissionalismo total, zero quebra na energia, e ainda aproveitaram a pequena pausa para respirar e recuperar fôlego antes da investida final.

Quando o último acorde ecoou, ficou claro para todos que ali se tinha vivido algo especial. O público saiu com um sorriso cúmplice, com a sensação de ter testemunhado o início de algo maior e a mensagem era unânime: Godark estão prestes a romper todas as barreiras dentro do death metal melódico, e não apenas em Portugal, mas muito além de fronteiras.

Godark, por @wow.l0vely
Setlist: 1- This is the End; 2- Looking for a New Meaning; 3- Into the Hollow; 4- Frozen in Time; 5- Leaving Out; 6- Nightmare Walk; 7- Blind in Limbo; 8- Mind’s Trigger; 9- Land of Insane.

 

No final da noite, ficou a sensação de que algo maior do que um simples concerto tinha acontecido. Três bandas com identidades completamente diferentes – The Small Hours, Rising Curse e Godark – uniram-se para criar uma experiência intensa, emocional e inesquecível.

Cada atuação deixou uma marca própria: viagem introspectiva e teatral dos The Small Hours, a descarga bruta de energia dos Rising Curse e a celebração triunfante dos Godark com o lançamento de Omniscience. A Casa do Artista Amador foi o palco perfeito para tudo isto, um espaço que respira música, dedicação e amor pela cena local. A cada aplauso, a cada mosh, a cada voz que se juntou aos refrões, sentiu-se o verdadeiro significado de apoiar o underground.

Obrigado aos Godark por organizarem este evento, às bandas, ao recinto e a todos os que estiveram presentes por provarem, mais uma vez, que quando a música é verdadeira, ela move tudo à sua volta.

Podes consultar as fotografias todas aqui:

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