Na noite de 3 de Novembro de 2025, o Hard Club recebeu mais uma celebração sonora organizada por Free Music Events, reunindo três nomes que atravessam fronteiras dentro do metal progressivo e alternativo: Royal Sorrow, Gåte e Leprous uniram forças e entregaram uma experiência apaixonante a todos os presentes.
Embora fosse uma noite fria de segunda feira, o público, diverso mas unido pela mesma paixão pelo som progressivo, encheu o Hard Club com uma energia vibrante, pronta a explodir ao primeiro acorde. Vários minutos antes da abertura de portas, já uma serpente humana era visível à porta do recinto, e sentia-se muita energia no ar: estávamos prestes a viver uma noite inesquecível.
ROYAL SORROW
Este concerto seria a tão esperada estreia em Portugal dos Finlandeses Royal Sorrow. Estreia essa que estava agendada para o dia anterior em Lisboa, mas devido a um problema com o autocarro, não chegaram a tempo de atuar nesta data, adiando então a sua estreia para o Porto. E talvez tenha sido precisamente essa espera que deu ainda mais força à atuação que testemunhamos na noite de 3 de Novembro.
Logo desde Release Your Shadow – faixa de abertura – a banda mostrou claramente a sua identidade: riffs intrincados, variações rítmicas e uma impressionante versatilidade vocal que oscilava entre limpos etéreos e gritos carregados de fúria. O contraste entre as melodias mais acessíveis e os momentos mais ousados do seu lado progressivo deixou logo claro que estávamos perante um grupo que domina o equilíbrio entre técnica e emoção.
Em Evergreen, o segundo tema da noite, o baixista roubou atenções ao iniciar o tema nos teclados/sintetizadores antes de regressar ao seu instrumento principal, acrescentando uma camada mais industrial ao som. Foi um momento revelador da capacidade do grupo em manipular texturas e atmosferas, sem nunca perder o peso e a coesão.
Algo que captou a atenção de todos os presentes foi a energia dos quatro músicos em palco, que era contagiante. Notava-se a vontade genuína de tocar em Portugal e, talvez como reflexo do contratempo anterior (ou não), cada acorde soava como uma descarga de pura adrenalina.

Ao longo do set, temas como Samsara e Metrograve aprofundaram a dimensão mais densa e introspectiva do som da banda, contrastando com a melodia de Give In, que fez a sala vibrar em uníssono com um refrão altamente contagiante, que se entranha pelos nossos ouvidos e dificilmente sai.
Antes do tema final, a banda fez uma pausa para agradecer de forma sincera ao público, com um emocionado “What a ride!”. Esse agradecimento foi seguido por Innerdeeps, o single lançado nesse próprio dia: uma escolha perfeita para encerrar a noite. O tema sintetiza tudo o que os Royal Sorrow fazem de melhor: o equilíbrio entre o peso e a melodia, entre o caos e a calma, entre a sombra e a luz.
O concerto terminou com a banda a abandonar o palco sob uma ovação prolongada, claramente emocionados com a recepção calorosa. Foi uma estreia memorável, intensa, humana e tecnicamente irrepreensível, que deixou no ar a sensação de que esta será apenas a primeira de muitas visitas dos Royal Sorrow ao país.

Setlist: 1- Release Your Shadow; 2- Evergreen; 3- Samsara; 4- Metrograve; 5- Give In; 6- Innerdeeps.
GÅTE
Depois do poderoso e surpreendente arranque da noite com os Royal Sorrow, a expectativa estava bem no alto. Mas a banda que se seguia estava à altura de continuar a surpreender todos os presentes…
Os Gåte subiram ao palco com um arranque absolutamente avassalador. As duas faixas iniciais, Skarvane e Svarteboka, formaram um crescendo poderoso, envolto numa intensidade quase ritual. A cada compasso, a banda parecia construir um mundo próprio, onde o misticismo nórdico se cruzava com a energia bruta do metal alternativo e do folk mais sombrio. O trabalho de luzes é digno de destaque: foi essencial para moldar esse ambiente, acompanhando as dinâmicas das músicas com precisão e emoção, mergulhando o público numa experiência visual e sonora totalmente hipnótica. Desde muito cedo a banda provou que nos ia viciar e assim o foi. De olhos presos no palco, todos percebemos que iriamos testemunhar algo inesquecível.
Antes do terceiro tema, a vocalista partilhou com o público uma confissão calorosa: Portugal é um país muito especial para ela, pois parte da sua família é portuguesa, e até parte do seu nome. Esse momento de ligação pessoal abriu caminho para Oskorsreia, onde a artista se libertou por completo, abandonando a postura mais contida dos primeiros temas. A partir daí, a atuação transformou-se numa autêntica explosão de adrenalina. Todos os membros da banda pareciam possuídos por algo maior do que eles próprios, um transe coletivo que contagiou a plateia e criou um dos momentos mais intensos da noite.

Seguiu-se uma sequência de faixas onde a criatividade e a versatilidade dos Gåte ficaram plenamente evidentes. O baterista iniciou um dos temas nos teclados, antes de regressar à bateria, enquanto o baixista assumia o papel de teclista. Mas estas trocas de instrumentos foram constantes e naturais, e a vocalista mostrou ser muito mais do que apenas uma voz. As suas danças contemporâneas, alternativas, expressivas e quase xamânicas, amplificavam ainda mais o poder emocional das músicas. E continuando a reforçar a versatilidade instrumental deste grupo, é de referir que, numa das faixas seguintes, a introdução de um violino acrescentou uma dimensão ainda mais orgânica e ancestral, reforçando o caráter ritualístico do espetáculo.
Quando soaram os primeiros acordes de Ulveham, o público reagiu instantaneamente com palmas sincronizadas a ecoar por toda a sala, num momento de comunhão total entre banda e audiência. Sentiu-se que era um tema que quase todos os presentes conheciam bem, talvez por ter sido aquele que levou a banda à Eurovisão em 2024 onde representaram a Noruega.
O concerto encerrou com Bannlyst, um tema que começou com uma atmosfera festiva, quase como um brinde num pub nórdico, antes de se transformar em algo estranho, imprevisível e profundamente emocional.
No final, a sensação era unânime: o que os Gåte ofereceram não foi apenas um concerto, foi uma experiência sensorial completa, quase espiritual, que atravessou corpo e mente. Houve algo de transcendental naquela atuação, como se a música deixasse de ser som e passasse a ser pura energia a vibrar em cada pessoa presente. O público permaneceu imóvel, entre o êxtase e o espanto, completamente rendido a uma banda que parece canalizar algo ancestral, maior do que todos nós. Foi um espetáculo em que cada nota parecia invocar imagens, emoções e memórias longínquas. Uma viagem mística entre o terreno e o etéreo. Impossível de traduzir em palavras, mas igualmente impossível de esquecer.

Setlist: 1- Skarvane; 2- Svarteboka; 3- Oskorsreia; 4- Jomfruva Ingebjør; 5- Førnesbrunen; 6- Sannsiger; 7- Ulveham; 8- Bannlyst.
LEPROUS
E chegou o momento mais ansiado da noite. Por esta hora, já a sala do Hard Club se encontrava totalmente cheia para aquilo que seria o regresso dos lendários Leprous ao Porto, após a sua presença em 2023.
Aquilo que estes seis senhores nos entregaram? Uma atuação arrebatadora, repleta de energia, precisão, emoção e proximidade com o público. Desde o primeiro tema, Silently Walking Alone, a banda norueguesa mostrou porque continua a ser uma das formações mais respeitadas do metal progressivo moderno. O equilíbrio entre o virtuosismo técnico e a sensibilidade emocional esteve presente desde o primeiro acorde.
A voz de Einar Solberg, sempre intensa e cristalina, guiou o público através das dinâmicas cuidadosamente tecidas de Illuminate e Nighttime Disguise, ambas recebidas com entusiasmo por uma plateia que parecia conhecer cada batida, cada pausa, cada grito, cada palavra. Era impossível não se deixar contagiar pela entrega e pela interação constante dos seis músicos, todos absolutamente precisos, como se tivessem sido criados em laboratório, mas sem nunca perder o lado humano e apaixonado.

Um dos momentos mais inesperados (ou talvez não para fãs mais atentos) e memoráveis da noite surgiu com a introdução do cover de Take On Me, dos também noruegueses a-ha. Antes de começarem, Einar contou com humor o episódio que levou o grupo a aceitar o desafio de reinterpretar o clássico pop dos anos 80. Algo que, nas suas palavras, “parecia uma má ideia, mas acabou por resultar surpreendentemente bem”. E resultou mesmo. A banda transformou o tema de forma a torná-lo simultaneamente reconhecível e totalmente Leprous: atmosférico, emocional e vibrante. No refrão, toda a sala se uniu num coro cúmplice de vozes, num daqueles raros instantes em que o público e a banda parecem respirar em uníssono.
Já íamos a meio do concerto, e a performance de Observe The Train destacou-se pelo contraste entre o peso emocional e a leveza instrumental. Um jogo de tensão e libertação que é marca registada da banda. Marcamos aqui o momento mais harmonioso do concerto, onde todos os olhos estavam focados em Einar.
The Price, uma das músicas mais icónicas do grupo, levantou a sala com uma intensidade quase catártica, enquanto Like a Sunken Ship mergulhou o público num ambiente introspectivo e melancólico, onde o vocalista mostrou toda a amplitude da sua voz, oscilando entre fragilidade e fúria controlada. E deixem-me que vos diga… QUE VOZ! Einar Solberg é simplesmente inacreditável. Parece não existir teto para o que ele consegue fazer com a sua voz. É uma força da natureza que transcende técnica e emoção. A cada concerto, a cada nota, supera-se novamente. Quando pensamos que já vimos (e ouvimos) tudo, ele volta a elevar a fasquia e prova que ainda há mais um patamar acima. É impossível não ficar arrepiado. Einar é, sem qualquer sombra de dúvidas, uma das vozes mais extraordinárias e inconfundíveis que a música moderna já nos deu.

Mas não se enganem, pois os Leprous são muito mais do que Einar. O virtuosismo e a entrega dos restantes músicos são absolutamente arrebatadores. Cada elemento demonstra uma precisão quase cirúrgica, como se cada nota, cada pausa e cada transição tivessem sido milimetricamente calculadas, e ainda assim, tudo soa orgânico, vivo, cheio de alma. O diálogo entre guitarras e teclados é de uma fluidez hipnótica, a secção rítmica é demolidora e incrivelmente coesa, e a forma como todos se movem em palco transborda energia e paixão genuína. Há uma sensação constante de sinergia, como se seis corpos diferentes partilhassem o mesmo pulso, a mesma respiração. A técnica é impecável, sim, mas o que realmente impressiona é a intensidade com que a colocam ao serviço da emoção, e isto foi visto durante todo o concerto!
Já perto do final, Einar decidiu entregar ao público o poder de escolha: entre Passing e Forced Entry, não houve dúvidas, com quase todas as mãos levantadas, o segundo tema venceu por larga margem, provocando uma explosão coletiva de energia e aplausos.
Seguiram-se mais dois temas antes do encore que foi uma verdadeira celebração. Atonement trouxe uma intensidade quase espiritual, encerrando o concerto num clímax digno de um épico cinematográfico.
O público do Porto saiu com a sensação de ter assistido a algo especial, não só pela setlist única (que varia de noite para noite nesta tour), mas pela entrega total de uma banda que, mesmo após tantos anos, continua a reinventar-se e a surpreender. Leprous provaram mais uma vez que a técnica pode coexistir com emoção, e que o progressivo, nas mãos certas, pode ser tão visceral quanto belo.

Setlist: 1- Silently Walking Alone; 2- Illuminate; 3- Nighttime Disguise; 4- Moon; 5- Below; 6- Take On Me (a‐ha cover); 7- Observe The Train; 8- Starlight; 9- The Price; 10- Like a Sunken Ship; 11- Forced Entry; 12- From the Flame; 13- Slave; Encore; 14- Atonement; The Sky Is Red (Outro).
No final, ficou claro que cada banda deixou a sua marca de forma distinta, construindo uma narrativa musical coesa ao longo da noite. Royal Sorrow abriram com uma intensidade emocional que prendeu o público desde o primeiro instante, enquanto Gåte trouxeram um toque de magia e mistério, fundindo tradição e modernidade num espetáculo envolvente. Já Leprous, como seria de esperar, elevaram o nível com uma atuação visceral e precisa, guiando a plateia entre momentos de introspeção e pura libertação. O público respondeu à altura, entre aplausos, vozes e olhares cúmplices, sentiu-se a comunhão rara que só a música ao vivo consegue criar.
A Free Music Events volta assim a afirmar-se como uma das principais promotoras de concertos alternativos em Portugal. A aposta em eventos cuidadosamente produzidos, com um alinhamento equilibrado e uma sonoridade exigente, demonstra um compromisso genuíno com a cena musical e com o público que a sustenta. Fica o agradecimento por mais uma noite memorável no Hard Club: uma celebração da música feita com paixão, profissionalismo e respeito por quem vive e sente cada nota.
Por cá, fica o sentimento de termos participado em algo especial.
Podes consultar todas as fotografias aqui:


