Há noites em que o metal deixa de ser apenas música para se tornar uma experiência física, quase religiosa. Na passada terça-feira, o LAV – Lisboa ao Vivo transformou-se numa catedral de distorção e suor quando Robb Flynn e os seus Machine Head subiram ao palco para mais uma paragem da aclamada Slaughter the Martyr Tour.
Uma organização impecável da Serene Prophecy.

 

A expectativa era palpável. Com o recinto praticamente esgotado, o público lisboeta, numa mistura geracional de “metaleiros” da velha guarda e sangue novo, começou a entoar o clássico grito de guerra “Machine Fking Head” muito antes de as luzes se apagarem. Quando a intro ecoou, a densidade do ar no LAV parecia ter duplicado.

O arranque foi um murro no estômago. Sem grandes rodeios, a banda lançou-se aos novos hinos de Of Kingdom and Crown, mas foi com os clássicos que o LAV quase veio abaixo.

A transição entre a brutalidade de “Imperium” e a melodia épica de “Now We Die” mostrou uma banda no auge das suas capacidades técnicas. Robb Flynn, o carismático mestre de cerimónias, não descansou enquanto não viu o centro da sala transformar-se num turbilhão humano. “Lisboa, quero ver-vos a perder a cabeça!”, gritou, antes de disparar os primeiros acordes.

Robb Flynn continua a ser um dos frontmen mais magnéticos do género. A sua voz oscila entre o rugido gutural e a vulnerabilidade melódica com uma facilidade desconcertante. Mas não estava sozinho; a coesão da atual formação é assustadora. Os solos de guitarra foram executados com uma precisão cirúrgica, enquanto a secção rítmica funcionava como uma máquina de demolição rítmica, fazendo vibrar as estruturas metálicas do Lisboa ao Vivo.

O final do concerto foi reservado para a “santíssima trindade” da discografia da banda:

“Locust”: Com a sua atmosfera opressiva e solos técnicos.

“Davidian”: O hino imortal. O grito “Let freedom ring with a shotgun blast!” foi cantado a plenos pulmões por cada alma presente, num momento de comunhão absoluta.

“Halo”: O encerramento épico, com confetes e uma ovação de pé (ou de punho erguido) que pareceu durar uma eternidade.

“Viemos aqui para celebrar o metal, e Lisboa nunca nos falha,” confessou Flynn, visivel e genuinamente grato, antes de abandonar o palco.

Os Machine Head provaram, uma vez mais, porque são sobreviventes e líderes do género. Não foi apenas um concerto; foi uma demonstração de força, resiliência e paixão. Quem esteve no LAV naquela noite saiu com os ouvidos a zumbir, mas com a alma cheia.

Fotos: