A noite mais negra de 2026 materializou-se no passado sábado, 14 de fevereiro (ironicamente, Dia dos Namorados)  quando o epicentro da escuridão se instalou no LAV – Lisboa ao Vivo. Naquele que já se perfila como um dos alinhamentos mais devastadores do ano, Mayhem, Marduk e Immolation uniram forças, e a tempestade da Death Over Europe Tour deixou um rasto de pura destruição sonora na capital.

Pela mão da Free Music Events, Lisboa recebeu um dos concertos mais fortes do ano. Os Mayhem regressaram a Portugal poucos dias após o lançamento de Liturgy of Death, trazendo consigo não só material fresco mas também a aura mítica que continua a definir o black metal. A acompanhá-los, os Marduk reforçaram a vertente mais agressiva e bélica do género, enquanto os Immolation trouxeram o peso técnico e esmagador do death metal americano. Três atuações distintas, mas igualmente brutais, que dificilmente sairão da memória de quem esteve presente.

Num recinto completamente esgotado, largos minutos antes da abertura de portas, a fila já se estendia numa autêntica serpente humana. Sentia-se no ar uma ansiedade palpável, aquela sensação rara de que algo verdadeiramente intenso estava prestes a acontecer.

IMMOLATION

A abertura da noite ficou a cargo dos Immolation, vindos de Nova Iorque, e desde o primeiro segundo ficou claro que não haveria espaço para aquecimento. A banda entrou literalmente “a rasgar”, descarregando uma muralha sonora imediata, agressiva e tecnicamente irrepreensível. Mesmo tendo passado por dificuldades logísticas recentes na Europa – incluindo problemas de transporte em França que levaram à partilha de autocarro com os Marduk – isso em nada se refletiu na performance, que foi absolutamente demolidora.

A base sonora assentou naquilo que define o death metal mais extremo: blastbeats constantes, tremolo pickings afiados e riffs que, surpreendentemente, conseguem ser memoráveis no meio do caos. Aqui, destaque total para o baterista Steve Shalaty, uma verdadeira metralhadora humana. A velocidade, precisão e resistência que demonstrou ao longo do concerto pareceram quase irreais, executadas com uma naturalidade desconcertante. A qualidade técnica global é monstruosa, algo obrigatório no género, mas sente-se que há mais: elementos subtis de black metal e até nuances vindas do heavy metal clássico, ajudando a explicar porque é que a banda continua a destacar-se dentro do universo extremo.

A setlist percorreu várias fases da carreira, com temas como Abandoned, An Act of God, Swarm of Terror e Majesty and Decay a manterem a intensidade sempre no máximo. Um dos momentos mais interessantes surgiu com Adversary, tema do novo álbum previsto para abril e que já circula entre fãs há algumas semanas. Ao vivo, confirmou-se como uma extensão natural da identidade da banda: brutal, técnico e carregado de atmosfera sombria.

Depois desse momento, a banda manteve o pé totalmente no acelerador. Temas como Dawn of Possession, Blooded, Higher Coward, Rise the Heretics Nailed to Gold prolongaram a sensação de avalanche sonora contínua, sem que a energia alguma vez caísse. Foi também nesta fase final que se sentiu uma entrega ainda maior entre banda e público, com mosh constante e uma resposta extremamente intensa da sala, provando que a atuação estava longe de perder fôlego após a apresentação do material mais recente.

Antes do último tema The Age of No Light, houve ainda espaço para agradecimentos sinceros ao público, reforçando uma ligação que se sentiu genuína durante toda a atuação.

Para quem acompanha a história do género, foi também simbólico voltar a ver a banda em tour com os Mayhem, algo que já tinha acontecido na América do Norte em 2017.

Mais do que uma banda de abertura, os Immolation entregaram um concerto completo, intenso e tecnicamente esmagador. Uma prova clara de que continuam a ser uma força absolutamente essencial dentro do metal extremo mundial.

Immolation | @the.goldenrush
Setlist: 1- Abandoned; 2- An Act of God; 3- Swarm of Terror; 4- Majesty and Decay; 5- Adversary; 6- Dawn of Possession; 7- Blooded; 8- Higher Coward; 9- Rise the Heretics; 10- Nailed to Gold; 11- The Age of No Light.

MARDUK

Quando os Marduk subiram ao palco, ficou imediatamente claro que algo imponente estava prestes a acontecer.

Desde o primeiro tema, Frontschwein, o público foi lançado numa ofensiva bélica sonora, continuando com Wolves e Throne of Rats, estabelecendo uma cadência intensa e inexorável que manteve todos em alerta total. Três temas que marcaram a longa carreira da banda, e que nos remetem para tempos completamente distintos. A energia era quase palpável, e o recinto parecia encolher à medida que a intensidade aumentava.

Próximo da metade do concerto, chegou um dos pontos altos em termos de contraste: Shovel Beats Sceptre. Este tema mais lento serviu como um respiro dentro da tempestade de velocidade, permitindo que cada riff e cada batida ressoasse com peso e intenção. Foi impossível não sentir a força dramática que transpareceu, mostrando que Marduk não é apenas agressão contínua: há espaço para nuance e tensão dentro do seu black metal.

Foi também nesta fase que Mortuus se destacou de forma plena. O vocalista e líder da banda mostrou porque é que a presença de palco dele é lendária. Conectado com o público sem perder a frieza característica do estilo, guiou cada tema com autoridade e carisma, criando momentos de pura sinergia entre palco e plateia. Mesmo com a frieza calculada da banda, sentia-se uma união genuína, reforçada pelo mosh constante e crowdsurfing que se manteve durante todo o concerto.

A banda manteve a intensidade com Cloven Hoof , Sulphur Souls e On Darkened Wings a manterem a pressão, até chegar a Infernal Eternal, que provocou uma explosão coletiva no público. Com estes temas percorremos a discografia mais antiga do grupo que marcou para sempre a história do black metal.

E claro, não poderia faltar um curto regresso às origens com The Black…, do álbum de estreia da banda. A partir daqui, o mundo nunca mais foi o mesmo… E este tema abriu caminho para Panzer Division Marduk , consolidando a sensação de sermos parte de algo maior, e imediatamente a seguir a banda fechou com The Blond Beast, encerrando a noite com brutalidade e técnica perfeitas.

Tecnicamente, Marduk é simplesmente imbatível. Cada riff foi cortante como uma lâmina, os blast beats da bateria sentiram-se quase mecânicos na sua precisão, e a combinação entre tremolo picking e mudanças rítmicas criou uma sensação de tensão constante que manteve a audiência à beira do colapso. Mortuus equilibra vocais cavernosos com uma dicção assustadoramente clara, permitindo que a brutalidade sonora nunca se torne indistinta. A produção ao vivo é cristalina: cada instrumento respira no espaço, mas sem perder a agressividade que define o black metal sueco. A estética da banda, essa cheia de fúria pura com momentos de respiro calculados, mostrou que não se trata apenas de velocidade ou agressão, mas de uma obra de engenharia sonora pensada para impactar tanto a mente quanto o corpo.

Este concerto foi a confirmação de que Marduk continuam a ser insubstituíveis dentro do black metal. A combinação de técnica, presença de palco e conexão genuína com o público fez com que cada minuto fosse absorvido com total intensidade. Do caos inicial às catarses finais, foi uma demonstração de por que esta banda é referência absoluta no género e porque cada regresso a palco é um evento obrigatório para quem respira metal extremo.

Marduk | @the.goldenrush
Setlist: 1- Frontschwein; 2- Wolves; 3- Throne of Rats; 4- Shovel Beats Sceptre; 5- Cloven Hoof; 6- Sulphur Souls; 7- On Darkened Wings; 8- Infernal Eternal; 9- The Black…; 10- Panzer Division Marduk; 11- The Blond Beast.

MAYHEM

Quando chegou a hora de Mayhem subirem ao palco, o público já estava em fervor absoluto, pronto para receber as maiores lendas do black metal. E quando os cinco membros apareceram, não poderia haver início mais avassalador: a energia era palpável e a sala inteira pulsava em antecipação!

Decidiram arrancar o que seriam vários minutos de culto com Realm of Endless Misery, do recém-lançado álbum Liturgy of Death (2026). A faixa explodiu no palco com Atilla vestido de papa macabro, encarnando de forma perfeita a personagem que o disco retrata. Desde o primeiro acorde, ficou evidente que não se tratava apenas de música, mas de uma experiência teatral completa, onde cada detalhe visual amplificava a intensidade sonora.

Depois deste arranque devastador, o concerto desenrolou-se numa sequência de clássicos que manteve a energia lá no topo. Buried by Time and Dust e Bad Blood abriram caminho com riffs pesados e cadenciados que fizeram a sala vibrar em uníssono, antes de Life Is a Corpse You Drag nos trazer de volta à mais recente obra, mostrando como cada tema funciona na perfeição ao vivo. Com Ancient Skin, viajamos até 1999, mergulhando numa atmosfera sombria e sufocante, típica de uma fase mais crua da banda.

Mas foi em Psywar que o ápice da intensidade foi atingido: riffs cortantes e a performance vocal de Atilla criaram um turbilhão quase hipnótico, onde cada golpe de bateria e cada grito se sentiam no corpo. Seguiram-se To Daimonion e View From Nihil, mantendo a tensão no ar, até que Whore irrompeu com energia visceral, selvagem e primitiva, transformando o palco e o público numa experiência quase ritualística.

A versatilidade vocal de Atilla impressionou do início ao fim. Entre berros, gritos finos e guturais, e até passagens operáticas, ele demonstrou um domínio absoluto, carregando cada tema com uma intensidade única que amplificava o poder de cada momento do concerto. Hellhammer voltou a provar por que é uma verdadeira metralhadora humana, cada batida precisa e visceral, imprimindo energia pura a cada compasso. Necrobutcher, por sua vez, sustentava os temas com linhas de baixo magistralmente executadas. Quem acha que o baixo passa despercebido num concerto ao vivo ainda não viu este senhor em ação. Teloch e Ghul, juntos, os dois nas cordas mostravam segurança e postura madura, formando a espinha dorsal perfeita para a fúria sonora de Mayhem.

Quando o riff de The Freezing Moon soou, a sala explodiu em berros. A voz de Dead, reproduzida através das gravações, trouxe uma autenticidade arrebatadora e uma viagem direta ao passado da banda, enquanto os restantes membros dominavam o palco. Só mais tarde Atilla reapareceu, imprimindo sua própria assinatura ao tema, confirmando porque é um dos frontman mais carismáticos e completos do metal extremo.

Ao longo do concerto, a banda criou momentos quase cinematográficos. Entre os álbuns e temas, imagens e passagens visuais introduziam cada fase do concerto com um clima cuidadosamente construído, elevando a performance a algo muito além de um simples concerto. Atilla, por sua vez, surgia com roupas diferentes, sempre rigorosamente alinhadas à temática de cada passagem apresentado.

À medida que o concerto avançava, a sala permanecia em êxtase. Entre Chimera, Cursed in Eternity, From the Dark Past e o mais recente Weep for Nothing, não havia uma única alma parada. A energia do público era devolvida em dobro pela banda, numa entrega intensa e íntima a cada tema.

O encore foi uma experiência épica. Mesmo com os membros ausentes por longos minutos, a sala permaneceu elétrica. Quando Silvester Anfang ecoou, sentiu-se imediatamente o peso fúnebre da atmosfera. Seguiram-se Deathcrush, Chainsaw Gutsfuck e Carnage, antes do derradeiro final: Pure Fucking Armageddon. Cada riff e cada grito esgotaram as últimas gotas de suor e energia do público, encerrando o concerto de forma perfeita e inesquecível.

No final, o concerto de Mayhem foi uma verdadeira viagem ao âmago do black metal, carregada de nostalgia, teatralidade e performances vocais memoráveis. Com uma setlist cuidadosamente escolhida, que percorreu diversas fases da carreira da banda, testemunhamos algo único, quase inatingível em termos de energia e autenticidade. Mais uma vez ficou provado: Mayhem continua a ser uma força imparável no mundo do metal extremo.

Mayhem | @the.goldenrush
Setlist: 1- Realm of Endless Misery; 2- Buried by Time and Dust; 3- Bad Blood; 4- Life Is a Corpse You Drag; 5- Ancient Skin; 6- Psywar; 7- To Daimonion; 8- View From Nihil; 9- Whore; 10- Freezing Moon; 11- Chimera; 12- Cursed in Eternity; 13- From the Dark Past; 14- Weep for Nothing; Encore; 15- Silvester Anfang; 16- Deathcrush; 17- Chainsaw Gutsfuck; 18- Carnage; 19- Pure Fucking Armageddon.

 

O que se viveu nesta noite de Dia dos Namorados foi uma experiência verdadeiramente inesquecível. Num alinhamento esmagador que reuniu três titãs do metal extremo – Immolation, Marduk e Mayhem – quem não esteve presente perdeu uma oportunidade rara e provavelmente irrepetível.

Um agradecimento especial à Free Music Events, por garantir que Portugal não ficasse de fora desta tour monumental, e ao LAV, por abrir as portas do palco a esta celebração do metal extremo.

Deste lado, ficam as memórias de quem teve o privilégio de fazer parte de algo verdadeiramente mágico, uma noite que ficará gravada para sempre na memória de todos os presentes.

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